UFMG estuda risco de contaminação por arsênio

No Brasil, os riscos de contaminação de água por arsênio - elemento químico considerado tóxico e cancerígeno - estão circunscritos às áreas de mineração, com boas possibilidades de contenção em barragens e até de descontaminação. Esta é uma das boas notícias que emergiu de uma pesquisa iniciada em 1996, por uma equipe da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), sob coordenação de Virgínia Ciminelli. Há pouco mais de um ano, o grupo integra um dos Institutos do Milênio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que são centros de excelência, criados para incentivar pesquisas prioritárias.Pela primeira vez, no país, a equipe da UFMG utilizou a luz síncrotron para avaliar rejeitos de mineração contendo o elemento químico e assim determinar as espécies de arsênio presentes e, dentre elas, a dominante. Por espécies de arsênio entendem-se as diferentes formas em que o elemento é encontrado na natureza, variando conforme a disposição de seus elétrons, a nível molecular. Um trabalho extremamente difícil de se fazer utilizando os métodos usuais de análise, mas "extremamente importante para se inferir o risco potencial à saúde e ao meio ambiente, para saber se estamos diante de uma bomba-relógio ou não", conforme explica o geólogo Flávio Vasconcelos, doutor em Geoquímica Ambiental pela Colorado School of Mines, dos Estados Unidos, que integra a equipe da universidade. A medida do arsênio total, sem diferenciação, não traduz nem a disponibilidade do elemento, nem o grau de toxidez.A contaminação da água subterrânea normalmente é resultado de um processo natural de disponibilização do arsênio presente no solo, mas algumas atividades humanas podem favorecer esta disponibilização, entre elas a mineração, uso de combustíveis fósseis e adição de arsênio em herbicidas, pesticidas, químicos para preservação de madeira e aditivos de ração animal. Ou ainda, em alguns casos, pelo rebaixamento de aquíferos, devido à retirada excessiva de água subterrânea em poços artesianos.O mundo passou a prestar mais atenção a tal risco de contaminação após a constatação de que os poços de água de 59 distritos de Bangladesh continham altos níveis de arsênio. Isso corresponde a 85% da área total do país, com risco potencial para 75 milhões de habitantes. Pelo menos 1,2 milhão de pessoas já apresentaram sinais de intoxicação. O problema foi constatado pela primeira vez em 1993 e confirmado em 1995, quando se verificou que a área atingida era muito maior do que a inicialmente estimada. Além de Bangladesh, há registro de ocorrência de larga escala em Gana, Taiwan, no norte da China, Hungria, Grécia, Áustria, México, Chile, Argentina e Estados UnidosNo Brasil, de acordo com os resultados preliminares da UFMG, o arsênio, após a oxidação dos minerais sulfetados, ocorre associado ao ferro. Este se encontra adsorvido em estado de oxidação pentavalente, ou seja, fixado através de uma ligação química, com baixa capacidade de liberação. Nos solos do Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais - que abrange Santa Bárbara, Nova Lima e cidades históricas, como Ouro Preto - existe cerca de 20% de ferro e a espécie predominante de arsênio é o pentavalente ou arsenato, que é o menos tóxico.Segundo Vasconcelos, nos solos tropicais de Minas, a ligação do arsênio com o ferro é extremamente forte. "Pode ser possível a existência de algumas atividades microbianas, criando um ambiente redutor, no qual se disponibiliza o arsênio, mas o risco é bem menor e circunscrito à área de mineração", diz. "Conforme nos afastamos de antigos sítios de mineração, cai a concentração de arsênio, rapidamente, sendo que, nos corpos d´água, detectamos concentrações baixas, de partes por bilhão (ppb)". Segundo o pesquisador, o solo da região ainda é adequado para fazer barragens eficientes de contenção de rejeitos. Ele agora estuda os processos de disponibilização natural do arsênio, nas condições brasileiras, para determinar metodologias de limpeza de áreas contaminadas, como as antigas minas de ouro do município de Nova Lima. Ali, em 1998, uma outra pesquisa, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), constatou altos níveis de arsênio na urina de crianças em idade escolar."Também acreditamos que novos processos de descontaminação da água venham a permitir a reciclagem e a reutilização da água, tanto na lavra ou beneficiamento de minérios como para a devolução ao ambiente, com ganhos econômicos e economia de água", acrescenta Vasconcelos. A expectativa é de já apresentar resultados, neste campo, daqui a dois anos.A pesquisa da UFMG com o arsênio envolve 5 pesquisadores, estudantes e pós-graduandos e conta com recursos da ordem de R$500 mil anuais do CNPq, além da colaboração com o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), localizado em Campinas.

Agencia Estado,

19 de fevereiro de 2003 | 23h03

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