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Um país na roda-viva

O vazio que Kirchner deixa é o vazio gerado pelos caudilhos quando se vão. Enquanto governam, almejam tudo. Quando perdem o poder ou a vida, não têm ninguém que os represente

Santiago Kovadloff, La Nación

30 de outubro de 2010 | 13h04

 Não faltarão os insensatos que festejarão seu desaparecimento. São cegos, não só insensíveis. Não são apenas impermeáveis à dor pessoal; são impermeáveis também às consequências políticas que esse brusco desaparecimento acarreta à República Argentina. Porque com Néstor Kirchner não morreu somente um ex-presidente, mas o político mais poderoso do país. Que Deus inspire a presidente e quem costuma aconselhá-la para que, nos próximos pronunciamentos, não façam desse fato uma fonte de vantagens políticas espúrias. A moderação que há muito tempo deveríamos ter, mais do que nunca é indispensável.

 

Não, a morte de Néstor Kirchner não beneficia ninguém. E obviamente não beneficia o oficialismo. Tampouco a oposição. Em definitivo, é um desastre para a democracia argentina. A dimensão das incertezas trazidas por sua morte ainda não pode ser devidamente avaliada. Mas é, e será, sem dúvida, determinante. E tudo isso poderá ser agravado por aqueles que não vacilarão em fazer uso demagógico da sua morte. Como ocorreu com Juan Perón, quando Eva Duarte faleceu, com Isabel Martínez, quando morreu Juan Perón, e mais recentemente, quando faleceu o pai de Ricardo Alfonsín, Cristina Fernández se verá investida nos atributos com que a comiseração pública e a idealização inevitável costumam coroar aqueles que, por uma ou outra razão, são familiares das grandes personalidades desaparecidas. Isso é compreensível. Mas também o é a inquietação de quem teme que essa piedosa proximidade e essa solidariedade sejam usadas ideologicamente por aqueles que gostam de se aproveitar da dor das pessoas para consolidar seu poder.

 

A morte de Néstor Kirchner vai acelerar a desintegração da Frente para a Vitória. Provocará tensões entre setores que disputarão com unhas e dentes a condição de honrados representantes do ex-presidente falecido.

 

Mas o certo é que Néstor Kirchner não deixa herdeiros. Sua liderança sempre foi excludente, não inclusiva. E certamente veremos aqueles que se empenharão em apresentar Cristina Fernández com sua sucessora. Mas estarão equivocados. A presidente foi aliada do ex-presidente. A única pessoa que esteve ao seu lado em situação de igualdade. Mas Kirchner não a preparou para receber sua herança imaginária, e sim para preservar seu capital político enquanto ele, num cone de sombra mais que tênue, continuava exercendo o poder.

 

Néstor Kirchner jamais renunciou à sua liderança. Como outras figuras da nossa história, foi um dirigente solitário. Defensor ávido e feroz do seu protagonismo. O verticalismo foi sua norma; a transversalidade a sua máscara. Por trás da retórica do companheirismo, sempre manteve um implacável domínio pessoal.

 

Néstor Kirchner morreu como queria. Sua morte é chocante, emociona, mas não surpreende. Era uma morte anunciada. Ele jamais recuou diante da adversidade nem diante dos adversários, que considerou sempre inimigos. E o risco da morte tampouco o intimidava. Há muito tempo desprezava os avisos dados pelo seu corpo enfermo. Não os aceitava. No geral, o excesso era sua norma. Homero soube distinguir entre a ousadia e a coragem. Muitos dirão que Néstor Kirchner foi um homem de coragem. Talvez. Como político, a ousadia foi o que melhor o caracterizou. Os limites denegriam sua onipotência. Não faltam exemplos disso, desde que assumiu pela primeira vez o governo de Santa Cruz até essa funesta quarta-feira, um dia triste para todos os argentinos.

 

Aqueles, como nós, que não concordavam com ele, prefeririam que fosse derrotado pela democracia, não pela morte. Mas não é exagero afirmar que Kirchner preferiu a morte. O destempero era sua marca distintiva. Ele poderia ter sido personagem de uma tragédia grega. E, como numa tragédia grega, seu desaparecimento não soluciona o conflito, mas vem tornar mais complexa a trama que caracteriza a difícil situação do país.

 

Independentemente de ser a favor ou contra o que Néstor Kirchner realizou e significou, o fato é que o seu desaparecimento é uma desgraça que afeta a nós todos. A fragilidade institucional da Argentina, com sua morte, recebe mais um golpe, e dos mais profundos, desde o retorno do país à vida constitucional. O vazio que Néstor Kirchner deixa é o vazio gerado pelos caudilhos quando se vão. Enquanto governam, aspiram a ser tudo. Quando perdem o poder e, como nesse caso, a vida, não têm ninguém que os represente. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

SANTIAGO KOVADLOFF É FILÓSOFO, ENSAÍSTA E POETA, AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE O SILÊNCIO PRIMORDIAL (JOSÉ OLYMPIO)

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