Tufão inspira discursos na Conferência do Clima

Filipino emociona ao relatar que parente passa fome enquanto empilha corpos

Giovana Girardi, enviada especial a Varsóvia, O Estado de S. Paulo

11 Novembro 2013 | 20h17

A 19ª Conferência do Clima da ONU (COP), que é realizada em Varóvia, Polônia, começou nessa segunda-feira, 11, com discursos emocionados, que fizeram a maior parte das delegações se manifestar com preocupação sobre os sinais de que as mudanças climáticas já estão ocorrendo. Mas sem nenhum indicativo mais concreto de que ações mais impactantes serão tomadas já.

O tufão Hayan, que pode ter matado mais de 10 mil pessoas (apesar de o balanço oficial ser de cerca de 900) nas Filipinas e atingiu Vietnã e outros países do sudeste asiático, levou o principal negociador filipino, Yeb Sano, às lágrimas na sessão de abertura da COP.

Ele lembrou que ficou dois dias tentando saber notícias de sua família e contou que seu irmão, que estaria sem conseguir encontrar comida, estava ajudando a empilhar os corpos. O poder devastador do tufão não tem precedentes na história, mas as Filipinas já vêm sofrendo há anos com eventos climáticos extremos. No ano passado, nessa mesma época, também houve um furacão na região, e Sano tentou apelar para o compromisso moral de todas as nações com o que está acontecendo.

Na segunda, ao pedir por metas mais ambiciosas de redução das emissões de gases de efeito estufa, assim como por financiamento climático para medidas de adaptação e de compensação para os países que já estão sofrendo com as mudanças climáticas, ele declarou que faria jejum ao longo de toda a conferência, em homenagem às vítimas, mas também para pressionar por mais ações.

Muito emocionado, desafiou aqueles que não acreditam na realidade da mudança climática que visitem as Filipinas neste momento. E pediu para que a conferência em Varsóvia seja aquela que "acabe com essa loucura".

"Nós podemos consertar isso. Nós podemos parar essa loucura. Agora, aqui, no meio desse estádio de futebol. Eu peço a você (o presidente da COP, o polonês Marcin Korolec) que nos lidere. E permita que a Polônia seja para sempre lembrada como o país onde realmente nos preocupamos em parar com essa loucura. Acredito que nós ainda podemos."

Mais cedo, quando Korolec se dirigiu à plenária, ele já havia afirmado que o tufão foi um "doloroso despertar", porque é uma "outra prova de que estamos perdendo a luta". Após a fala de Sano, houve aplausos e três minutos de silêncio em homenagem aos filipinos.

O discurso ecoou nos outros participantes. O embaixador brasileiro José Antonio Marcondes de Carvalho, que lidera o time de negociadores do País, afirmou que todos ficaram tocados pelo que aconteceu. "É uma importante lembrança para todos os países agirem imediatamente a cortarem suas emissões e se comprometerem com adaptação e meios de implementação", disse. "Mas certamente vamos ajudar mais os filipinos e os outros países e a humanidade inteira se encontrarmos as respostas para desafios que temos a nossa frente. Ou melhor, para os desafios que estamos enfrentando agora."

Perdas e danos. A expectativa de negociadores de países em desenvolvimento que já estão sendo afetados por um aumento dos eventos extremos - como o sudeste asiático, o Caribe e as pequenas ilhas - é que as tragédias possam impulsionar as discussões em torno de um mecanismo de "loss and damage", algo como pagar uma compensação para aqueles que já estão sofrendo perdas e danos. A ideia foi acordada em linhas gerais na COP passada, mas, apesar do apelo, outros diplomatas acreditam que isso só vai ficar para 2015, quando todos os países têm de chegar a um novo acordo climático global que seja válido para todas as nações e entre em vigor em 2020.

Também nos bastidores é possível ouvir que, apesar de a trágica passagem do tufão ter sido mencionada por negociadores climáticos de vários países, inclusive pelo presidente da COP, o polonês Korolec, que citou o "doloroso despertar" e a "prova de que estamos perdendo a luta", ele não deve ter um efeito realmente prático na negociação. Os países só vão assumir em 2015, como meta para o pós-2020, aquilo que a crise econômica permitir naquele momento, mesmo que depois aumentem essa ambição. Também não se espera ações concretas para reduções voluntárias mais expressivas até lá.

Um exemplo é a Polônia, país altamente dependente de carvão para geração de energia elétrica, que realizará paralelamente à COP, na semana que vem, uma cúpula sobre formas de continuar usando carvão. O evento está causando comoção entre ONGs, que pedem boicote ao evento.

*  A repórter viaja a convite da Convenção do Clima (UNFCCC)

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