Eli Wohl/AP
Eli Wohl/AP

Um hippie entre os hassídicos

Fotógrafo relembra a convivência com os judeus ortodoxos do Brooklyn, em Nova York, o seu ‘pessach’ fundamental

Claudio Edinger,

09 de março de 2013 | 16h00

No começo de 1976 cheguei a Nova York e fui direto ao International Center of Photography (ICP), inaugurado dois anos antes. Queria mostrar pro Cornell Capa um trabalho exposto no Masp sobre o edifício Martinelli em SP. O Cornell era o diretor fundador do ICP, o maior e mais importante (e um dos poucos, na época) museus de fotografia do mundo. Ele não me atendeu, mandou sua auxiliar olhar o trabalho, que me perguntou, where is São Paulo? Eu ri. Típico, pensei e disse, fica na Argentina. Ah, disse ela, que olhou meu trabalho como a gente olha o bilhete de loteria que o vendedor mostra, na porta de um restaurante.

Saí de lá magoado, mas sem poder me queixar. Afinal estava em Nova York, preparado para passar um ano, absorvendo a vibe, visitando os museus e indo conhecer as revistas Life e Look, que acabavam de ser relançadas. Com 23 anos de idade não dá pra guardar muito rancor, a vida muda de hora em hora.

Andando pelas ruas vi um judeu ortodoxo, todo fantasiado do que eles se fantasiam. Eu, um hippie brasileiro, cabelo comprido abaixo do ombro e barba de 4 anos universitários sem cortar. Me formei economista em 1974 e no ano seguinte comecei a fotografar de verdade. Senti uma estranha afinidade com o judeu hassídico. Eu também era judeu, mas nossa identificação foi mais pela mútua marginalidade e principalmente pela longa barba.

Sem muito pra fazer, ainda em choque pela recepção abaixo de zero do ICP, comecei a segui-lo pelas ruas, até a rua 47, onde o pequeno afluente ortodoxo desaguou num oceano de ternos pretos, chapéus negros e barbas suficientes pra dezenas de revoluções cubanas. Cadê minha câmera?!

No dia seguinte voltei lá, intrigadíssimo, comecei a fotografar e quase fui linchado. "Pare aí!" Um grupo juntou-se à minha volta: "O que você está fazendo?" Eu, em um inglês precário, expliquei que era brasileiro e só queria fazer umas fotos pra mostrar em meu país. Ninguém quis saber. Mas um deles apiedou-se e disse que eu deveria ir para uma parte do Brooklyn, onde moravam os seguidores do rabino Lubavitcher, mais liberais, que não se importavam em ser fotografados.

Em março de 1976, cheguei a Crown Heights, a parte do Brooklyn onde vivem os devotos do rabino, que era como um guru para eles.

Os judeus hassídicos, ou judeus da bondade e do amor, surgiram na Ucrânia e depois na Polônia do século 18, orientados pelo famoso rabino Baal Shem Tov (1698-1760), um carismático místico da cabala que fazia milagres e curas. Depois de sua morte, os hassídicos dividiram-se em vários grupos distintos. Todos estão até hoje representados no Brooklyn.

Fui morar com os Lubavitchers, mas visitava com frequência o grupo mais radical dos Satmars, em Williamsburg. Estes, "xiitas", com raras exceções preferem ser lançados do alto do Empire State a aparecer numa foto.

Os grupos são rivais e era comum os jovens saírem no tapa. Os Satmars, mais ortodoxos e estranhos (com aqueles lindos chapéus de pele, os schtreimels, usados em festas e aos sábados), são contra o Estado de Israel. Os Lubavitchers, mais simpáticos e modernos, defendem o prosetilismo dos judeus não ortodoxos e defendem Israel.

Viver com os Lubavitchers era como morar na aldeia dos gauleses do Asterix. Era uma pequena vila de dez mil pessoas, na Eastern Parkway, cercada por centenas de milhares de "romanos" - afro-americanos, neste caso - até onde ia a vista.

Ir de metrô pra casa, vindo de Manhattan, era ver, aos poucos, todos os brancos saírem do trem e só sobrar eu, os judeus e os negros americanos, que olhavam pra gente com uma antipatia declarada. Era comum ver um judeu desgarrado, fora das ruas da comunidade, ouvir um coro pouco agradável de "Hitler! Hitler! Hitler!" No famoso blecaute do verão de 1977, todas as lojas dos judeus foram saqueadas.

Na década de 70, nós, hippies, procurávamos comunidades alternativas para viver, a contracultura rolava solta, o sonho era bem real e eu me divertia tentando fotografar e aprender, sem preconceitos, com as várias comunidades de hassídicos do Brooklyn.

Eles, um dia por semana, não andavam de carro, nem de metrô, nem viam TV e estudavam o dia todo, sem parar. Conheci muita gente muito inteligente no meio deles. Estudavam nas escolas o Velho Testamento, as interpretações deste e as interpretações das interpretações.

Fiquei amigo de um casal de hassídicos brasileiros. Eles me receberam em sua casa, eu passava alguns shabats (da sexta para o sábado) com eles e conversávamos sobre tudo. Conseguiram que eu ficasse por um ano, pagando aluguel de US$ 100 por mês, em um apartamento no porão da casa de um cunhado deles, também hassídico.

Quando chovia, o subsolo inundava e a família toda - pai, mãe e três filhos - descia com baldes para me ajudar. Cena de comédia iídiche. Saí de lá e passei outro ano num apartamento em cima de uma loja de tapetes na rua principal do bairro. O problema é que quando tomava banho a água vazava no andar de baixo e molhava os tapetes.

Entramos num acordo e todo dia eu ia tomar banho na mikvah, ou casa de banhos ritualísticos, com mais outros cem hassídicos. Uma cena inesquecível que infelizmente não pude fotografar.

Eu ia a festas, serviços religiosos, visitava a casa das pessoas e em geral era muito bem recebido em meu bairro de Crown Heights, no Brooklyn. À noite tínhamos casamentos quase todos os dias. Eles adoravam dançar. Os homens formavam rodas e, ao som da clarineta, rodavam, rodavam, rodavam de mãos dadas, danças que uniam o grupo e mexiam comigo. No começo, meio tímido, ficava olhando, fotografando. Com o tempo lá ia eu, de mãos dadas com um bando de barbudos, girando, dançando, viajando no tempo.

O peixeiro, um hassídico russo bem-sucedido, já de barba branca mas não tão velho assim, queria me casar com sua filha, uma moça até bem bonita. Tínhamos em comum absolutamente nada.

Foi uma grande aventura de transição entre São Paulo da época da ditadura militar para Nova York, capital do mundo, com Andy Warhol, Rauschenberg, de Kooning, Christo e seus prédios embrulhados, Philip Glass, o nosso Hélio Oiticica, Basquiat, do Sid Vicious, que matou sua namorada Nancy no Chelsea Hotel. Foi nessa época, nos anos 70, que surgiram a Apple e a Microsoft.

Grandes fotógrafos - Garry Winogrand, Cartier-Bresson, André Kertész, Bruce Davidson, Mary Ellen Mark, Cindy Sherman, Harry Callahan, William Eggleston, Robert Frank, Mapplethorpe, Joel Meyerowitz, Philippe Halsman -, todos perambulavam pela cidade.

Fui conhecer vários deles. Vi uma palestra de Winogrand, que afirmou categoricamente: "Se não fotografasse estaria preso". Quando morreu, em 1984, descobriram 2.500 rolos de filme feitos por ele e não revelados. Pra mim essa é a essência de um fotógrafo: entende que a vida está acabando, não pode parar nem pra revelar suas fotos...

Eu fotografava, revelava e ampliava as fotos dos hassídicos em meu banheiro, à noite - de dia entrava luz. A minha vida era muito simples, não tinha nem TV. Lia muito, meditava muito, fotografava muito.

Fui juntando e editando as fotos dos judeus e, em 1978, conheci o fotógrafo Philippe Halsman, nascido em Riga, mesma cidade que minha mãe, que me apresentou a seu amigo Cornell Capa. Desta vez o Cornell convidou-me para expor o trabalho no ICP.

Graças a isso, meus planos de voltar de vez para o Brasil não se realizariam por mais 18 anos. Saí do Brooklyn e fui morar no notório Chelsea Hotel, o oposto absoluto de tudo o que eu havia vivido em meus dois primeiros anos na América, na Europa Oriental do Brooklyn.

CLAUDIO EDINGER É FOTÓGRAFO CARIOCA RADICADO EM SÃO PAULO, TRABALHOU PARA AS PRINCIPAIS REVISTAS DO MUNDO, GANHOU DUAS VEZES A LEICA MEDAL OF EXCELLENCE (PELOS LIVROS CHELSEA HOTEL E VENICE BEACH) E O LIFE MAGAZINE AWARD (POR LOUCURA)

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