Markus Scholz/AFP
Markus Scholz/AFP

UE proíbe Alemanha de fazer novos alertas de saúde sem prova científica

Após acusar erroneamente pepinos espanhóis e brotos de soja de uma fazenda orgânica no norte do país de serem a origem do surto de infecções bacterianas que matou pelo menos 24 pessoas no último mês, Alemanha é criticada por causar prejuízo econômico

Jamil Chade / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

08 Junho 2011 | 00h00

A União Europeia afirmou que os alertas feitos pela Alemanha sobre a cepa da bactéria E. coli que matou pelo menos 24 pessoas não tiveram base científica. Por esse motivo, ordenou que o país, onde o surto surgiu há cerca de um mês, não faça novos alertas.

 

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As duras críticas ocorrem em meio a uma guerra pelo valor das compensações aos países afetados pela queda na venda de legumes, erroneamente acusados de terem causado o surto. A UE ofereceu ontem 150 milhões (R$ 347 milhões), mas Espanha e outros oito países querem mais.

O caos começou quando o serviço de saúde da Alemanha acusou o pepino espanhol. No fim de semana, a culpa caiu sobre brotos de soja, também inocentados após testes. O comissário de Saúde da UE, John Dalli, advertiu a Alemanha a não fazer mais alertas de saúde até que determine a origem da bactéria.

Em discurso no Parlamento Europeu, Dalli insistiu na necessidade de provas científicas. "Autoridades não podem se precipitar ou tomar conclusões prematuras, já que isso pode gerar medos injustificados entre a população e criar problemas para os produtores de alimentos." Ontem, a ministra de Agricultura da Alemanha, Ilse Aigner, defendeu a atuação de Berlim.

Tanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) como cientistas alertam que o tempo está se esgotando para que as autoridades alemãs encontrem a origem da bactéria, que já infectou mais de 2,4 mil pessoas. Para eles, é cada vez mais difícil detectar a origem do micro-organismo.

E, em alguns dias, essa busca se tornará impossível. Isso porque os produtos podem desaparecer ou o surto pode perder força, como parece ser o caso, porque a expansão no número de casos já ficou mais lenta. "Se não for encontrada a origem em uma semana, podemos nunca saber o que o causou", afirmou Guenael Rodier, diretor de doenças transmissíveis da OMS.

Na Alemanha - onde as mortes podem subir, já que 642 pessoas estariam sofrendo sérias complicações -, os testes continuam. Mas o fato de a bactéria não ter sido encontrada em um legume não significa que ele não seja o responsável. O problema é que ela pode estar em apenas alguns carregamentos. Para Dalli, o surto está limitado à área de Hamburgo. Ele insistiu que não há motivo para banir produtos europeus de outros mercados, como fez a Rússia.

Os Estados Unidos já confirmaram seu primeiro caso, justamente de alguém que esteve na Alemanha. Além disso, o surto foi detectado no Tennessee, com oito casos e uma morte. Mas não há nenhuma indicação de que esses estejam relacionados com os da Alemanha.

Compensação. A Espanha calculou suas perdas com a crise em 400 milhões (R$ 927 milhões), por isso rejeitou a oferta de 150 milhões feita pelo bloco europeu. O prejuízo teria sido de 100 milhões, por semana, na Itália, 50 milhões na Holanda e 30 milhões na França. "O valor não é suficiente", afirmou Rosa Aguilar, ministra de Agricultura da Espanha. Madri quer que a compensação seja de pelo menos 90% das perdas, e não 30%, como oferece a UE. O bloco indicou que o valor oferecido pode crescer, mas rejeitou o pedido de repor 90% das perdas.

O valor também foi rejeitado por Bruno Le Maire, ministro da Agricultura francês. A Alemanha diz que aceita pagar, desde que toda a UE participe. Madri ameaçou levar os alemães ao tribunal se o pagamento não ocorrer.

Segundo os produtores, além de não conseguir vender, os alimentos despencaram de preço. O pepino caiu de 21 centavos de euro para 5 centavos.

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