Um bispo que odeia vinhos

Ainda no rescaldo das comemorações jubilaicas reais londrinas, tenho uma história de quase fracasso para contar. Fracasso pessoal, diga-se. Visitei os queijeiros oficiais da monarquia, Paxton & Whitfield, na chique Jermyn Street, entre sapateiros exclusivos que levam meses para fazer um calçado sob medida e a vitoriana loja de perfumes e produtos de banho Floris. A elegante fachada da Paxton não destoa na rua. Dentro, é uma boa loja de queijos, e há queijos de toda parte (eu esperava só britânicos).

LUIZ HORTA blogs.estadao.com.br/luiz-horta, O Estado de S.Paulo

07 Junho 2012 | 04h23

Mas não se compare às francesas - nada perto das cinco centenas de variedades de um monumento como a Barthélémy, em Saint-Germain-des-Prés. Outra decepção é o desconhecimento. Pedi uma mostra representativa de seis queijos das ilhas. A balconista hesitou bastante, precisou ler plaquinhas e titubeou nas respostas. E não adianta pedir diferentes tipos de maturação, como na França ("camembert para hoje ou para daqui a cinco dias?", pergunta qualquer vendedor e afinador francês; lá, queijo nunca é uma decisão simples).

Decidi eu mesmo escolher, para não constrangê-la mais. Um de cabra de York, um cheddar bem maduro (nada a ver com a massinha de modelar usada em sanduíches, o cheddar de verdade parece um bom gruyère evoluído, com cristais crocantes de sal e doçura e acidez), quase quebradiço, um delicioso cheshire, com aquela cor laranja gritante e que pica na língua (ela me dava provinhas, o que foi simpático na escolha, e a loja estava cheia), um azul que escolhi pelo nome irresistível: blue monday. E o do bispo. O Stinking Bishop já foi tratado aqui no Paladar, numa matéria sobre a feira de Broadway Market e seus fabricantes artesanais. No caso da Paxton, era um bispo bem elevado na hierarquia: trazia o selo do príncipe de Gales. E como cheirava! No metrô já despertava olhares de soslaio. No hotel precisou ser isolado na geladeira, dentro de dois sacos plásticos. Feito de leite de vaca e curtido em sidra, parece uma bomba de efeito moral. Ofende e ocupa o olfato como nem um cremoso reblochon consegue. Chegou, domina. Na boca é amanteigado, com aquele podrinho de carne de caça e toque de avelãs e nozes, além de longínquo sabor de cogumelos frescos.

Que beber com esse personagem eclesiástico de tamanha imponência? Tentei um tinto pesado: fiasco. Os taninos saltaram na boca, tudo ficou horrível em conjunto. Saquei um dos meus mais eficazes curingas, um Riesling Auslese. Sumiu, virou aguinha ligeira. Apelei para meu truque infalível, um Manzanilla de Jerez. Empatou. Não foi vencido, mas não venceu, como naquela bela batalha de Paolo Uccello que vira na National Gallery dias antes, um quadro em que a guerra parece congelada e ninguém mata ou morre. Mas a ideia de casar queijos e vinhos é ter um prazer adicional e não terminar em mero acordo de conveniência.

Foi quando me lembrei de uma pequena garrafa de Madeira, um Henriques & Henriques Malmsey 15 anos, comprada para ter um bom aperitivo e abandonada na geladeira. O vinho com tons âmbar oferece a complexidade que só os madeiras e alguns portos conseguem ter. Cada cheirada é uma coisa: frutas secas, figos, bolo de Natal, cacau, traços oxidativos. E na boca tem doçura e acidez, como beber um suco de frutas cristalizadas e flores murchas esquecidas numa gaveta. O Madeira é como entrar numa mansão fechada há tempo. Foi ele que conseguiu conversar com o bispo fedorento sem perder a elegância. Manteve sua identidade e realçou a untuosidade e carnosidade do queijo. Vinho para beber em palácios episcopais anglicanos.

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