Um prêmio para uma jovem guarda-parque

Elisangela dos Santos luta para preservar na Amazônia parques e populações que vivem neles

GIOVANA GIRARDI, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2012 | 03h04

Um dos grandes desafios da implementação de unidades de conservação no País é lidar com comunidades tradicionais que já viviam na região antes de ela ser transformada em uma área protegida. Filha de ribeirinhos, Elisangela Sales dos Santos conhece o problema praticamente desde que nasceu.

Ela ainda era um bebê quando a comunidade no Amapá onde seus pais viviam testemunhou a transformação do seu entorno na Reserva Biológica da Fazendinha. Essa categoria de unidade de conservação estabelece proteção integral do local - ou seja, não pode ter gente morando lá dentro.

A luta que se iniciava ali para que o grupo ficasse culminou, 20 anos depois, na reclassificação da Fazendinha para Área de Proteção Ambiental (APA), mais flexível à permanência de pessoas. E moldou a percepção de Elisangela sobre a importância de lidar com essas comunidades a fim não somente de ajudá-las em sua sobrevivência como também para conservar a floresta.

Era o início de uma história que quase uma década depois a fez conquistar o Prêmio Mundial Jovem Conservacionista 2012, concedido pela Federação Internacional de Guarda-Parques e pela Comissão Mundial de Áreas Protegidas da União Mundial para a Conservação Internacional da Natureza.

Ao se engajar na campanha de sua comunidade, Elisangela logo notou que, para conseguir esse tipo de mobilização, é necessário ser capacitado. Para se manterem na APA, as pessoas precisam entender a importância de preservar a mata mas, acima de tudo, têm de aprender a viver em uma área protegida. "De repente elas não podiam mais fazer qualquer coisa, como faziam antes. Havia limites", conta.

Do trabalho na Fazendinha, Elisangela atuou em diversas outras unidades de conservação na Amazônia, com foco sempre em educação ambiental e mobilização comunitária. Capacitou-se como guarda-parque - não do tipo militar, das Forças Armadas, que atua como polícia , mas civil. Nem por isso, no entanto, ficou livre de ter de lidar com infratores. Afinal, às vezes são moradores das próprias comunidades de dentro da reserva que, sem conhecimento ou estrutura para se manterem de modo sustentável, acabam caindo na ilegalidade.

Ela se lembra do dia em que, com alguns colegas, se deparou com um grupo de 28 pessoas que ilegalmente retiravam palmito da mata. "Não fazemos fiscalização, estávamos ali num trabalho de levantamento de espécies da flora. Então nem pensamos em abordá-los ou em reagir, mas, quando tentávamos retornar para informar as autoridades, eles nos cercaram." Os palmiteiros estavam munidos de faca. O jeito foi correr pela mata.

Mas a linha de atuação de Elisangela é na base da conversa. Depois de acionar o batalhão ambiental, respirar e se recompor, ainda voltou à comunidade para trabalhar com conscientização. O trabalho do guarda-parque, explica, é preventivo. "Desenvolvemos ações para que as comunidades, juntos com os gestores dos parques, encontrem seu caminho para preservar."

Por isso, um dos projetos que vem desenvolvendo é o de gestão compartilhada, para que a comunidade também possa participar das decisões da unidade e se estruturar.

Como voluntária, funcionária de parques e mais recentemente da ONG Equipe de Conservação da Amazônia, aos 27 anos já formou quase 400 pessoas como guarda-parque ou agentes ambientais indígenas. Nesses cursos, fica longe de sua casa por mais de um mês, em períodos em que já sofreu desde picadas de raias em rios a um acidente de carro. Ainda arrumou tempo para cursar duas faculdades, de Geografia e de Gestão de Recursos Humanos. No prêmio vencido agora, que receberá no Congresso Mundial de Conservação, na Coreia do Sul, em setembro, concorreu com 30 pessoas. É a primeira brasileira a vencê-lo.

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