Heitor Hui|Estadão
Heitor Hui|Estadão

Um mestre do ofício

Sábado, 14 de outubro de 2004, um início de tarde com sol e céu azul. Sandro Vaia abre um enorme sorriso e me abraça no meio da enorme Redação do Estado. Tínhamos acabado de receber os primeiros exemplares do jornal de domingo e fizemos um brinde com champanhe. Ele não me disse nada, nunca foi de muitas palavras. Nem precisava. Brindávamos ao novo projeto editorial e gráfico do Estadão. Aquela edição tinha deixado o jornal do dia anterior espantosamente envelhecido, tamanha a mudança para melhor. O italiano Sandro Vaia era o então diretor de Redação e eu um dos coordenadores da reforma. Mais do que todos, ele sabia ser aquele exemplar que tínhamos nas mãos o resultado de um trabalho paciente, difícil, às vezes doloroso, executado com pouca verba e em tempo recorde.

Roberto Gazzi, especial para O Estado, O Estado de S. Paulo

03 Abril 2016 | 00h51

Em 2000, Sandro Vaia tinha iniciado a missão mais difícil da sua já então reconhecida carreira. Fora um profissional destacado no Jornal da Tarde, liderara uma revista, chefiara a Agência Estado. Vaia assumia o comando em um dos momentos mais difíceis e tristes vividos pela redação do jornal em seus 125 anos de história. Dias antes, seu antecessor, Antonio Pimenta Neves, havia assassinado a jornalista Sandra Gomide. Era uma redação traumatizada, de baixíssima estima, outra vítima da gestão errática de Pimenta.

Pacientemente, o filho da aristocrática Mantova conseguiu, com a ajuda dos editores que mantivera no cargo, acalmar e reerguer o moral do time. Para isso, usara sua crença nos fundamentos do ofício. Acreditou no processo de seu conterrâneo, o marxista Gramsci, a guerra dos movimentos: mais do que impor, ensinar, dar exemplo, trabalhar os fundamentos do jornalismo. Como em redação um apelido é eternizado em segundos, pela origem e pela cabeleira já branca, logo se tornou o simpático Gepeto.  E o jornalista, como o carpinteiro, tem de conhecer seu ofício. De pouco adianta o rigor da encomenda, a imposição, se não se sabe cortar, lixar, trabalhar a madeira, fazer os encaixes corretos. E Sandro era um mestre do ofício que amara e ao qual se dedicara desde garoto.

O jornal que buscava, cuja receita parecia simples, era de execução complexa: boas histórias, de preferência exclusivas, a partir de apuração correta e profunda, texto limpo e claro, com título exato e atraente, numa página bem desenhada. Tinha um olho impressionante para maus textos e títulos ruins. Nessas horas mostrava seu sangue carcamano, gesticulava, bufava, xingava. Para tentar conseguir o jornal que perseguia, foi com o tempo trocando peças, moldando o grupo a seu jeito. E delegando, essa qualidade nem sempre presente num chefe.

Com o tempo o produto melhorou e isso foi fundamental para a maior conquista de sua gestão: resgatar o moral de seus profissionais. Tirou a redação do fundo do poço para deixá-la novamente orgulhosa de estar fazendo um dos melhores jornais do Brasil. Trabalho espelhado na reforma de 2004, ganhadora de vários prêmios nos anos seguintes. Obra de um mestre, como seu grande ídolo Ademir da Guia, o líder da Academia palmeirense dos anos 60 e 70. Sandro adorava futebol e era apaixonado pelo Palmeiras. O que não o impedia de ter entre os amigos do peito alguns corintianos fanáticos. Como Ademir, era elegante, efetivo, preciso, mas discreto. Jogava antes para o time, mais do que para a arquibancada. Evitava holofotes. Fugia das muitas reuniões burocráticas e desnecessárias inerentes ao cargo. Gostava de se concentrar no jornalismo.

Deixou o jornal em 2006. Mas continuou na lida. Já fora do dia-a-dia das redações, manteve até seus últimos dias a excelência jornalística, analisando em frases curtas, com perspicácia, humor e elegância, as muitas notícias do Brasil e do mundo, usando a tecnologia dos novos tempos. Tendo como matéria-prima principal as notícias do jornal que amava e ajudou a aperfeiçoar.

Sem Sandro Vaia, o jornalismo perde um mestre do ofício.

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