Um canto a serviço dos sentimentos

Maria Bethânia chega a São Paulo com o emocionante Amor, Festa, Devoção

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

12 Dezembro 2009 | 00h00

Se é para cantar coisa tão sagrada como o amor que seja sobre um palco coberto com pétalas de rosas vermelhas. O novo show de Maria Bethânia, Amor, Festa, Devoção, começou com Santa Bárbara. A música de Roque Ferreira rogou o pedido: "Nos livre das tempestades/ Desse mundo/ Dos raios dessa vida nos proteja/ Dona das rosas vermelhas/ Soberana Divina/ Que assim seja." E assim foi a noite da última quinta, a primeira das três apresentações - com ingressos esgotados - no Teatro Abril, em São Paulo. A baiana abria os caminhos antes de interpretar, de modo emocionante, algumas das canções inéditas dos CDs Encanteria e Tua.

Em seguida a Santa Bárbara, veio Vida (Chico Buarque) e a leitura de Olho de Lince, poema de Wally Salomão. As primeiras músicas, selecionadas de Encanteria, eram ligadas ao universo espiritual de Bethânia: Feita na Bahia (Roque Ferreira), Coroa do Mar (Roque) e Linha de Caboclo (Paulo César Pinheiro/ Pedro Amorim). Ao entrar no labirinto do coração, o corpo já estava fechado. Surgiu, então, o repertório de Tua.

Para cantar É O Amor Outra Vez (Dori Caymmi/Paulo César Pinheiro), Bethânia sentou-se. Em Tua (Adriana Calcanhotto), continuou sentada e emendou os versos de São Demais os Perigos Dessa Vida (Vinicius de Moraes e Toquinho). Ela falava da beleza do amor. A iluminação de Lauro Escorel deu o clima intimista. O cenário de Bia Lessa com uma parede forrada de rosas destacou a silhueta de Bethânia. Fazia sentido, nesse momento, entoar os versos de Fonte (Saul Barbosa/Jorge Portugal): "Não há nada mais bonito/ Que o nosso amor/ Ele é sonho, é som, é sol, é cor, é vida."

O palco estava reservado para a voz de Maria Bethânia, de 63 anos, que não se escondeu atrás dos instrumentos da banda formada por Jaime Alem (violão), Jorge Helder (baixo), Carlos Cesar (bateria), Vitor Gonçalves (acordeom), Marco Logo e Reginaldo Vargas (percussão). Os arranjos de Alem privilegiaram o canto da baiana.

Explode Coração (Gonzaguinha) foi cantada a capela. Bethânia deu o primeiro sorriso. Foi em frente com Você Perdeu (Marcio Valverde), Dama do Cassino (Caetano Veloso), Drama (Caetano) e Balada de Gisberta (Pedro Abrunhosa). A parede de rosas subiu, anunciando o fim da primeira parte. Com o verso de Drama ecoando: "Dessa garganta tudo se canta."

À primeira vista, Amor, Festa, Devoção parece se dividir em dois shows diferentes. Embora o roteiro de Bethânia e Fauzi Arap preveja dois atos, tudo integra uma mesma visão de mundo. Maria Bethânia é cada vez mais Maria Bethânia: a paixão por sua terra - Santo Amaro da Purificação -, a profunda gratidão à família - Dona Canô é fundamental para este show -, a voz a serviço da verdade dos sentimentos. Como se fosse possível, ela está mais essencial.

Não Identificado (Caetano) foi a grande homenagem a Dona Canô. E a deixa para viajar ao interior do País com Estrela (Vander Lee) e Serra da Boa Esperança (Lamartine Babo). Nas laterais, desceram quadros com fotos de fachadas de casas nordestinas, tiradas por Anna Mariana. Embalada pela viola caipira, a intérprete dizia cantar como uma prece o Brasil caboclo, ameaçado pelo "progresso vazio". Com Saudade Dela (Roberto Mendes/Nizaldo Costa), homenageou Dona Edith do Prato, morta há um ano. O interior do País deu lugar aos males do amor em Saudade (Moska/Chico Cesar), O Nunca Mais (Roberto Mendes/Capinan), Bom Dia (Herivelto Martins) e Andorinha (Silvio Caldas).

O rigoroso ritual da cantora chegou ao fim com Pronta pra Cantar (Caetano Veloso), O Que É, O Que É (Gonzaguinha) e Encanteria (Paulo César Pinheiro). Exemplo sobre o que significa presença de palco, Maria Bethânia não precisa ser perfeita - ela leu algumas letras -, fazer pose, ter cara de sofrimento. Não é populista. Essa atitude fez o público se render à senhora descalça que cantou um sentimento nada fora de moda.

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