Um lago realmente oculto

Em 6 de fevereiro de 2011 os cientistas tiveram de abandonar a estação russa de Vostok, a 1,3 mil quilômetros do Polo Sul, o local mais frio do planeta - em 21 de julho de 1983 a temperatura chegou a 89°C negativos. Era a data limite para o último avião decolar antes das nevascas. Um experimento excitante e polêmico, que está sendo planejado há mais de 20 anos e executado desde 2009, só vai ser terminado no próximo verão. Foi por pouco que uma sonda russa não atingiu o Lago Vostok, talvez o último grande ecossistema inexplorado pelo Homo sapiens.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2011 | 00h00

No século XIX, um cientista russo imaginou que talvez existissem lagos com água líquida por baixo da calota polar. Na década de 1970, radares que penetram no gelo confirmaram a presença de água líquida. O Lago Vostok estava descoberto. Em 1991, dados coletados por satélites confirmaram a descoberta. Hoje sabemos que o lago é enorme: tem 250 km de comprimento, 50 km de largura, profundidade média de 300 metros e cobre uma área de 15.690 km2. Lá existem ilhas, pequenos lagos periféricos e, talvez, seres vivos. Desde 1991 os cientistas tentam chegar até o lago. No dia 6, quando a perfuração foi interrompida, faltavam dezenas de metros para a sonda penetrar no lago. Mas o inverno chegou e o último avião partiu.

Estudos geológicos determinaram que o lago se formou há 50 milhões de anos e está coberto por gelo há 35 milhões de anos. Se existiam formas de vida no lago, e elas sobreviveram, estão isoladas de todo o resto do bioma da Terra há ao menos 15 milhões de anos. Por causa da alta pressão, a quantidade de oxigênio e nitrogênio dissolvida na água é 50 vezes maior que a da atmosfera. Sabemos também que a água do lago é renovada continuamente. À medida que o gelo se acumula na superfície e é compactado, as camadas mais profundas derretem e se misturam. O excesso de água se transforma em gelo.

Se a curiosidade dos cientistas é grande, a preocupação é maior. O perigo é a possibilidade de contaminação da água do lago. Pelo buraco feito pela sonda russa podem entrar gases da atmosfera, contaminantes químicos ou seres vivos que nunca tiveram a chance de crescer em um lago rico em oxigênio. O medo é que a atividade humana destrua os seres vivos que talvez habitem o lago.

Nos últimos anos, cientistas defenderam a ideia de que esse lago oculto deveria ser deixado em paz. Nada que descobríssemos lá valeria o risco de destruir o ecossistema. Mas a curiosidade venceu, e a última avaliação de risco submetida pelos russos foi aprovada pelo comitê de proteção ambiental do tratado da Antártida. O plano é atingir o lago no próximo verão, deixar que sua água suba pelo buraco feito pela sonda, tampar esse buraco e deixar a água congelar no inverno. Depois, o gelo formado será coletado e analisado e saberemos o que existe lá embaixo.

O Homo sapiens é tão arrogante que imagina que, se existirem seres vivos, eles devem ser criaturas frágeis, dignas de proteção. E se do buraco sair um ser vivo capaz de invadir a superfície do planeta, exterminando plantas e animais? Apesar de muito pouco provável, seria um fim digno para nossa espécie. Condizente com a infinita curiosidade. Por enquanto, nos resta esperar que os cientistas voltem a trabalhar no próximo verão.

BIÓLOGO

MAIS INFORMAÇÕES EM: RACE AGAINST TIME FOR RAIDERS OF THE LOST LAKE. NATURE VOL. 469 PÁG. 275 2011

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