Um ano depois de prisões no futebol, nada mudou na CBF

Del Nero é o único cartola indiciado pelo FBI que continua no comando

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

27 Maio 2016 | 07h00

Eram 6h10 da manhã do dia 27 de maio de 2015. Não houve chute na porta ou algemas. No luxuoso hotel Baur au Lac de Zurique, uma operação da polícia suíça daria início a uma revolução no futebol, com a prisão de alguns dos mais poderosos dirigentes do esporte em cooperação com o FBI. Nesta sexta-feira, exatos doze meses depois, 41 cartolas já foram indiciados e mais de uma dezena de federações viram seus presidentes serem presos por corrupção. 

No total, a Justiça americana já aplicou mais de US$ 190 milhões em multas e muitos dos envolvidos correm o risco de pegar mais de 20 anos de prisão. Intocáveis, como Joseph Blatter, Jerome Valcke, Franz Beckenbauer e Michel Platini, foram suspensos do futebol ou renunciaram. A Fifa, bilionária, foi obrigada a se refundar para não desaparecer e as revelações apontaram que o futebol sul-americano foi dominado pela corrupção nos últimos 20 anos. Para analistas, o esporte jamais seria o mesmo diante das revelações sobre como copas foram compradas, como jogos foram arranjados e como um sistema criminoso penetrou no futebol. 

Mas, mesmo diante do terremoto promovido pela investigação nos EUA e na Suíça, apenas uma entidade resistiu: a CBF. Blindado pela falta de cooperação judicial entre Brasil e EUA, o presidente da CBF, Marco Polo del Nero, foi o único a se manter no poder, mesmo indiciado. 

Assim que a operação ocorreu em Zurique, o FBI pediu a colaboração da Polícia Federal, no Brasil. Del Nero, José Maria Marin e Ricardo Teixeira são acusado de receber milhões de dólares em propinas relacionadas com a Copa do Brasil, Libertadores, Copa América e com o contrato com a Nike. Buscas foram realizadas e a CBF entregou documentos. Uma CPI foi aberta no Senado e o Ministério Público Federal começou a investigar. 

Mas, um ano depois, apenas o elo mais fraco desse esquema foi detido: Marin. E mesmo assim em seu apartamento de luxo em Nova Iorque. Del Nero, depois de manobrar o estatuto da CBF, continua a mandar no futebol brasileiro. Teixeira, apontado como um dos artífices do esquema de corrupção em denúncias de outros cartolas presos, também continua solto. O que prevalece no caso brasileiro é a impunidade. 

Os suspeitos conseguiram uma decisão da Justiça no Rio de Janeiro, que tornou ilegal qualquer envio de dados do Brasil para a Justiça dos EUA sobre o caso. Alegando que o Brasil estaria violando sua soberania, ela ordenou que todo o repasse de informações fosse suspenso. 

Neste ano, a Procuradoria Geral da República deu um parecer favorável ao restabelecimento da troca de dados com os EUA. Mas enquanto a decisão não for julgada, a cooperação está barrada.

Del Nero também conseguiu garantias de que Marin não abrirá a boca e que não fará um acordo de delação premiada com a Justiça americana, ao contrário do que ocorreu com diversas outras federações. Havia sido justamente as confissões de um outro brasileiro, José Hawilla, que levou o FBI aos nomes de Del Nero, Marin e Teixeira. 

Assolados pela Operação Lava Jato, os procuradores que estavam com o "caso Fifa" em Brasília também acabaram deixando a investigação sobre os negócios suspeitos da CBF em segundo plano. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, tem admitido a pessoas próximas a ele que é um de seus principais assistentes, Marcello Miller, que tem em sua mesa tanto casos envolvendo a Lava Jato como a CBF e que, portanto, teve de dar prioridade ao primeiro.

No Senado, a CPI do Futebol teve seu trabalho bombardeado pela bancada da bola que, nos bastidores, esvaziou o processo e tentou até mesmo barrar a convocação dos dirigentes. Romero Jucá, relator da CPI, responde a três processos no Supremo Tribunal Federal e foi obrigado a se afastar do governo Temer depois de revelações que o implicaria num esforço de barrar a Lava Jato. 

O presidente do Senado, Renan Calheiros, também atuou para garantir que Del Nero e Teixeira não fossem chamados a depor. Ele teve sua campanha eleitoral em parte financiada pela CBF. 

O senador Romário promete um informe alternativo e que seria enviado para a Fifa. Seu objetivo é de que a entidade puna os dirigentes com um banimento completo do futebol, o que levaria à renúncia do atual comando da CBF.

Mas mesmo na Fifa onde é investigado pelo Comitê de Ética, Del Nero considera que está "fora de perigo". No início de maio, a entidade aprovou uma reforma que retira das investigações internas sua independência. O resultado foi a renúncia do auditor chefe da entidade, Domenico Scala, que se recusou a ver seu papel de controlador minado. 

Scala era um das principais pessoas na entidade que questionava a manutenção de Del Nero como presidente da CBF e queria uma "punição exemplar". Ele chegou a se comunicar com a CPI do Futebol para tentar obter dados sobre as investigações contra os brasileiros. 

Mas, na cúpula da CBF, a entidade acredita que ganhou oxigênio com a chegada do novo presidente, Gianni Infantino. O dirigente teve o apoio do voto brasileiro e sul-americano, na esperança de que retribua.

Assim, indiciados por corrupção nos EUA, Del Nero e Ricardo Teixeira circulam livremente pelo Brasil. Na CBF, nada mudou na estrutura de poder. 

Até mesmo a impossibilidade de Del Nero viajar foi um obstáculo. Se deixar o Brasil, o cartola corre o risco de ser preso e extraditado aos EUA. Por isso, colocou seu aliado, Fernando Sarney, como representante da CBF na Fifa e na Conmebol. Ele também criou uma estrutura para acompanhar a seleção, sem que tenha de sair do País.

Hoje, o Brasil é o único país que tem um dirigente indiciado ainda no poder. No restante da América Latina, o escândalo representou o maior abalo já vivido pelo futebol e todas as federações foram afetadas. 

Na América do Sul, renunciaram os presidentes das federações da Colômbia, Venezuela, Peru, Chile e Bolívia. Na América Central, caíram os caudilhos das federações da Costa Rica, Honduras, Guatemala, El Salvador, Nicaragua e Panamá. Argentinos, uruguaios e paraguaios também foram abalados. 

No total, 15 dirigentes admitiram culpa, entre eles o ex-presidente da Concacaf, Jeff Webb, que chegou a entregar o anel de noivado de sua mulher entre os itens da fiança. Seu julgamento será o primeiro, no dia 3 de junho e ironicamente na mesma data do início da Copa América nos EUA. Outros 9 lutam contra extradição ainda para os EUA, enquanto oito outros aguardam seus processos. 

Com dirigentes de diferentes nacionalistas, exércitos de advogados e delações aparecendo a cada semana, não se exclui que novos nomes sejam indiciados e que o processo se arraste por 2017 e 2018.

O caso está exigindo que até mesmo a Fifa tenha de passar por reformas e trocar seu comando para sobreviver. Temendo ser acusada no FBI como uma organização criminosa, a entidade adotou uma nova constituição e tenta provar nos tribunais que ela é vítima de seus cartolas, e não a autora dos crimes. 

Mas a entidade está sendo alvo de duros ataques. Infantino, com um discurso e imagem moderna, adotou as mesmas táticas dos velhos cartolas: distribuir dinheiro, cargos e lugares na Copa do Mundo para ganhar aliados. "Ele é mais do mesmo", disse Mark Pieth,  ex-assessor da Fifa e professor da Universidade da Basileia. 

Ainda assim, Infantino colocou uma prioridade: garantir que o dinheiro que será dado a partir de agora não seja alvo de desvios. "Não me traiam", disse o presidente, no início de maio aos mais de 200 dirigentes reunidos no México. 

Para garantir que o FBI entenda que a Fifa está fazendo sua parte, a entidade ainda bloqueou o repasse de verbas para algumas entidades. Uma delas foi a CBF, que continua sem receber os cerca de US$ 100 milhões que a entidade prometeu dar à CBF como legado da Copa de 2014. Scala, por não ter segurança de onde iria o dinheiro, optou por congelá-lo em contas na Suíça. 

Del Nero deu início a um processo de reforma da CBF, na esperança de indicar para a Fifa de que a entidade estava mudando. Mas o que vem sendo feito ainda não é considerado como suficiente pela Fifa. Sarney, porém, acredita que até meados do ano esse obstáculo também estará resolvido. Ao Estado, a assessoria de imprensa da Fifa confirmou que uma visita de auditores ocorrerá ainda em junho. A exigência da entidade é saber o destino do dinheiro, e não a retirada de Del Nero do poder. 

Um ano depois do maior abalo na estrutura do poder no esporte, o futebol mundial mudou. Só não no Brasil. 

CONFIRA ONDE ESTÃO ALGUNS DOS ENVOLVIDOS:

José Maria Marin 

Brasil. Ex-presidente da CBF. Prisão domiciliar nos EUA

Eugenio Figueiredo

Uruguai. Ex-presidente da Conmebol. Preso no Uruguai

 Juan Naput

Paraguai. Ex-presidente da Conmebol. Extraditado para os EUA

 Sergio Jadue

Chile. Ex-presidente da federação nacional. Prisão domiciliar nos EUA

 Nicolas Laoz

Paraguai. Ex-presidente da Conmebol. Preso no Paraguai

 Rafael Esquivel

Venezuela. Presidente da federação, Extraditado para os EUA

 

Jeff Webb 

Cayman. Ex-presidente da Concacaf Extraditado para os EUA

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