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Um Delúbio à espanhola

Queixando-se de traição, ex-tesoureiro do partido governista denuncia esquema de corrupção que ameaça derrubar o primeiro-ministro da Espanha

Germán Aranda,

20 de julho de 2013 | 16h00

Há uma distância enorme entre as neves do Everest e o inferno da prisão de Soto del Real, em Madri. Também o jovem Luis Bárcenas, que em 1987 buscou a glória chegando ao pico mais alto do mundo ao mesmo tempo que subia de posição dentro do Partido Popular, está muito distante do ex-tesoureiro que mostra um dedo obsceno para os fotógrafos num gesto de absoluto desprezo. Mergulhado num lodaçal de corrupção e atrás das grades, Bárcenas decidiu abrir a boca e denegrir toda a cúpula do partido no governo, incluindo o premiê da Espanha, Mariano Rajoy, cuja demissão as ruas já estão exigindo.

De obscuro canalha condenado ao ostracismo e decepcionado diante da promessa não cumprida de proteção que lhe foi dada pelo premiê, Bárcenas tornou-se o bode expiatório de supostas engrenagens de corrupção que reduziram a legitimidade do governo a zero. A opinião pública espanhola (na quinta-feira começou a se manifestar a respeito nas ruas), a oposição em bloco, grande parte do próprio Partido Popular (PP) e também os mercados internacionais estão de acordo: Rajoy deve renunciar. E o motivo foi a explosão de ira do ex-tesoureiro do PP, que decidiu exibir progressivamente documentos e provas –- tais como mensagens de texto trocadas com o chefe de governo – que implicam Rajoy e membros do alto escalão do partido na cobrança de doações privadas irregulares e no pagamento de gratificações realizados pelo próprio tesoureiro.

Quando em janeiro foram vazados pelo jornal El País documentos que confirmavam a existência de um caixa 2 do partido administrado por Bárcenas, ele negou a autenticidade dos papéis. Em julho, cansado do abandono pelo premiê, extravasou sua raiva através do jornal El Mundo. Num artigo relatando sua conversa com o ex-tesoureiro publicado em 7 de julho, o diretor do jornal, Pedro J. Ramírez, diz que Bárcenas afirmou que "nos últimos 20 anos, pelo menos, o PP vem se financiando de forma ilegal", e que se ele divulgasse os documentos, o que fez alguns dias depois, "derrubaria o governo". Está próximo de consegui-lo.

A trajetória de Luis Bárcenas, a ascensão e queda vertiginosa do homem que levou o governo à beira do precipício, é um misto de ambição, discrição e mistério. Pouco se sabe de sua vida em Calañas, localidade de 5 mil habitantes na humilde Província de Huelva, no sul da Espanha, onde nasceu em 22 de agosto de 1957.

Madri é uma cidade onde chegam estudantes e trabalhadores de todo o país que querem crescer, para quem a vida na província parece pequena. E para Madri foi Luisito estudar economia e depois trabalhar para o principal partido da direita espanhola, a Aliança Popular, que nasceu como evolução democrática do franquismo durante a transição pacífica na Espanha da ditadura de Franco para a monarquia parlamentar em vigor até hoje. Mais tarde, o partido passaria a se chamar Partido Popular e chegaria ao poder pela primeira vez em 1996, quando José María Aznar foi eleito premiê.

Estamos em 1982. Luis, com um terno velho e sapatos furados, chega à sede do partido, apadrinhado pelo importante empresário Ángel Sanchís. Seu pai, diretor de uma agência de banco, autorizara a concessão de um crédito ao empresário, que retribuiu o favor colocando Luis, com um pequeno cargo, no partido. Quando chegou, Luis era casado e tinha um filho. Mas logo se apaixonou por Rosalía Iglesias, filha de um taxista, e acabaria se casando com ela. Ainda hoje Rosalía é sua mulher e com ela tem um segundo filho, Guillermo, aficionado por pôquer.

"Era um jovem educado, trabalhador e eficiente quando chegou. O tempo acabou confirmando-o como "Senhor Eficácia" pois não havia trâmites que não conseguisse resolver. O que mais o destacava era o fato de nunca provocar conflito, afirma Jorge Verstrynge, secretário-geral do partido quando Bárcenas chegou. Com um perfil muito mais técnico do que ideológico – "nunca expressou uma opinião política", acrescenta Jorge –, Bárcenas foi se fortalecendo na sombra. Durante aquele período, segundo Jorge, "não havia possibilidade de cometer irregularidades por dois motivos: em primeiro lugar porque não havia uma lei dos partidos, de modo que cada partido se acertava como podia; e, em segundo, porque se tratava de um partido pequeno que ainda não aspirava ao poder e, portanto, às empresas não interessava fazer doações".

Em 1986, segundo um perfil publicado por El Mundo em fevereiro, Bárcenas foi despedido porque o novo presidente do partido, Antonio Hernández Mancha, não confiava em seus métodos. Mas ele demonstrou capacidade de sobrevivência, retornando às fileiras do partido quando, em 1989, o fundador do PP (e tio do seu melhor amigo na universidade, Luis Fraga), Manuel Fraga, voltou a dirigir a agremiação. Em 1990 um escândalo de corrupção acabou afastando o mentor de Bárcenas, Ángel Sanchís, e o então tesoureiro, Rosendo Naseiro. Mas o novo encarregado das contas do partido, Álvaro Lapuerta, confiava muito nele e lhe delegou grande parte das operações financeiras. O papel de Bárcenas era claro: operar por baixo do pano o caixa do partido para que os políticos pudessem seguir tranquilos sua agenda pública, muito mais lucrativa. Não estava interessado em altos cargos, como ficou demonstrado pela sua recusa a um posto em La Moncloa, o palácio presidencial, quando o PP chegou ao poder em 1996.

Sua fortuna e seu poder, e também seus inimigos, foram crescendo à medida que passavam os anos e os presidentes pelo partido, sem que fosse demitido. Sua imagem de dândi – trajes caros, cabelo com brilhantina penteado para trás – o típico esnobe madrilenho – era vista cada vez com mais apreensão. Sobretudo pelos que sabiam que ganhava 200 mil, o triplo do que recebia um ministro. Mas continuou na executiva do partido, nomeado tesoureiro por Rajoy em 2008, até ser afastado provisoriamente em julho de 2009, quando foi indiciado por suposta relação com um outro caso anterior de corrupção conhecido como Gürtel. Quando esse escândalo eclodiu, seu nome apareceu em algumas anotações confusas, citado como "Luis, o canalha". Mas Jorge Verstrynge, conhecedor do funcionamento dos partidos, relativiza: "Quando falei com ele, disse-lhe que não acreditava que ele fosse o canalha, mas que, em todo o caso, era um deles. O tesoureiro do partido somente executa ordens dos seus superiores políticos".

Uma fonte anônima que conheceu Bárcenas define-o como "amigo dos amigos, com quem tem uma relação muito forte, pouco dado a festas, ensimesmado, misterioso, prático, mas ao mesmo tempo com um temperamento místico, daí sua paixão pela montanha, capaz de chorar ao galgar um pico". Mas a realidade é que sua carreira de alpinista – ele também é fã de esqui – não serve somente para humanizá-lo ou lhe conferir uma aura de pureza. Também envolve um episódio obscuro.

Em 1987, ele e o amigo Luis Fraga, com quem compartilha também a paixão pela literatura de Joseph Conrad, organizaram uma expedição ao Everest. Quando chegaram ao cume da montanha, diversas autoridades negaram que eles tenham aberto um novo caminho para o topo da montanha, como pretendiam Bárcenas e Fraga. Um membro da expedição, Biscen Itxaso, conhecido montanhista e hoje deputado do Parlamento autônomo basco, deu razão às autoridades e pôs em dúvida os métodos dos dois membros da Aliança Popular. "Fizeram-nos assinar um documento particular no qual reconhecíamos a autoridade da equipe organizadora e nos comprometíamos a não comentar nada sobre o que ocorrera na expedição", denunciou Itxaso em 1988, segundo o El Mundo Deportivo. "Fraga e Bárcenas querem ser elevados à categoria de personagens públicas, mas não se dão conta de que podem acabar se afogando na espuma das ondas que estão criando", concluiu, premonitório, o alpinista.

Porém a espuma que afogou Bárcenas foi mais a de sua fortuna e dos documentos que assinou em nome do partido. Até pouco antes de ser preso, ele estava esquiando e passeava tranquilamente por sua propriedade de campo nos Pirineus da Catalunha e administrava sua fortuna na Suíça. As autoridades helvéticas informaram que lá estavam depositados até 22 milhões do ex-tesoureiro. Também são investigadas suas contas no Uruguai. ‘Quem afirmar que o dinheiro depositado na Suíça não é meu eu mato", ameaçou recentemente numa explosão de cólera. Quem conta isso é Raúl del Pozo, escritor e jornalista que em 2009 já advertira que Bárcenas, envolvido no caso Gürtel, era somente uma espécie de "pedágio", de acordo com sua fonte anônima cujo cognome é Garganta de Seda. "Como nos filmes de gângsteres, o tesoureiro faz o que lhe determinam", acrescentou.

Em janeiro deste ano, El Mundo informou que por 20 anos no PP foram distribuídos entre 5 mil e 15 mil mensais aos líderes do partido, pagamentos feitos pelo próprio Bárcenas. Duas semanas depois, El País publicou os conhecidos "papéis de Bárcenas" que provariam a existência de um caixa 2 no PP e a distribuição de propinas.

Entre os que receberam estava Rajoy, no poder desde que venceu as eleições por maioria absoluta em novembro de 2011 – agraciado com 25.200 anuais durante 11 anos. As doações privadas clandestinas, muitas vindas de construtoras, teriam sido feitas em troca de favores e contratos na fase do auge da bolha imobiliária na Espanha, antes de eclodir a crise.

Em abril, Del Pozo disse que ele não desejava ser um traidor do partido, mas poderia detonar tudo se Rajoy não o protegesse. A conversa de quatro horas, publicada depois pelo diretor de El Mundo, confirmou que ele chegaria a tal extremo. O escândalo atingiu o auge quando uma troca de mensagens SMS entre Rajoy e Bárcenas foi divulgada por El Mundo. "Eu estarei aí sempre(...) a vida é resistência e que alguém o ajude", ou "seja forte", foram algumas das mensagem em que o premiê sugeria ao ex-tesoureiro e sua mulher que se mantivessem em silêncio sobre o mensalão espanhol. Conseguiu o silêncio do ex-tesoureiro, até que este não aguentou mais e viu que não tinha o apoio que imaginava ter e estava prestes a pagar pelas, no mínimo, irregularidades de todo o partido.

Paralelamente, o ex-premiê José María Aznar voltou ao cenário público nos últimos meses enviando mensagens críticas ao atual governo. Se Rajoy cair, desse lodaçal deve surgir uma luta pelo poder que poderá ter Aznar como principal candidato para recuperar pelo menos a liderança do partido, com o ministro da Justiça, Alberto Ruiz Gallardón, como delfim. A ex-presidente do PP em Madri, Esperanza Aguirre, que foi uma das mais enérgicas na condução do caso Bárcenas, também aspira ser um dia primeira-ministra da Espanha, tendo como modelo Margaret Thatcher.

No momento, na eventualidade uma crise, a vice-primeira-ministra, Soaraya Saenz de Santamaría, é a melhor colocada para assumir a presidência interina.

Apesar da queda de popularidade do governo na sua gestão da pior crise econômica da Espanha, do o barulho das ruas e do assédio da oposição, o único homem capaz de derrubar Rajoy estava ali dentro, no centro do mundo tenebroso das finanças do PP, e era o irascível tesoureiro do mensalão espanhol. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*GERMÁN ARANDA É CORRESPONDENTE NO BRASIL DO JORNAL ESPANHOL EL MUNDO. ESCREVEU ESTA REPORTAGEM PARA O ALIÁS

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