Um ano e meio depois

Saulo Penha, 19 anos

O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2011 | 03h02

São Luís (MA)-Curitiba (PR)

Adaptação ao frio

e medo da violência

No início de 2010, o goiano Saulo Penha temia o inverno curitibano, quando decidiu usar a nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para se inscrever no curso de Engenharia Civil da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Afinal, vivia há sete anos sob o calor de São Luís (MA). Agora, acostumado à mudança climática, ele diz que valeu a pena, em razão da experiência adquirida. Mas decidiu que não fica em Curitiba após os cinco anos do curso.

Ele tem saído algumas noites, mas o medo da violência o segura em casa. Morando perto da unidade da UTFPR no centro, foi assaltado uma vez, quando perdeu o celular; na segunda vez, conseguiu correr.

Penha disse ter optado por morar sozinho em um apartamento, mantido pelos pais. Eles preferem que ele se dedique unicamente ao estudo. A saudade da mãe é contida nas férias, quando ele vai a São Luís, e duas vezes por semestre, quando ela viaja até Curitiba. O pai, engenheiro civil, trabalha em Guiné, na África.

Em relação ao estudo, Penha reconhece que "está difícil", mas passou em todas as disciplinas até agora. As aulas são vespertinas e noturnas, em duas unidades da UTFPR, uma delas longe do centro. No início, ele ia de ônibus, mas fez amizade com outro estudante que mora perto de seu prédio e ambos vão de carro.

Djeiel França, 20 anos

Comercinho (MG)-Garanhuns (PE)

Insatisfação com a

qualidade do curso

Um ano e meio após chegar ao câmpus de Garanhuns da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), a 230 quilômetros do Recife, para o curso de Engenharia de Alimentos, Djeiel França avalia se deve abandoná-lo. "Se ficar aqui, não serei bom engenheiro." Os problemas que detectou ao chegar de Comercinho (MG) se mantêm. "Falta laboratório, sala de aula, material, há muito improviso", diz. Ele conseguiu uma bolsa - R$ 240 por 60 horas mensais - que lhe permite usar a internet à noite, nos dois dias em que trabalha. "A sala de informática, com 20 computadores, é disputada."

Adaptado, bem acolhido, Djeiel considera positivo o ganho pessoal com a experiência de sair de casa para estudar. Morando sozinho - algo que temia -, ele se reconhece mais maduro, com mais responsabilidade.

Auridian de Souza, 26 anos

Teresina (PI)-Bagé (RS)

Aperto financeiro

e sol mais forte

Um ano e meio após se mudar, Auridian de Souza ainda encara dificuldades diárias para frequentar o curso de Engenharia de Energias Renováveis e Ambiente da Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Mas sua situação é mais estável que a dos primeiros meses, quando morava em locais provisórios, desconfortáveis e caros e era obrigado a diversos deslocamentos diários para ir a salas espalhadas pela cidade, porque o prédio da faculdade não estava pronto.

Nos dois primeiros meses, trocou quatro vezes de casa, morando em quartos alugados por moradores, em pensões e dividindo um apartamento com três colegas a R$ 200 por mês, cada um. O aperto financeiro era tanto que eles passaram os primeiros tempos dormindo no chão, sem geladeira, guarda-roupas e água quente. Desde o início do ano, divide uma casa mais simples com um colega de Canoas (RS), a R$ 125 por mês.

Agora a Unipampa centralizou as atividades num câmpus. Para poupar R$ 1,05 de cada viagem, ele usa outros meios de transporte, que podem levar de 20 a 50 minutos. "Dependendo do clima, vou a pé, de bicicleta ou de ônibus", relata.

A alimentação mudou pouco. Cadastrou-se como pessoa de baixa renda no restaurante popular e, de segunda a sexta, paga R$ 1 por salada, arroz, feijão e carne, quase sempre linguiça.

Após ajudas temporárias iniciais, como Bolsa Instalação, ele passou a ter auxílio fixo de R$ 310 para moradia, transporte e alimentação e conseguiu bolsa de extensão de R$ 335. O orçamento é tão apertado que Souza nunca visitou outra cidade da região. O contato com os pais, um agricultor e uma dona de casa, é por carta, porque eles não têm telefone nem internet.

Apesar das dificuldades, ele percebe que a convivência entre forasteiros e moradores de Bagé vem melhorando. "No ano passado, o pessoal daqui achava que quem vinha de longe tinha boas condições financeiras e subiu o preço de tudo. Neste ano, baixaram até os aluguéis."

O que ele estranhou mesmo não foi o frio do rigoroso inverno, mas o calor do verão e o racionamento de água de janeiro a agosto. "Aqui a gente sente o sol na pele, ardendo, e tive de comprar protetor pela primeira vez na vida."

Marcos Vieira, 25 anos

Belo Horizonte (MG)-Bagé (RS)

Melhora nas condições de moradia e transporte

Assim como Souza, o mineiro Marcos Vieira fez do Enem o passaporte para o curso superior e desembarcou em Bagé para cursar Letras na Unipampa em março do ano passado. Filho de eletricista e faxineira, com uma irmã estudando Geologia na Universidade Federal de Minas Gerais, migrou para o Sul em busca de seus sonhos, passou por diversas mudanças nos primeiros tempos e agora chegou a alguma estabilidade - mas apertada, como a da maioria dos colegas.

"Agora eu pego ônibus todos os dias para ir ao câmpus", diz. Diferentemente do que passou em 2010, quando ia de uma aula a outra em locais diferentes, correndo o risco de se atrasar durante o deslocamento.

O mineiro mora no mesmo apartamento há pouco mais de um ano e divide o aluguel de R$ 800 com três colegas. O grupo equipou o imóvel com um chuveiro elétrico e geladeira. Os auxílios da universidade, de R$ 310 para transporte, alimentação e aluguel, e uma bolsa de extensão de R$ 400, não dão folga no orçamento. Vieira costuma ficar uma hora por dia na fila dos não cadastrados à espera de vaga para pagar R$ 1 pelo almoço no restaurante popular.

Damáris Peixoto, 19 anos

Pouso Alegre (MG)-São

Bernardo (SP)

Amadurecimento

e saudades da família

Damáris se sentiu perdida quando chegou a São Bernardo. Agora, a aluna de Ciência e Tecnologia da Federal do ABC se considera adaptada. "Eu me perdi muito, mas hoje já sei me virar." Mesmo assim, ela, que mora com a irmã, sofre com a saudade. "Nada como a casa da gente, a cidade da gente, a família da gente", diz. Ela planeja a vinda da mãe e a mudança com a irmã para um apartamento maior.

Quando a saudade aperta, ela se concentra no futuro. "Quero criar minha vida em São Bernardo, construir família. Tenho mais oportunidades aqui. Hoje sou mais responsável, cresci."

Felipe Alencar, 19 anos. Belém (PA)-

Diadema (SP)

Falta de

infraestrutura

Estudante de Licenciatura em Ciências da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Felipe passou na Universidade Federal do Pará, mas decidiu ir para longe, por achar que em São Paulo encontraria o melhor ensino. Mas se frustrou. "A Unifesp nem prédio tem, ela aluga um que não foi criado para esse fim. Os espaços não são adequados", reclama. "O aluno vem de longe e não há infraestrutura para recebê-lo. Não encontrei alojamentos ou auxílios com esse objetivo." Hoje, Felipe mora em república. E sem o apoio de uma tia, que o acolheu assim que chegou, a adaptação teria sido mais difícil.

Mas isso não significa que ele se arrependa, pois a experiência de morar longe também tem seu valor. "A gente constrói conhecimento sozinho e uma visão de mundo própria. Há uma necessidade de amadurecimento e uma consolidação maior do eu", avalia.

Mesmo assim, o estudante paraense admite que talvez fosse melhor estar perto da família. "Estar longe é muito duro. E as pessoas precisam saber: não é só porque é em São Paulo que é melhor." / ANGELA LACERDA, ELDER OGLIARI, EVANDRO FADEL e MARINA ESTARQUE, ESPECIAL PARA O ESTADO

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