Um brinde com Eric Asimov Esnobismo anti-Bordeaux chega ao fim

Era comum, até recentemente, ver jovens sommeliers de Nova York se congratulando por esnobar os raçudos Bordeaux, que viam como símbolo antiquado de riqueza e presunção, coisa do passado. Consideravam tais vinhos fora de moda e, pior, irrelevantes. Como as coisas mudam rápido... Não, os vinoscenti do Brooklyn não adotaram Bordeaux como mais uma atitude irônica. Mas a resistência acabou por fazer do lugar (que ainda é a principal região produtora do mundo) um inesperado local alternativo. Muitos dos que exibiam seu sentimento anti-Bordeaux como uma medalha, passaram a gostar dos seus vinhos. "Acho que virou uma forma de novo Jura", diz Daniel Johnnes, importador e responsável pelos vinhos do Grupo Dinex de Daniel Boulud, comparando Bordeaux com a região quase esquecida do leste da França, que virou a queridinha da vanguarda dos enófilos na última década. "Era tão pouco cool beber Bordeaux que quem bebe agora é muito cool." Talvez ele exagere um pouco. Verdade que se Bordeaux não virou a coisa mais legal do mundo, pelo menos superou o desprezo anterior. Jovens bebedores e sommeliers agora respeitam a história e a tradição do lugar, e apreciam os seus vinhos. O novo interesse é verdadeiro e Johnnes, que fez mais que qualquer um para aumentar o gosto americano pelos borgonhas nos últimos 25 anos, passou em 2010 a importar uma coleção de Bordeaux de preços módicos, de denominações de origem menos conhecidas, como Côtes de Bordeaux Castillon e Montagne-St.-Émilion. "Foi um estouro, superou em três vezes nossa expectativa", exulta.

O Estado de S.Paulo

14 Março 2013 | 04h26

Há mais acontecendo, o mais significativo talvez tenha sido a BurdiGala, uma degustação festiva realizada no mês passado, com uma dúzia de produtores renomados servindo vinhos e batendo papo com os convidados. O evento (o nome é um trocadilho com Burdigala, nome histórico em latim da região de Bordeaux) culminou com um jantar black-tie para 200 pessoas preparado por Alain Ducasse e servido sob a cúpula bizantina da Igreja de São Bartolomeu, no East Side. Se trajes formais, chef com três estrelas Michelin e um cenário pomposo não são exatamente contrários à imagem esnobe que infernizou Bordeaux anteriormente, o genial da ocasião foi reunir os 40 sommeliers mais importantes da cidade, formadores de opinião decisivos na área de vinhos, para um serviço perfeito e entusiástico. "No nosso mundo, sempre quisemos surpreender os outros sommeliers oferecendo vinhos de regiões pouco conhecidas ou vinhos raros" disse Bernard Sun, chefe de bebidas do grupo de Jean-Georges. "Desta vez houve unanimidade."

Se os consumidores voltarão a beber Bordeaux, serão vinhos de denominações menos conhecidas. A qualidade cresceu muito, mas ainda é preciso garimpar. "Bordeaux pode ser muito complexo, com estrutura incrível e um dos vinhos mais capazes de envelhecer", comentou Pascaline Lepeltier, gerente do Rouge Tomate, que tem uma das melhores cartas de Manhattan. "Fazendo o dever de casa dá para encontrar coisas sensacionais. Não é fácil nem óbvio."

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