Trump contra o mundo

O magnata Donald Trump declarou guerra ao mundo no discurso de aceitação da candidatura republicana à presidência dos Estados Unidos

O Estado de S.Paulo

24 Julho 2016 | 03h09

O magnata Donald Trump declarou guerra ao mundo no discurso de aceitação da candidatura republicana à presidência dos Estados Unidos. “America First”, a América em primeiro lugar, é o slogan de um homem que se orgulha de não ser político e que desconhece qualquer escrúpulo na defesa do que julga serem os interesses de seu país. Poucas vezes na história recente uma eleição americana representou um risco tão grande para o resto do planeta e para os próprios Estados Unidos quanto esta, em que um demagogo irresponsável, com chances reais de vitória, se prontifica a murar fronteiras para impedir a entrada de imigrantes indesejados e a usar força extrema, dentro e fora do país, contra aqueles que, em sua visão e na de seus fanáticos seguidores, ameaçam o “modo de vida americano”.

No discurso raivoso e carregado de sarcasmo, Trump anunciou que, se eleito, os Estados Unidos “serão o país da lei e da ordem”. Pintou um quadro sombrio do país, como se estivesse engolfado em violência e crimes, e ele atribuiu esse estado de coisas aos imigrantes ilegais, “que estão esta noite andando por aí livremente ameaçando cidadãos pacíficos”. Ao lembrar do caso de uma garota assassinada recentemente, Trump disse que se tratava de “outra criança sacrificada no altar das fronteiras abertas”.

Trump prometeu proibir a imigração de cidadãos oriundos de países “expostos ao terrorismo” e que não o combatem. “Só vou admitir a entrada em nosso país de pessoas comprometidas com nossos valores e que amem nosso povo”, avisou, reafirmando sua promessa de construir um muro para impedir a entrada de “gangues” e “traficantes”. Disse que a política de imigração proposta por seus adversários, que supostamente permitirá uma “imigração em massa”, vai superlotar hospitais e escolas, tirar empregos e atirar ainda mais pessoas na pobreza.

Sobre sua adversária, Hillary Clinton, que foi secretária de Estado, Trump resumiu assim o que chamou de “legado” da democrata: “Morte, destruição, terrorismo e fraqueza”. Antes dela, Trump disse, não havia Estado Islâmico, o Egito era “pacífico”, a violência no Iraque estava tendo uma “grande redução”, a Síria estava “sob controle” e a Líbia era “estável”. Graças aos “maus instintos” de Hillary, atacou Trump, a realidade hoje é outra.

Para mudar tudo isso – “pobreza e violência em casa, guerra e destruição no exterior” –, Trump apresentou seu “plano de ação para a América”.

“Americanismo, e não globalismo, será nosso credo”, anunciou, avisando que irá romper acordos comerciais que “roubam empregos do país e nos tiram nossa riqueza” e “submetem os Estados Unidos à autoridade de governos estrangeiros”. Na economia, escancarou a mais rasteira demagogia ao prometer mundos e fundos para os “negligenciados, ignorados e abandonados” e dizer que será “a voz” dessas pessoas. “Entrei para a política para que os poderosos não possam mais bater nas pessoas que não têm como se defender”, declarou.

O discurso mostrou que Trump não tem adversários, mas inimigos. Todos os que não comungam de sua visão de mundo devem ser destruídos, num processo que é a própria negação da política. Assim, a democrata Hillary Clinton, sua adversária na eleição de novembro, não deve ser derrotada, mas “ir para a cadeia”, como declarou um dos apoiadores de Trump na convenção.

Em meio a urros de aprovação da plateia, Trump disse que “a História nos está observando agora”. E ele tem razão: esse populismo deletério de Trump está na essência de movimentos que, no passado, a título de resgatar o orgulho nacional, geraram regimes totalitários na Europa e alimentaram o isolacionismo americano. O slogan “América em primeiro lugar” foi usado muitas vezes antes de Trump, mas seus defensores mais ardorosos, felizmente, jamais chegaram ao poder. Com Trump, porém, o racismo, a xenofobia e o isolacionismo da chamada “América profunda” ganharam uma chance real de conquistar a Casa Branca.

Como disse Trump no encerramento de seu discurso, “que Deus os abençoe”.

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