Tunísia tem forte comparecimento em eleições pós-Primavera Árabe

Tunisianos lotavam as urnas neste domingo durante as primeiras eleições livres do país, dez meses depois que um vendedor de verduras se imolou em um ato de protesto que começou as insurgências da Primavera Árabe.

ANDREW HAMMOND E TAREK AMARA, REUTERS

23 Outubro 2011 | 11h03

O líder de um partido islâmico, que deve ganhar a maior parcela de votos, era abordado do lado de fora de uma mesa de voto por pessoas que gritavam "terrorista" -- destacando as tensões entre islâmicos e secularistas, que também afetam outros países tocados pelas revoluções.

A autoimolação de Mohamed Bouazizi, motivada pelo desespero com a pobreza e a repressão do governo, provocou protestos em massa que obrigaram o presidente Zine al-Abidine a fugir da Tunísia. Isso inspirou revoltas no Egito, na Líbia, no Iêmen e na Síria.

Rachid Ghannouchi, líder do partido moderadamente islâmico Ennahda, tomou lugar na fila para votar no distrito El Menzah 6 da capital.

"Esse é um dia histórico", disse ele, acompanhado por esposa e filha, que usavam hijabs, um tipo de véu muçulmano. "A Tunísia nasce hoje. A Primavera Árabe nasce hoje."

Mas quando ele saiu da cabine, cerca de doze pessoas gritaram: "Degage!", francês para "Vá embora!", e "Você é um terrorista e um assassino! Volte para Londres!".

Ghannouchi, que passou 22 anos no exílio na Grã-Bretanha, associa seu partido ao islamismo moderado do primeiro-ministro da Turquia, Tayyip Erdogan. Ele disse que não tentará impor valores muçulmanos à sociedade.

Mas a ascensão do partido preocupa secularistas que acreditam que as tradições liberais e modernas do país estejam sob ameaça.

Pela Tunísia, filas se esticavam por centenas de metros fora das mesas de voto desde o começo da manhã.

Esse nível de interesse do eleitor nunca fora visto sob o domínio de Ben Ali, quando apenas uma parcela da população comparecia porque sabiam que o resultado era pré-determinado.

"Essa é a primeira vez que votei", disse Karima Ben Salem, 45, em Lafayette, área central de Túnis. "Eu pedi que meus filhos fizessem seu próprio almoço. Eu não ligo... Hoje, não tem serviço. Ou melhor, estou a serviço do meu país", disse ela.

PDP

A votação deste domingo é para uma assembleia que elaborará uma nova constituição para substituir a que Ben Ali manipulou durante seu poder. A assembleia também apontará um governo interino e marcar eleições para um novo presidente e Parlamento.

A maioria das pesquisas dizem que o Ennahda não terá assentos suficientes para ganhar maioria na assembleia, obrigando que o partido busque uma coalizão, que diluirá a influência islâmica.

O Partido Democrático Progressista (PDP), que lidera o desafio ao domínio do Ennahda, fez uma campanha baseada em proteger os valores seculares da Tunísia.

Najib Chebbi, que se rebelou do governo de Ben Ali e agora é líder do PDP, estava na fila para votar no distrito de Al Marsa, conversando com outros eleitores.

"Eu esperarei minha vez, mesmo que demore o dia todo. Isso é democracia", disse ele à Reuters. "Esse é o dia mais feliz da Tunísia. É a comemoração da democracia. Hoje, a Tunísia se juntou à categoria dos países avançados."

"É muito comovente ver todas essas pessoas que estão esperando sua vez para votar", afirmou.

(Reportagem adicional de Abdelaziz Boumzar e Warda Al-Jawahiry)

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