Turquia esquece UE e mira Oriente

Estratégia representa mudança na política externa estabelecida há oito décadas pelo líder nacionalista Ataturk

Gustavo Chacra, O Estadao de S.Paulo

13 Dezembro 2009 | 00h00

Depois de anos cortejando os europeus em busca de sua integração à União Europeia, a Turquia se volta para o Oriente, deixando de dar prioridade apenas ao que está ao norte e ao oeste de sua fronteira. Essa guinada representa uma mudança na política externa de Mustafá Kemal Ataturk, o líder nacionalista que secularizou e ocidentalizou o país quando o Império Otomano desmoronou, ao fim da 1.ª Guerra (1914-1918).

As relações com o Irã se intensificaram, assim como uma aproximação com os países árabes, a Rússia e outras repúblicas que integravam a União Soviética, como Geórgia e Azerbaijão. O sonho de ser membro da União Europeia foi colocado de lado, e as relações militares com Israel perderam importância. Os Estados Unidos ainda são um parceiro fundamental para a Turquia - um dos membros com maior contingente da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que reúne as principais potências militares do Ocidente -, mas o país, como o Brasil, busca deixar claro que nem sempre os interesses dos dois lados coincidem, como no caso da cooperação com o regime de Teerã. A avaliação é de analistas entrevistados pelo Estado depois de visita do premiê turco, Recep Tayyip Erdogan, a Washington na semana passada, quando se encontrou o presidente dos EUA, Barack Obama.

A política externa turca se divide em dois ramos. No primeiro, as questões que afetam diretamente a política interna, como os curdos, a Armênia e o Chipre. O outro envolve questões geopolíticas mais amplas, como os gasodutos que atravessam o país, a guerra no Iraque, as relações com o mundo árabe e a Europa, a presença de tropas no Afeganistão e o papel da Turquia como modelo de república democrática secular, onde o islamismo predomina.

Em alguns pontos, como no conflito cipriota, os dois ramos se confundem, com os europeus forçando os turcos a encontrarem uma solução para ilha mediterrânea, com uma metade, de maioria grega, integrando a União Europeia, e a outra, turca, não sendo reconhecida por nenhum outro país do mundo.

SINAIS DÚBIOS

O problema, segundo analistas, é que a Europa deixou de ser uma prioridade. "Hoje, a União Europeia é tão importante quanto os laços com os países do Oriente Médio. Além disso, os europeus emitem sinais contraditórios, indicando que não pretendem que a Turquia integre o bloco", afirma Wolfango Piccoli, especialista da agência de risco político Eurasia. "Os turcos começaram a se irritar com a hipocrisia dos europeus, ao manterem dois pesos e duas medidas para a questão do Chipre, sempre tentando encontrar uma desculpa para impedir a integração da Turquia", diz David Cuthell, da Universidade Columbia de Nova York.

Os especialistas não preveem entraves nas relações com os EUA. "Existe uma cooperação no Iraque e, apesar de Erdogan ter rejeitado o envio de mais tropas para o Afeganistão, ainda há 1.750 turcos baseados no país, embora nenhum deles atue como força de combate", afirma Piccoli. Segundo ele, as diferenças sobre o Irã nada têm a ver com uma posição contrária aos EUA: "Os vínculos entre os dois países independem do Ocidente e remontam aos tempos dos Impérios Persa e Otomano, sem falar na importância do gás e do petróleo do Irã para a Turquia, e da economia turca para os iranianos."

MUDANÇA

Com Israel, os laços se deterioraram não apenas por causa do conflito na Faixa de Gaza, que levou Erdogan a uma discussão com o presidente de Israel, Shimon Peres, no Fórum Econômico de Davos. "O Exército, que mantinha a cooperação militar com Israel, perdeu força", afirma Cuthell, da Universidade Columbia. "A Turquia não precisa mais de Israel como nos anos 1990 e os eleitores de Erdogan são favoráveis aos palestinos", acrescenta Piccoli. Esta mudança de rumo na política turca em relação a Israel levou o país a perder para a França o posto de mediador de um acordo de paz entre sírios e israelenses.

Enquanto isso, o diálogo com o mundo árabe melhorou como não se via desde o fim do Império Otomano. Síria, Líbano e até a Arábia Saudita voltaram a enxergar os turcos como aliados importantes para a região. Um dos motivos é que os turcos não aspiram assumir o papel de liderança regional - como o Brasil na América Latina. "Apesar de ser a potência econômica da região, a Turquia prefere ser vista apenas como modelo de liberalismo econômico. Não veem necessidade de ser líder", afirma o professor da Columbia.

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