Um brasileiro no encontro do papa com a arte mundial

Hoje e amanhã, o músico Alvaro Siviero estará no evento de artistas do Vaticano

Alexandre Gonçalves, O Estadao de S.Paulo

20 de novembro de 2009 | 00h00

Um brasileiro participará amanhã do encontro do papa Bento XVI com cerca de 260 artistas do mundo inteiro. O pianista Alvaro Siviero estará ao lado de personalidades como o compositor italiano Ennio Morricone, o arquiteto americano Daniel Libeskind e o diretor israelense Samuel Maoz. Há 45 anos Paulo VI realizou um encontro semelhante. Desta vez, parece ter sido uma sugestão repentina de d. Gianfranco Ravasi, presidente do órgão do Vaticano dedicado ao diálogo com o mundo contemporâneo. Os convites foram enviados há apenas um mês. Siviero não titubeou em cancelar dois concertos marcados para o período. Muitos artistas já tinham a agenda comprometida nos dois dias do encontro, o que diminuiu a diversidade cultural e religiosa que a Igreja esperava reunir. A maior parte dos confirmados são italianos ou vivem em países vizinhos.

Muitos artistas brasileiros gostariam de participar do evento. Por que o convite foi dirigido a você?

Não sei. Mas quem é visto, também é lembrado. Há dois anos realizei um recital para o papa durante sua visita ao Brasil. Talvez por isso recordaram do meu nome quando prepararam a lista dos artistas. Foi uma grande alegria. Para mim, terá sabor de reencontro.

O que acha que o papa pretende?

Recordar os artistas que eles não são o fim da sua própria arte. De algum modo, recebemos o dom de vislumbrar a Beleza com "B" maiúsculo. Com o trabalho artístico, comunicamos algo desta visão que enriquece e dota de sentido a vida das pessoas. Quando o artista acredita que ele mesmo é a carta, e não um mero envelope, abandona sua vocação. Frustra quem procura nele um encontro com a beleza e revela apenas o rosto pouco atraente do exibicionista.

Para você, qual deve ser a relação entre arte e fé?

Há algumas semanas terminei uma turnê com o terceiro concerto de Rachmaninoff pelas principais salas do País. Experimentei a distância absurda entre a arte que realizo - mesmo quando é bem sucedida - e aquela perfeição que vislumbro no momento do ardor criativo. Percebi que a beleza da obra artística é um pálido reflexo de algum outro tipo muito superior de beleza. Esta é a ligação que vejo entre arte e fé. O artista deve ter consciência muito profunda da sua missão. Não vale a pena estudar tanto só para receber aplausos. Deve haver um sentido mais alto.

Que sentido é esse?

O artista é responsável por causar o encantamento do belo na vida das pessoas. Guimarães Rosa escreveu que "a beleza aqui é como se a gente a bebesse, em copo, em taças, longos e preciosos goles servidos por Deus. É de pensar que também há um direito à beleza, que dar beleza a quem tem fome de beleza é também um dever cristão". Concordo com o Rosa.

O papa não deseja aparar as arestas de uma relação marcada muitas vezes por hostilidades?

As tensões entre o mundo da cultura e a Igreja existem. Mas podemos fazer análises superficiais. Li opiniões que reduziram o encontro a uma reação do Vaticano às diabruras de alguns artistas. Sempre citam o sapo crucificado de Martin Kippenberger. Com certeza, o papa se preocupa com coisas mais profundas do que blasfêmias infantis. Dostoievski coloca nos lábios de Dimitri Karamazov uma boa definição do problema tal como Bento XVI o vê: "A beleza é uma coisa terrível e espantosa. É o duelo do diabo e de Deus, sendo o coração humano o campo de batalha." O papa também acredita que o mundo será salvo pela beleza.

Como será a programação?

No dia 20 (hoje, sexta), haverá um coquetel nos Museus Vaticanos. Conheceremos a nova ala que será dedicada à arte contemporânea. No sábado (amanhã), teremos o encontro com Bento XVI na Capela Sistina. São os momentos mais intensos do evento. Haverá também espaço para os artistas dialogarem entre si.

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