Tudo que é vidro se degusta com ar

Prova investiga o efeito do design de cinco decanters sobre os vinhos

Luiz Horta,

15 Outubro 2009 | 12h03

A metodologia foi bem simples: um mesmo vinho e seis opções de oxigenação, cinco modelos de decanter oferecidos no mercado e mais a opção de meramente abrir a garrafa e deixá-la respirando. A espera decidida para isso foi de 30 minutos, tempo médio que um vinho escolhido pelo cliente no restaurante leva para começar a ser bebido com a comida. Foi usado na experiência um Bordeaux orgânico jovem (Château La Grave 05, R$ 143, Delacroix Vinhos). As garrafas foram abertas simultaneamente e, decantadas, servidas às cegas aos avaliadores. Participaram do painel o enófilo e gourmet Braulio Pasmanik, o especialista José Luiz Pagliari, a sommelière do Ici Bistrô e do Tappo Trattoria, Daniela Bravin, e o jornalista do Paladar Luiz Horta. Na avaliação, todos os vinhos se mostraram muito parecidos. Só um estava mais aberto nos aromas e foi escolhido por unanimidade como o que mais tinha "respirado". Então veio a surpresa. Quase um choque. O vinho mais pronto para beber era o que não tinha sido decantado, só ficara desarrolhado junto aos outros. No debate que se seguiu, a conclusão foi que essa pequena diferença poderia ser resultado de características da garrafa, pois é bem comum haver variação entre garrafas de um mesmo vinho, dado o caráter instável e caprichoso da bebida. Veja também: Decantar ou arejar? Depende Para um tira-teima definitivo, repetimos a prova usando uma única garrafa dividida em três: uma parte deixada no recipiente, outra no Ovarius e a terceira num decantador de formato clássico. O Ovarius é um caso especial, parece o bule de chá do Chapeleiro Maluco de Alice no País das Maravilhas. Como não tem tampa e o vinho circula por dentro da alça, o líquido borbulha ao sair, como se fervesse a frio. Nesse segundo teste, o vinho que passou pelo Ovarius ficou sensivelmente mais arejado, pela dinâmica do design. A conclusão é bem óbvia – e polêmica. Num tempo tão curto de espera, o simples ato de despejar o vinho nas taças já seria suficiente para oxigená-lo. Para vinhos que precisem de verdadeira decantação, ou para casos em que seja possível esperar horas, como num jantar caseiro, não há dúvida de que a beleza de um decanter como o Riedel, soprado um a um por mestres em vidro austríacos, justifica sua posse. Antes que comecem a voar reclamações e taças por um resultado frustrante, é preciso dizer que Jancis Robinson, no seu excelente livro How to Taste, fez teste semelhante. O resultado foi igual. Relaxemos.

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