Twitter segue passo da popularização do Orkut no Brasil

Bola da vez, serviço vive o mesmo clima de competição que levou rede social do Google ao topo

Rodrigo Martins,

11 de maio de 2009 | 17h23

Início de 2004: o Orkut começa a fazer muito barulho no Brasil. Com isso, usuários do serviço começam a disputar quem tem mais amigos, fãs, estrelinhas e corações. E surgem os primeiros códigos capazes de inflar artificialmente o número de recados no scrapbook, criando uma competição por popularidade. Início de 2009: o Twitter começa a fazer muito barulho no Brasil. Com isso, começa uma disputa pelo ranking de usuários com mais seguidores e surgem códigos e truques para inflar artificialmente o número de seguidores, criando uma competição por popularidade. Coincidência? Em pleno sucesso no Brasil e no mundo, o Twitter começa a virar palco de disputas, repetindo os passos do Orkut quando estava a ponto de estourar. Se há um mês os usuários já se digladiavam em torno de um código que permitia seguir automaticamente usuários - e que já bagunçou o coreto -, desde a semana passada o ranking no Brasil virou de ponta-cabeça: o mais seguido desde 2007, Marcelo Tas, foi ultrapassado pelo técnico do Corinthians, Mano Menezes, e pelo Fantástico, da Globo. E esses dois últimos são acusados de se inflarem de seguidores falsos. Típico de Orkut nos primórdios.  O que significaria isso? Será que o Twitter está prestes a estourar de vez como estava o Orkut em 2004? Ou os usuários tiveram uma súbita injeção de competitividade? O Link foi conversar com alguns dos mais entendidos sobre Twitter no País. Não há uma única possível justificativa. Para uns, é efeito de novos membros. Para outros, a disponibilidade de opções para inflar o perfil. E há quem coloque a culpa no destaque que a mídia vem dando em 2009 ao serviço. O blogueiro Cristiano Dias é o criador do primeiro ranking em português do Twitter. Para ele, desde que o serviço começou a ganhar fôlego (cresceu 950% em um ano no mundo) e virar, desde março, destaque na imprensa brasileira, começaram a entrar pessoas sem parar. Elas queriam atenção e começaram a se "inflar" para subir no ranking.  "Depois, principalmente, das capas do Link e da revista Época, o número de membros começou a crescer muito", diz ele, que conta, hoje, 110 mil usuários ativos em português. Cristiano não tem mais os números de usuários que contabilizou em março, mas usa o apresentador e blogueiro Marcelo Tas, o mais seguido até a semana passada, como exemplo de crescimento: em março, ele tinha 14 mil seguidores. Agora, 54 mil. Segundo Cristiano, códigos para seguir automaticamente outros membros e truques para inflar com perfis falsos o número de seguidores bagunçaram o ranking brasileiro. Do nada, apareceram membros com 20 mil seguidores. Com menos de um mês, o perfil de Mano Menezes já tem mais de 80 mil. "Nunca houve tanta mudança. Até o início do ano, dos 25 primeiros, eu conhecia 20. Agora, conheço poucos." Para a blogueira Rosana Hermann, uma das primeiras a utilizar os códigos para adicionar seguidores, a culpa pela bagunça no ranking não é dos novos membros, que, afirma, não são tantos assim. Ela, que inflou seus seguidores de 8 mil para 13 mil (veja ao lado), porém, também responsabiliza a mídia.  "As pessoas viram que os dez mais são os que mais aparecem em reportagens. Por isso, querem estar lá", diz. "Outra questão é que, por estar no topo, o Tas conseguiu patrocínio da Telefônica no Twitter. E muitos pensaram que, se estivessem bem colocados, conseguiriam também." Outra explicação para a competição seria a ousadia dos usuários, que cresce à medida em que novas formas de inflar o número de seguidores vêm à tona, aponta a pesquisadora em redes sociais da PUC de Pelotas (RS) Raquel Recuero. "Ninguém gosta de falar que usa artifícios para crescer. Mas as pessoas estão atrás de parecer que têm mais credibilidade. E tentam subir." Ela diz que embora haja similaridades com o crescimento do Orkut, o Twitter ainda é para iniciados. "Os novos usuários até entram, mas não entendem para que serve. Difícil exercitar futurologia, mas da forma como está, tudo indica que o Twitter não está repetindo o Orkut." FANTASMAS INFLAM NOVOS LÍDERES Fantasmas no Twitter. Há uma semana, o técnico do Corinthians, Mano Menezes, e o Fantástico, da Globo, ultrapassaram o apresentador Marcelo Tas no ranking. Os dois, que ascenderam em duas semanas, têm 85 mil e 73 mil seguidores, respectivamente. O problema é que, em ambos, 60 mil dos seguidores seriam fakes (ou fantasmas). A denúncia foi feita por Danilo Salles, do blog Twitter Central. Ele fez um mosaico das fotos dos seguidores dos dois. Conclusão: a maioria era padrão, indício de fake. Depois, analisou os nomes dos seguidores: sequências aleatórias criadas a partir de dicionários. "Com certeza, 60 mil desses seguidores são fantasmas", disse.  Procurado pelo Link, Mano Menezes não quis falar sobre Twitter, só falaria sobre futebol. O Fantástico alegou que não tem nada a ver com fantasmas. "Denunciamos ao Twitter, mas não tivemos resposta", diz o editor-chefe Álvaro Pereira Jr. Danilo, que denuncia os fantasmas, foi o responsável por outra polêmica: a dos códigos que seguem usuários automaticamente. Ele foi o criador. A tática era simples - ao seguir muita gente, parte te segue também. Usuários, do nada, apareceram com 20 mil seguidores, bagunçando o ranking. A blogueira Rosana Hermann foi a primeira a usar. Em uma semana, seu número de seguidores pulou de 8 mil para 13 mil. "Muita gente nem falava português. Inflei o Twitter, mas as pessoas não acompanhavam os tweets", disse ela, que assumiu publicamente o fato. Para Marcelo Tas, essas táticas são como silicone. "Turbinam, mas depois deformam." Para ele, está se falando para ninguém. "Os fakes não entendem português. As pessoas acham que web é como TV, quanto mais ibope, melhor. É diferente. Muitas pessoas podem até te seguir, mas não clicam no que linka." Por isso, para ele, o ranking perdeu o valor, valendo mais a quantidade de cliques nos links. "O Fantástico estar no topo é ótimo. Eles sempre apostaram na web. Mas o Mano Menezes faz promoções para distribuir camisas do Corinthians. E quando as camisas acabarem?" De qualquer forma, Tas dá um conselho de ex-líder do ranking para os recém-chegados: "Caprichem nos tweets. Estou seguindo vocês." Como diria no CQC, ele está de olho.

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