Um olhar sobre as entranhas da ditadura

Segundo relatos de perseguidos pelo regime, fachada de líder refinado de Kadafi era apenas a máscara farsesca de um tirano implacável

MATTHIAS GEBAUER , DER SPIEGEL

26 de fevereiro de 2011 | 16h00

O aparente colapso do regime de Muamar Kadafi permite um primeiro insight no mundo de sombras até agora isolado do déspota. Prisioneiros contam sobre as torturas que sofreram depois que rebeldes mascarados assumiram o controle de bases do Exército. A fachada de líder supostamente refinado que o Ocidente cortejou nos últimos anos era apenas uma máscara farsesca ocultando um ditador implacável.

Haddud conhece bem a cela, diz ele, em todos os pormenores. Foi trancado ali por diversas vezes, durante semanas seguidas. "Nós a chamávamos de sala da escuridão", diz o líbio de 50 anos. Ele mais grita do que fala, e gesticula selvagemente. Alguns furos apenas permitem que fiapos de luz penetrem na acanhada cela da prisão. Os policiais - os lacaios de Kadafi, como Haddud os chama - o algemavam à parede. Ele só tinha permissão de sair da cela para as sessões de interrogatório, que duravam horas. Sua voz falha. Está embaraçado por causa dos olhos marejados. Ele, um homem adulto.

Haddud caminha pelos corredores da prisão em Tobruk, uma cidade no leste da Líbia conhecida na Europa como local de batalhas ferozes durante a 2ª Guerra Mundial. O posto policial com sua cadeia anexa foi um dos primeiros edifícios que os rebeldes invadiram na semana passada. Haddud estava com eles. Em meia hora, diz, centenas de pessoas vasculharam o prédio de dois andares na praça central da cidade portuária, soltaram todos os presos e atearam fogo ao complexo. Os corredores ainda estão negros de fuligem e o cheiro é de plástico queimado. Cadeiras quebradas estão por toda parte. Alguém escreveu na fuligem, com o dedo, "Fora Kadafi".

Ódio avassalador. Haddud continua sua narrativa. O corpulento professor de história diz que foi preso três vezes e até hoje não sabe por quê. "Eles sempre me faziam as mesmas perguntas, se eu estava colaborando com estrangeiros", diz. "Afirmavam que eu queria incitar os escolares com propaganda contra o governo." A última vez foi em 1983, quando a polícia o levou para Benghazi, a segunda maior cidade da Líbia, após o interrogatório inicial. Ele permaneceu encarcerado por seis anos, sem julgamento, sem nenhum contato com sua família. Quando foi finalmente libertado, não pôde mais trabalhar como professor. "A única coisa que ainda podia fazer era guiar um táxi."

A ira avassaladora de Haddud e de muitas outras vítimas do Estado policial de Kadafi foi descarregada no posto de polícia, um símbolo de opressão. No pátio havia várias viaturas queimadas pela multidão enfurecida. Os próprios policiais, relata Haddud, já tinham fugido horas antes temendo a retaliação das pessoas que haviam perseguido. "Não responsabilizaremos cada indivíduo", disse um homem armado e mascarado no posto policial. "Mas os que estão na cabeça do regime, eles simplesmente terão de pagar." Muitos rebeldes acham que Kadafi deve pagar por seus crimes com a vida.

Nestes dias de caos e incerteza na Líbia, aos poucos vai ficando claro como funcionava o aparato de opressão do déspota. Jornalistas já conseguiram entrar no país isolado depois que os agentes de segurança na fronteira com o Egito fugiram. As histórias de Haddud e de milhares de líbios como ele estão lançando luz sobre o regime de Kadafi. Elas mostram que, apesar de sua virada radical no cenário mundial em meados dos anos 90, quando lentamente tirou a Líbia do isolamento internacional, Kadafi mostrou pouca leniência com o próprio país. Agora ele está tentando esmagar a rebelião em curso com todos os meios à disposição.

Na Líbia oriental, as forças de segurança desistiram. Silenciosos rebeldes armados guardam a entrada da pista de aterrissagem na gigantesca base militar de Nasr. Jovens se armaram com revólveres e granadas dos arsenais e detêm o controle do local. Os soldados que viviam na base se foram. Grupos de jovens milicianos posam na frente de um avião de guerra líbio e brandem as armas. "Guardaremos esta base até termos um governo livremente eleito", diz um deles. "Se os defensores de Kadafi voltarem, lutaremos até o último homem."

Entre os olhos. Mustafá, um médico de Tobruk, documentou a brutalidade com que o governo Kadafi tentou esmagar o levante. Durante muitos dias ele ajudou numa clínica da cidade costeira de Benghazi, um dos centros da resistência líbia. Vinte e quatro horas por dia, diz ele, manifestantes gravemente feridos eram trazidos para dentro. Os médicos operavam sem parar. "Pareciam cenas de guerra. Tínhamos de decidir rapidamente quem poderíamos ajudar e quem não." Ele estima ter visto cerca de 70 mortos, mas supõe que havia muitos mais.

Durante uma curta parada no atendimento dos pacientes, Mustafá filmou cenas com seu telefone celular. As imagens agora estão passando na tela de um televisor num quarto de hotel de Tobruk. As cenas tremidas são perturbadoras. Ele filmou escrupulosamente os mortos no necrotério do hospital. Muitos deles haviam sido baleados diretamente entre os olhos. Vários registros similares aos de Mustafa apareceram neste meio tempo, e eles poderiam confirmar rumores insistentes de que franco-atiradores tinham sido enviados para matar manifestantes. "Kadafi declarou guerra ao próprio povo", diz Mustafá. "Todo dia seus seguidores cometem crimes de guerra contra nós e o mundo fica olhando e não faz nada."

Mustafá está implorando a jornalistas de redes ocidentais de televisão para espalharem essas imagens para a Europa e além. Os governos do Ocidente, disse ele, precisam ver que o povo líbio tem de ser socorrido. Ele mostra outro vídeo. Jipes podem ser vistos na frente do hospital. Mercenários africanos em vários tipos de uniforme dirigem os veículos pelo meio da multidão. Eles disparam para o ar, mas também em manifestantes a sua frente. As imagens pareceriam provar que Kadafi importou milhares de mercenários de fora da Líbia para combater os protestos com violência letal - pois muitos de seus militares mudaram de lado.

Últimos escrúpulos. O governo pode parecer aleijado, mas está batalhando para impedir a difusão dessas gravações. Um dos últimos ministros de Kadafi - um dos poucos que não renunciou - disse na quarta-feira que todos os jornalistas na Líbia estavam ilegais e enfrentariam punições draconianas. O regime interrompeu as conexões via satélite durante dias usando métodos técnicos ainda misteriosos, e com isso os jornalistas de televisão e da imprensa escrita tiveram problemas para enviar suas matérias. No mundo árabe contemporâneo, somente Saddam Hussein tentou tão intensamente censurar reportagens de dentro de seu país.

O aparato de censura trabalhou muito melhor na Líbia ocidental, em Trípoli e cidades vizinhas. Jornalistas ocidentais ainda não haviam conseguido chegar à capital e dependiam exclusivamente de relatos de testemunhas oculares, todas falando da brutalidade dos ataques aos manifestantes. Guardas líbios da fronteira ocidental com a Tunísia revistam rigorosamente os refugiados à procura de celulares e cartões de memória de câmeras para impedi-los de transportar fotos dos conflitos para repórteres estrangeiros. Alguns conseguem, mesmo assim, enviar registros fotográficos de suas experiências e torná-los públicos. Adversários do governo temiam novas violências na sexta-feira [quando este suplemento foi concluído]. Em Trípoli eles haviam convocado uma grande manifestação contra Kadafi. Mas milhares de soldados estavam postados em torno da cidade num esforço para dissolver possíveis protestos. Os comitês de oposição na Líbia oriental temem que, com um último golpe brutal, Kadafi espere pôr fim na revolução.

O ditador aparentemente pressente que sua hora chegou. E parece ter abandonado os últimos escrúpulos. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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