Um discípulo e seu mestre

Edição especial dos dez anos da morte de Oswald de Andrade trouxe, entre outros, o depoimento de um dos célebres "chato-boys"

Paulo Emílio Sales Gomes,

01 de julho de 2011 | 17h12

Do Suplemento Literário

24.10.1964

Um discípulo de Oswald em 1935

P.E. Sales Gomes

La pelos dezoito anos tudo, com exceção do cinema e de qualquer ciencia exata, me interessava tão vivamente quanto confusia e superficialmente: política, literatura, psicanalise, teatro, arquitetura, sociologia, pintura. O criterio era um só. Tudo que me parecesse moderno tinha valor.

Não sei como explodiu em mim a fé no modernismo. Mas havia um antecedente. No ginasio praticava modernismo sem o saber, até o dia em que vivi um episodio singular. Durante as aulas de quimica, fisica ou latim costumava escrever dialogos de teatro, num espírito de gozação e eventualmente em colaboração com meu colega de classe Décio de Almeida Prado.

De uma feita não preparara a composição encomendada por Seu Gonçalves, o professor de português. Acuado, aproveitei o intervalo maior de dez minutos, para encher uma folha de papel com frases de no maximo três palavras, alinhadas umas embaixo das outras. Mal entreguei o papel já estava arrependido e temeroso com as eventuais consequencias da molecagem. O que me aguardava era o meu primeiro e unico triunfo escolar.

E' preciso lembrar que o ginasio em questão, o Lyceu Nacional Rio Branco, havia sido concebido no espirito novo da Reforma da Educação de Fernando Azevedo e Lourenço Filho e que lá por 1931 conservava traços das origens. Imagino que um dos principios do Lyceu era encorajar a originalidade e explico assim o entusiasmo com que foi recebida minha composição por Seu Gonçalves e pelo Diretor, dr. Almeida Junior, que a leu nas classes mais adiantadas. A surpresa foi instantaneamente substituida pelo prazer do sucesso, mas deve ter surgido muita perplexidade dentro de mim. Ela veio mais de uma vez á tona, vinte anos depois, no divã do psicanalista.

Em 1935, pois, aderia a tudo que me parecia moderno: comunismo, aprismo, Flavio de Carvalho, Mario de Andrade, Lasar Segall, Gilberto Freyre, Anita Malfatti, André Dreyfus, Lenine, Staline e Trotsky, Meyerhold e Renato Viana. A confusão era ainda maior. Quando fui ao Rio recolher artigos para a revista que estava fundando com Décio de Almeida Prado, "Movimento", visitei Lucia Miguel Pereira, Gilberto Amado, Pontes de Miranda e Mauricio de Medeiros...

Conheci Oswald depois da publicação da revista. Encontrara seu filho Nonê no ateliê de Anita, que havia desenhado a capa de "Movimento", e deve ter sido ele quem me apresentou ao pai ilustre. O nome de Oswald de Andrade tinha para mim enorme prestigio. Como o de Mario de Andrade. Não que houvesse lido seus livros. Mas eram as figuras principais do modernismo brasileiro e sabia que Oswald se tornara comunista. Um ano antes o jornal que fundara com Pagú, "O Homem do Povo", havia sido depredado pelos acadêmicos de Direito.

Oswald me adotou imediatamente e guardo a impressão de que o via o tempo todo. Mas não me lembro onde morava e penso que naquele periodo nunca fui á sua casa. Encontravamo-nos no café da praça do Patriarca onde hoje é "A Capital". Também na "Leiteria Campo Bello", e numa "rotisserie" do predio Martinelli, e igualmente num outro café situado no lado oposto da rua São Bento, para a banda do largo São Francisco e da Faculdade de Direito. Naquele tempo o centro ainda era do lado de lá do Viaduto. Foi no ultimo café citado que certa vez nos defrontamos com Roland Cavalcanti de Albuquerque Corbisier, Francisco Luiz de Almeida Salles e outros estudantes integralistas. Oswald contou ao pequeno auditorio, que reagiu indignado, o caso de um capitalista italiano assediado pelos partidarios de Plinio Salgado a fim de contribuir financeiramente para a causa, e que viera pedir informações a ele, Oswald: "Integralismo! Que cossa é questa nuova cavaçó?" Eu sobraçava um volume intacto de "Les Questions du Léninisme" de J. Staline das "Éditions Sociales et Internationales". Roland, olhos brilhantes, me concitava a ler Alberto Torres. Oswald defendia minhas leituras afirmando que o livro de Stalin era o "De Bello Gallico" do seculo vinte.

Meu pai, um pouco inquieto, incompanhava de longe essa minha nova amizade. Mamãe era mais moderna, tinha ido ao baile do SPAM no Trocadero fantasiada de vendedora de bolas de gás, mas tinha cisma com Oswald. Quando mais tarde o apresentei, ele fez uma profunda reverência, beijou-lhe as mãos e me elogiou muito, o que causou boa impressão. Mas a cisma permaneceu.

Foi com Oswald que fui ao Municipal ver a bailarina expressionista norte-americana Belle Didjah dançar, com uma enorme bandeira vermelha, uma musica inspirada no hino da internacional. Visitávamos também as raras exposições de arte e Oswald aprovou rindo os desaforos que escrevi no livro de impressões de uma senhora latino-americana sua amiga que pintava florestas tropicais.

Foi Oswald que me levou de volta ao Circo, que frequentara na infancia com meu irmão Éme, levados por Maria Preta, mas do qual só guardara a lembrança de uma aguda crise de apendicite. Piolim, amigo de Oswald, interpelava-o do meio da pista. Êle respondia, Nonê e eu arriscavamos alguma coisa e nos integrávamos no espetáculo. Mais tarde eu deveria frequentar metodicamente o Circo Piolim, na Praça Marechal Deodoro, durante cerca de dois anos. Cheguei a escrever uma espécie de ensaio sôbre Piolim mas os companheiros da revista "Clima" se opuseram a que fôsse incluido no numero da revista em preparo. Meu texto com efeito continha algumas expressões populares ou infantis ainda mal aceitas literariamente como por exemplo "pipi". Acontece que havia sido recebido e já aceito um poema de Vinicius de Moraes no qual o verso estribilho era "cocô de ratinho, cocô de ratão". Se não me engano foi Décio de Almeida Prado que opinou contra êsse acumulo num mesmo numero da revista. A publicação do meu trabalho foi adiada e em seguida devo ter perdido o manuscrito. Deploro pois desconfio que não era mau.

Viajávamos também. Quando se noticiou que Lupe Velez estava a caminho de Buenos Ayres, Oswald, Nonê e eu descemos a Santos a fim de entrevistá-la no navio, por conta de "A Platéia", um jornal então em fase esquerdizante. A atriz estava casada com Johnny Weissmuller e a primeira pergunta de Oswald foi: "Usted tiene cellos de Tarzan?" Afastado diplomaticamente pelo empresario da entrevista coletiva, o meu amigo refugiou-se num canto com a secretária da artista, uma velhota, a quem atribuiu declarações extraordinárias na reportagem que publicou: Lupe Velez não saberia ler ou escrever, aliás em Hollywood toda gente era mais ou menos analfabeta com a unica exceção de Chaplin.

As aperturas economicas já atenazavam a vida de Oswald. Andava empenhado em demandas contra a Curia Metropolitana e não tinha mais o "Cadilac verde", ao qual se referiria Mária de Andrade numa conferência célebre, ou outro carro qualquer. Mas havia um taxi com um "chauffeur" japonês que era como se fôsse dele. Nesse automóvel é que circulávamos. Iamos a Itu na companhia da poetisa Julieta Bárbara e de um peruano, Guillermo Hohagen, amigo de Raul Victor Haya de la Torre e representante dos apristas refugiados em Buenos Aires. Acompanhava-nos também com frequência uma criança de uns quatro anos, Rudá, filho de Oswald e Pagu, a quem uma lenda tenaz atribuia o nome de Rhodo Metallico, o melhor lança-perfume existente na praça durante o Carnaval. Encontrávamo-nos também no Rio de Janeiro.

Eramos mestre e discipulo. O estilo curioso de nossas relações é, como verifiquei mais tarde, bastante frequente. Eu não cessava nunca de agredi-lo. Hoje fico pasmo com a paciencia que Oswald de Andrade tinha comigo. Imagino que o divertia. No Rio, quando me levava para conhecer Manoel Bandeira, José Lins do Rego, Anibal Machado ou o jovem Jorge Amado que acabara de publicar "Jubiabá", eu não perdia uma ocasião de contradizê-lo, ás vezes de forma bastante virulenta. Oswald, feliz, explicava para seus amigos que minha forma vital de expressão era o coice, mas que não houvesse engano, não se tratava de um cavalo e sim de um potro. a impressão que aquelas figuras da literatura brasileira moderna me causavam era variavel. Murilo Mendes me impressionou porque ao descer do onibus que nos conduzia berrou um "Abaixo o Fascismo" na direção dos passageiros atonitos. Também fomos ver Portinari e Santa Rosa que haviam sido contratados pela Universidade do Distrito Federal, fundada por Pedro Ernesto, que entregara sua organização a Anisio Teixeira, modelo que seria destruido alguns meses mais tarde e que só renasceria muitos anos depois, em Brasilia.

O importante porém era quando Oswald me conduzia á redação e ás oficinas de "A Manhã" de Pedro Motta Lima, orgão oficioso da Aliança Nacional Libertadora, a expressão politica legal do esquerdismo brasileiro. Lá conheci paginando o jornal em mangas de camisa, mergulhados no entusiasmo do trabalho militante, o pintor Di Cavalcanti e um jovem como eu, Carlos, filho de Mauricio de Lacerda, o tribuno da Aliança Liberal que acabava de aderir á Aliança Nacional Libertadora; sobrinho de Paulo, que teria enlouquecido na prisão sob as torturas policiais; e também de Fernando de Lacerda, que morava na Russia. Nessas ocasiões eu readquiria a austeridade. Politica era para mim o que havia de mais serio.

Sub-repticiamente o comunismo me conduzia ao puritanismo. Logo surgiram entre discipulo e mestre conflitos menos superficiais. Eu começara a ler os livros de Oswald de Andrade e não os levava muito a serio. Literatura ara mim ainda era sobretudo Eça de Queiroz e mesmo guerra Junqueiro e até medeiros e Albuquerque. Admirava, porém, com grande entusiasmo ao artigos panfletarios de meu amigo, notadamente "A Retirada dos Dez Mil".

Não reli essa polemica contra os integralistas mas calculo que a perfidia e a riqueza de invenção me encantariam ainda hoje, apesar das raizes na tradição do trocadilho, esse mecanismo de humor tão caro ás gerações intelectuais brasileiras anteriores á primeira guerra mundial, mas que ainda alcançou e marcou os modernistas de 22 e seu principal historiador, Mario da Silva Brito.

"Serafim Ponte Grande" me divertia, mas "O Homem e o Cavalo" me desnorteou e chocou. E' bom sublinhar que meu entusiasmo pela vanguarda teatral, notadamente Meyerhold, decorria de confusas leituras de descrições e impressões, por sua vez não muito claras, de Joseph Gregor ou René Fulop Miller que encontrava nos livros mal traduzidos da editora "Globo". Ainda aqui o principal aos meus olhos era o quadro dessas experiencias artisticas, a Russia. Tinha ouvido falar e admirava em confiança "O Bailado do Deus Morto" de Flavio de Carvalho. Minha experiencia real de espectador não ultrapassava Joracy Camargo, Procopio e Renato Viana.

Alguns aspectos de "O homem e o Cavalo" me atraiam muito. Parecia-me evidente que a peça era maravilhosamente subversiva, abertamente revolucionaria, que profetizava a irresistível ascensão do proletariado ao domínio da sociedade, do mundo, da Lua e dos outros planetas (1). Ao mesmo tempo estava convencido de que a principal função do teatro de vanguarda seria a de dar aos operários brasileiros a consciência da alta missão que os esperava. Nesse ponto é que se aguçavam minhas reservas contra "O Homem e o Cavalo". Como é que um texto, pensava eu, que se destina a operários pode conter tantos palavrões, alguns pronunciados por São Pedro, ou cartazes e situações escabrosas? Nenhum trabalhador brasileiro, continuava pensando, levaria essas obscenidades e blasfemias para casa, e se por acaso assistisse á encenação da peça em companhia da familia, sairia certamente indignado. Pensava e dizia tudo isso para Oswald. Além de dizer, escrevi.

O artigo saiu na "Manhã" e na "Platéia", o que já seria suficiente para agastar Oswald. Pior do que isso, estava repleto de elogios a José Lins do Rego que publicara então "Moleque Ricardo". Aí meu amigo estrilou num desabafo impregnado de ciume, se bem que o ciume literário em estado puro só o vi manifestar em relação a Mário de Andrade, o qual, aliás, como pude constatar, nutria igual sentimento pelo antigo companheiro de luta modernista. Essas descobertas me surpreendiam pois conhecia muito pouca cousa fora ou dentro de mim.

A resposta de Oswald foi um artigo ferino onde demonstrava que eu não havia entendido "O Homem e o Cavalo", me acusava de tartufismo e me xingava de "piôlho da Revolução". Com efeito, não foi só a concepção geral da obra que escapou ao meu entendimento, mas igualmente uma quantidade de pormenores. Uma das personagens da peça é Eisenstein. Apesar do texto se referir ao "homem do cinema" eu estava convencido de que se tratava de uma deformação de Einstein, da mesma forma que Oswald transformara o Prof. Piccard, o pioneiro da estratosfera, em Icar. Em suma, só me atingiam as declarações revolucionarias ou então evocações sentimentais como "a mãe do Soldado Desconhecido". Para isso estava preparado pois assistiria em fins de 1930 um "skecth" dramático de uma revista de variedades onde uma mulher toda de negro interpelava um presidente Washington Luiz abatido pelo remorso.

No dia seguinte á publicação do artigo de Oswald, "A Platéia" escreveu um editorial chamando a nossa atenção, dizendo que os intelectuais revolucionários não deviam brigar entre si. Eufórico de me ver tratado de intelectual e revolucionário me liguei ainda mais com Oswald, para grande escandalo de minha mãe que não se conformava com o piôlho.

Oswald estava fundando um clube artístico, "O Quarteirão", e me colocou na secretaria geral como seu instrumento. O clube nunca chegou a se organizar realmente mas foram criadas comissões de todo tipo, menos de cinema, e houve muita reunião. Flávio de Carvalho procurava distinguir as tendências artísticas aceitáveis das que deveriam ser combatidas. Raul Briquet representava a ciência. Paulo Mendes de Almeida propunha noções sôbre Carducci. Oswald exaltava Bernard Shaw, "o ponta esquerda da burguesia britanica". Havia jovens, Afranio Zuccoloto, Sangirardi Junior, Décio de Almeida Prado, Osmar Pimentel. Geraldo Ferraz, que simpatizava com a Quarta, procuravas detectar nas moções as palavras de ordem da Terceira Internacional.

Tenho a impressão de que meus 18 anos duraram anos. Tudo aconteceu em alguns poucos meses de 1935. No fim dêsse ano os comunistas ensaiaram um golpe militar. Oswald se escondeu . Eu fui preso, provavelmente de acôrdo com meus secretos desejos, mas sem imaginar que a prisão pudesse durar tanto tempo. Quando um ano e meio mais tarde consegui fugir do Presidio do Paraiso, mal revi Oswald e viajei.

E quando voltei havia acabado a idade de outro.

(1) O espaço de "O Homem e o Cavalo" é interplanetario e o tempo abarca mais de 2.000 anos. O unico "planeta vermelho" aparentemente é a Terra. Marte, notoriamente, permanece bastante reacionário apesar de possuir um partido comunista poderoso.

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