Tunísia comemora transição três anos após revolta popular

Milhares de tunisianos islamitas e seculares lembraram o terceiro aniversário da queda do autocrata Zine el-Abidine Ben Ali nesta terça-feira, comemorando o que o mundo árabe tem de mais próximo de um modelo de transição para a democracia.

PATRICK MARKEY E AZIZ EL YAAKOUBI, Reuters

14 de janeiro de 2014 | 21h19

Uma multidão lotou a avenida Habib Bourguiba, na capital do país, agitando bandeiras e cantando perto do edifício do Ministério do Interior, onde os manifestantes gritaram frases exigindo a saída de Ben Ali.

A fuga de Ben Ali do país em 14 janeiro de 2011 inspirou revoltas na Líbia, no Egito, no Iêmen e na Síria. Mas enquanto esses países permanecem em turbulência ou guerra total, o partido islâmico Ennahda vai concorrer no fim deste ano com os seus adversários seculares nas urnas na Tunísia, e não nas ruas.

A Tunísia está perto de uma democracia plena, após um caminho pedregoso para um acordo político. Na semana passada, o Ennahda, partido pragmático islâmico que venceu as eleições há dois anos, renunciou sob um acordo para superar meses de impasse com a oposição secular.

A renúncia abriu caminho para uma administração tecnocrata que irá governar o país até as novas eleições - apenas a segunda desde a queda de Ben Ali e a primeira com a nova Constituição e a comissão eleitoral instalada.

"Ninguém vai questionar esses resultados agora", disse Salem Bouzidi, um trabalhador de transporte envolvido em uma bandeira nacional vermelha e branca em um comício da oposição secular. "Isto é como um novo começo para todos, por isso quem ganhar a próxima eleição será o verdadeiro vencedor."

Enquanto os tunisianos comemoravam, os egípcios votavam nesta terça-feira em um referendo sobre a nova Constituição, depois que os militares depuseram no ano passado o presidente islâmico Mohamed Mursi, seu único líder eleito livremente, levando a uma grande perda de vidas.

A vizinha Líbia enfrenta uma ilegalidade generalizada, com seus líderes lutando para controlar algumas das milícias que derrubaram Muammar Gaddafi.

A Tunísia ainda enfrenta enormes problemas. Militantes islâmicos ameaçam cometer ataques, enquanto o ressentimento público sobre o desemprego, o alto custo de vida e o desenvolvimento econômico ainda ameaçam o frágil progresso.

Mas o acordo político está funcionando no momento e uma assembleia está prestes a terminar a nova Constituição.

Em 2012, o Ennahda ganhou a maioria dos assentos na nova Assembleia Nacional, na primeira eleição livre da Tunísia. Muitos de seus líderes islâmicos passaram anos na prisão ou no exílio sob o regime de Ben Ali.

Logo surgiram divisões sobre o papel do Islã em um dos países mais seculares do mundo árabe. A influência dos islamitas ultraconservadores também preocupou os tunisianos seculares que temiam pela educação liberal e os direitos das mulheres.

O assassinato de dois líderes da oposição no ano passado por supostos militantes mergulhou o país na crise, levando a oposição às ruas para exigir a renúncia do Ennahda. Depois de meses de disputas, o partido islâmico cedeu.

"Aceitamos todo este processo. O Ennahda entregou (o governo) em uma bandeja de prata. O Ennahda sempre assumiu a responsabilidade quando os outros não fizeram", disse Solaf el- Hammami, um estudante desempregado. "Mas o Ennahda vai ganhar as próximas eleições, tenho certeza."

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