Um Exame de 'Mínima Moralia'

31.5.1958

Rucgero Jacobbi,

13 de maio de 2011 | 15h01

Theodor Wiesengrund Adorno e, para muita gente, um nome, uma citação: Thomas Mann apresenta-o como o "verdadeiro conselheiro secreto" com que ele contou durante a redação de seu romance Doktor Faustus. Na verdade, Adorno foi uma das figuras principais da emigração antinazista. Nascido em 1903, educado num meio cosmo-polita, aberto ás influencias das mais vivas correntes da cultura européia, seu interesse tipico pelos problemas esteticos (especialmente aplicados á musica) não o impediu de assimilar amplamente aquela cultura sociologica e política que foi caracteristica da mocidade universitaria alemã no primeiro após-guerra. Livre-docente no ateneu de Frankfurt de 1931 até o momento das perseguições raciais, que o afastaram da catedra, Adorno e autor de um ensaio sobre Kierkegaard Konstrution des Aestetischen, além de colaborador do “Zeitschrift für Sozial forschung”. Sua reflexão, portanto, formou-se em contacto direto com os movimentos mais avançados dos últimos anos da Republica de Weimar, numa esfera de pensamento que vai desde a leitura de certas paginas do jovem Marx até a interpretação critica do irracionalismo kíerkegaardiano, nietzschiano e heideggeriano; desde uma prudente assimilação das doutrinas de Freud até (especialmente) uma tradição sociologica e historiografica ligada aos nomes de Weber e de Sonibart. Exilado nos Estados Unidos, durante os anos da guerra mundial, compôs, em colaboração com Horkheimer, sua obra de maior folego, a Dialectik der Aufklärung, além de uma serie de ensaios sobre a musica moderna, mais tarde intitulada Philosophie der neven Musik. Entre 1944 e 1947, Adorno colaborou nas pesquisas realizadas pelo American Jewish Commitees sobre as origens do odio racial e do espirito autoritario. Enquanto isso, vinha compondo os Mínima Moralia (hoje traduzidos em francês, castelhano e italiano), que resumem sua experiencia de intelectual exilado, culminando numa analise critica da sociedade capitalista, observada de dois pontos de observação absolutamente exemplares: a Alemanha de antes do nazismo, e os Estados Unidos da epoca rooseveltiana.

Não se pense, porém, que os Mínima Moralia tenham nascido sob o signo de uma polemica direta, ou que se trate de obra baseada em alguma facil mitologia, como seria a contraposição entre duas civilizações, ou, pior ainda, a tentativa de estabelecer um caminho abstrato de solução da crise cultural e social contemporânea. Adorno, convencido de que a estrutura economica objetiva é o fator determinante do comportamento moral, e sabedor de que (num mundo governado pela rígida lei da concentração economica e das poderosas estruturas monopolisticas), a autonomia do comportamento particular se reduz a uma lenda poetica, afirma que a unica direção possível para o “moralista” é a da analise dialetica dos fenomenos elementares da vida social, isto é, das atitudes, crenças e costumes “standard” que constituem atualmente a “way of life” da coletividade capitalística. Continua, sim, sustentando que a analise do nucleo individual é o primeiro e necessario elemento da critica social: entretanto, o continuo entrelaçamento da investigação psicologica com a interpretação sociologica e, afinal, filosofica – e o jogo de luzes de seus aforismos – visam resolver a observação particular num processo de ordem universal. A própria renuncia – de Adorno a uma exposição sistematica, em favor de um tipo de epigrama que lembra o gosto e o “corte” da aforistica de Nietzsche, quer ser justamente a limpida imagem de um pensamento voltado para a analise daquele monstruoso processo de “alienação” que condiciona hoje, em todos os sentidos, a existencia e a liberdade do homem. Repelindo a ilusão do sistema e da dedução fácil, “ultimo gesto oratorio do pensamento”, o moralista Adorno não tem outra ambição senão a de iluminar, com uma “abertura” imprevista, com uma “transição” inesperada ou paradoxal, o quadro desconsolado de um mundo onde o elemento humano parece – implicitamente negado.

“Aquele caminho que os filosofos outrora chamavam vida, reduziu-se á esfera do intimo, e depois, do puro, e simples consumo, que não é senão um apendice do processo de produção sem autonomia e substancia própria. Quem quiser aprender a verdade sobre a vida imediata, deve examinar sua forma “alienada”, as potencias objetivas que determinam a existencia individual até nos recantos mais escondidos”. Esta citação encerra um programa. Diferenciando-se do ensaismo etico tradicional. Adorno (que bem conhece a analise marxista do conceito de Selbsifremdung) reconhece que “o olhar aberto sobre a vida já se transferiu para a ideologia, a qual encobre a inexistência de qualquer vida”. Quem, portanto, empreende, hoje em dia, qualquer operação de “filosofia sobre o homem”, deve tout court descrever uma realidade dependente, na forma da mais rigorosa necessidade, das exigencias e estruturas impessoais da esfera economica. Vivendo, como estamos vivendo, numa epoca marcada pelo “es- farelamento do individual”, as eternas categorias estabelecidas por Hegel como fundamentos da cultura e da sociedade burguesas já não se salvam da “suspeita de falsidade”; então, "a triste ciencia” que resta ao filosofo e ao moralista contemporaneo pode apenas investigar os reflexos que do plano “real” da produção se projetam na tela “aparente” da experiencia individual. Em outra pagina, esse processo é definido como a arte de “estabelecer perspectivas, dentro das quais o mundo se desloque, se alheie, revele sua fratura e suas fendas” – a arte de mostrar, debaixo da falsa aparencia da ordem conformista, aqueles mecanismos de controle, aquelas “regras”, ou “metodos”, ou “estruturas ideologicas”, que estão sistematicamente eliminando a esfera da “consciencia individual autonoma”, tão “ingenuamente” afirmada pela filosofia tradicional.

Resultará evidente, dessa exposição esquematica, a lucidez de Adorno, sua consciência das proprias finalidades teoricas e praticas. Mas, para evitar os equivocos que podem derivar da insistencia em algumas idéias bem conhecidas dos leitores do primeiro Marx, devemos esclarecer que essa atitude critica perante a sociedade atual é, em Adorno, ditada essencialmente pela saudade de uma civilização que ele mesmo declara morta, muito mais do que pela esperança de uma possível libertação ou palingenese historico-politica. Como Thomas Mann, o autor dos Minima Moralia tem por paradigma ideal aquela livre e altiva imagem do “espirito burguês”, que o proprio Mann teorizou em varios ensaios e que Georg Lukáes ilustrou admiravelmente em seu estudo sobre o romancista alemão. Adorno é, sobretudo, um teorico da decadencia burguesa (da crise dos valores e instituições que garantiam as “autonomias liberais”) – um homem que, no admitido e constatado “desespero do presente”, não encontra senão a tristeza das “ocasiões perdidas”. Desta forma, suas analises geniais (basta citar as paginas sobre o cinema, a televisão, o conformismo dos intelectuais, o neopositivismo logico) não se traduzem numa concreta denuncia historica. A propria forma do aforisma é, sim, ruptura com a falsa universalidade dos filosofos, mas também facilita certa ambiguidade intelectual. Mas isto também pertence ao panorama de uma analise “interna” do fenomeno, como é inteiramente a do A. – o que, afinal de contas, não deixa de ser uma prova de sua honestidade, aliada a uma problematica tão estimulante.

*O Suplemento Literário circulou no Estado entre 1956 e 1974. Foi mantida aqui a ortografia original do artigo

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