Um novo uso para a velha literatura

Com folhetim online aberto a “pitacos” de leitores, escritora supera a discus são sobre o lugar mais adequado para as letras

LUCAS PRETTI,

30 Junho 2008 | 00h00

Em 2001, a publicitária Daniela Abade já era íntima da internet e virou notícia ao escrever mentiras no site Mundo Perfeito (www.mundoperfeito.com.br), uma coisa bem humorada com tom jornalístico – formato inovador para a época que, mais tarde, ficaria popular. Mas aí ela não quis mais. Publicou dois livros, aproximou-se das letras e passou a usar a web sem a finalidade de testar formatos. Foi meio sem querer que a (agora) escritora Daniela Abade acabou fazendo um novo uso da velha literatura. O novo projeto de Daniela, o Estrangeiros (www.foreigners.com.br), envolve mais seis escritores dispersos pelo mundo. Eles fazem em conjunto o que ela chama de "um livro com testemunhas" – cada novo capítulo postado pode ter comentários de leitores que influenciam o processo criativo. Na verdade, é um folhetim como os vistos no Brasil no século 19, mas com roupagem atual. Em outras palavras, dá para dizer que o Estrangeiros é um livro open source (de código aberto), já que escancara na internet o desafio e a linha de raciocínio desenvolvidos isoladamente pelos escritores e porque deixa o internauta dar "pitacos" (usar o que já foi publicado para acabar criando novos produtos). Mas também dá para dizer que o Estrangeiros é só um livro em formato de blog – e não há nada de inovador nisso. Paradoxal como a relação de Daniela com a internet. Veja o exemplo do Mundo Perfeito. Era um site atualizado com notícias falsas, inventadas, fatos que deixariam o mundo um lugar melhor para se viver, como a hipotética candidatura de Homer Simpson à presidência dos EUA. "Minha intenção era ironizar a internet, uma discussão que cabia na época. Eu, que não sou ninguém, posso escrever o que quiser, matar quem eu quiser. Foi basicamente o que eu fiz no site." O Mundo Perfeito só pôde existir por causa da internet. Acabou em 2004, vítima da internet. E hoje todos os arquivos ainda estão online. Ou seja: sobrevive também por causa da internet. "O site ficou popular demais, tinha gente que me ameaçava por causa do ‘Gerador de Letras dos Tribalistas’. Ninguém entendeu a piada", afirma Daniela. Ela criou um programa para ironizar as músicas do trio formado por Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown. Os fãs não gostaram. Daniela então abandonou as experiências colaborativas e publicou dois livros em papel, Depois que Acabou (Gênese, 2002) e Crônicos (Agir, 2005). Mas caiu de vez na mistura entre literatura e internet em 2004, com o projeto Cadeia de Palavras (www.cadeiadepalavras.com.br). Ela e o escritor Sérgio Rodrigues "duelaram" por meio de contos que deveriam ser escritos com palavras começadas com uma mesma letra. Daí saíram frases como: "Um universo ubérrimo, único, útil, uniformizou-se untuoso. Um uísque umidificou-o". Além de uma experimentação sem muito sentido nem intenção. Eis que caiu a ficha: o negócio de Daniela Abade é brincar com a internet, desafiá-la. "Já cheguei a criar uma comunidade no Orkut, reunir centenas de pessoas para discutir e depois simplesmente deletar a página. As pessoas ficaram bravas. Ué, não posso fazer isso?" Pois é, realmente não há muitas regras na web. Como a própria Daniela diz, a internet é sua "amiga". Ela afirma saber lidar com os ânimos da rede: não se expõe, prefere não ser superconectada e trata novidades sem curiosidade exagerada. "Tentei, por exemplo, mexer no Twitter, mas fiquei com medo. Aquelas pessoas me seguindo, sabendo de coisas que eu não preciso necessariamente compartilhar." Imagine, então, quando a imprensa passou a tratá-la como uma nova escritora da internet, que havia transformado um blog (apesar de o Mundo Perfeito não ser um blog) em um livro (apesar de Depois que Acabou não ter nada a ver com o site). "As pessoas precisam colocar rótulos", diz, incomodada. Daniela não é blogueira porque diz não se interessar por comentar a vida alheia. "Blogosfera serve para repercutir notícias. A criação de conteúdo está em menos de 10% dos blogs." Daniela também não é uma empreendedora virtual – chegou a ganhar dinheiro com a bolha de 2000, mas hoje escreve na web para ser lida (e não para lucrar). O que é Daniela, então? Ela é parte de uma nem tão nova safra de escritores que ultrapassaram a discussão sobre o suporte (o que é melhor, livro ou internet?) para se voltar ao conteúdo. São contadores de histórias muito cotidianas, com situações-limite, urbanas e, por isso, necessariamente internacionais e sem identidade. Estão no "movimento" pessoas como Andréa Del Fuego, Joca Reiners Terron, Ivana Arruda Leite. Daniela inclusive foi convidada para participar de um encontro latino-americano de escritores da Universidad del Claustro de Soror Juana, na Cidade do México. Foi reconhecida pelo projeto Estrangeiros e não ouviu sequer uma pergunta sobre internet. "A discussão já está ultrapassada. O problema é o Brasil, onde a elite não lê, que só tem três ou quatro escritores de renome internacional", diz. Daniela não se sente um desses três ou quatro nomes. Mesmo porque sua motivação parece ser realmente artística. "Escrevo porque busco a eternidade." Finalmente chegamos a um rótulo para essa escritora santista que foge deles. "Sou absolutamente megalomaníaca." Coisas da Daniela Coisas dos Outros

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