HAMID MIR/REUTERS
HAMID MIR/REUTERS

Um buraco negro de carisma

Por que nas mãos de Ayman al-Zawahiri, herdeiro de Bin Laden, o futuro da Al-Qaeda está em risco

PETER BERGEN

25 Junho 2011 | 12h19

Não há nada como, finalmente, assumir o posto mais alto depois de uma década atuando como vice de um chefe com grande visibilidade. Mas para Ayman al-Zawahiri, cirurgião egípcio que durante muito tempo foi o segundo na hierarquia da Al-Qaeda, suceder ao antigo líder implica um desafio inesperado: o predecessor deixou-lhe um presente amargo, e Zawahiri não parece ser o líder capaz de reverter a situação.

 

A Al-Qaeda está vendendo uma ideologia que já perdeu muito do seu poder de compra no mundo muçulmano e não arquitetou nenhum ataque terrorista bem-sucedido no Ocidente desde 7 de julho de 2005, quando atacou o serviço de transportes em Londres. A força fundamental por trás desse declínio são as mortes de civis muçulmanos nas mãos de terroristas da jihad.

 

Consciente deste problema, em dezembro de 2007 Zawahiri solicitou perguntas de seus seguidores pela internet. Alguém que se identificou como um professor de geografia indagou: “Desculpe-me, mas quem está matando, com a bênção de Vossa Excelência, inocentes em Bagdá, Marrocos e Argélia? O senhor acha que o assassinato de homens e crianças é uma jihad?”

 

Isso só confirma as deficiências de Zawahiri, especialmente se comparado a seu predecessor. Longe de ser o orador iluminado que foi Bin Laden, Zawahiri está mais para o tio afetado e prolixo que insiste em regalar a família no jantar de Ação Graças com histórias sobre suas misteriosas disputas com inimigos obscuros para as quais ninguém liga. Zawahiri não é apenas um buraco negro de carisma, mas um líder ineficiente que não é bem visto nem muito apreciado mesmo por grupos jihadistas do Egito, sua terra natal. Suas poucas manifestações públicas sobre os eventos da Primavera Árabe foram recebidas com um bocejo coletivo no Oriente Médio.

 

A persona de Zawahiri faz uma real diferença para o futuro da Al-Qaeda, cujos membros juraram obediência a Bin Laden. Não está absolutamente claro quantos vão transferir automaticamente esse juramento para Zawahiri. Quando seguidores de Bin Laden descreveram seus sentimentos com relação a ele, o fizeram com amor. Abu Jandal, iemenita que se tornou seu guarda-costas, qualificou o primeiro encontro com o líder, em 1997, como “lindo” e disse que passou a vê-lo “como um pai”. Shadi Abdalla, jordaniano que também foi um dos seguranças de Bin Laden, explicou o que o atraía no chefe: “Uma pessoa carismática que consegue persuadir os outros simplesmente pelo jeito de falar”.

 

Nada evidencia que Zawahiri inspire sentimentos similares. Na maior parte das vezes ele passa por um clássico gerente mediano, como quando se queixou num memorando anterior ao 11 de Setembro, descoberto mais tarde no Afeganistão, de que os membros da Al-Qaeda no Iêmen tinham gastado muito dinheiro numa máquina de fax.

 

Um sinal de sua fragilidade potencial como novo líder da Al-Qaeda é que, apesar de ele ter sido o vice de Bin Laden desde 2001, demorou mais de seis semanas após a morte de Osama para o grupo anunciar sua ascensão ao topo da organização.

 

Apesar de todas as deficiências de Zawahiri e dos sérios problemas institucionais que herdou, existem algumas oportunidades para ele ressuscitar a Al-Qaeda. À medida que a Primavera Árabe se converte num verão longo, quente e violento, Zawahiri tentará explorar o caos regional para alcançar seu objetivo central: estabelecer um novo santuário para a organização.

 

O único lugar em que poderá fazer isso é o Iêmen. Segundo as autoridades americanas, o grupo afiliado da Al-Qaeda nesse país é o mais perigoso de todos os ramos regionais. E seguramente ela tentará se beneficiar da nação que hoje é a mais parecido com o Afeganistão de antes do 11 de Setembro: extremamente pobre, essencialmente tribal, fortemente armada, marcada por anos de guerra.

 

Após o 11 de Setembro, Zawahiri escreveu na autobiografia que o maior objetivo da Al-Qaeda era assumir o controle de um território importante no mundo muçulmano. Explicou que, sem alcançar essa meta, as ações da rede não significarão mais que “meras e repetidas agitações”. Ele poderá ter a chance de atingir o objetivo, mas diante das suas deficiências pessoais, sua capacidade de liderança questionável e uma marca institucional que se deteriora, não há muitas razões para supor que o conseguirá – mesmo no combalido Estado iemenita./TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

Peter Bergen é diretor de Estudos de Segurança Nacional na New America Foundation. Escreveu este artigo para o Washington Post

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