Um resgate histórico - e de vendas

Cecilia Bartoli grava álbum dedicado aos castrati e estoura nas paradas europeias

João Marcos Coelho, O Estadao de S.Paulo

22 de novembro de 2009 | 00h00

O CD teima em não morrer - e ainda é capaz de convulsionar o mercado e ao mesmo tempo emocionar os consumidores. Os números envolvendo Sacrificium, da meio-soprano italiana Cecilia Bartoli, lançado há menos de um mês no mercado internacional (e esta semana no Brasil, selo Universal), comprovam que o paciente está ferido de morte, mas de vez em quando tem espasmos deslumbrantes: um mês antes do lançamento, já era um dos dez mais vendidos do site Amazon; 500 mil cópias desapareceram das lojas na primeira semana; na Espanha, o CD é um dos dez mais vendidos (incluindo pop); no iTunes, é o quinto em número de downloads.

Ouça a faixa:

Chi temea giove...

Como ela consegue estes números prodigiosos? Simples: ela transforma cada CD em projeto de marketing. Por isso é o maior best-seller de discos clássicos do planeta: já vendeu, ao longo da carreira, mais de 6 milhões de cópias. Em seu penúltimo CD, Maria, de 2006, fez um tributo à célebre soprano Maria Malibran (1808- 1836). E foi além de gravar as árias que a tornaram famosa: montou uma exposição itinerante num trailer que percorreu a Europa em uma turnê de cerca de dois anos; deixou-se fotografar com roupas e adereços autênticos da Malibran. No ano passado, bicentenário de nascimento da Malibran, fez uma maratona em Paris: cantou em três concertos durante um dia, com Lang Lang, Vadim Repin, Adam Fischer e Myung-Whun Chung.

Agora, transforma Sacrificium em algo atualíssimo. Vamos aos fatos: ela grava, pela primeira vez, 11 árias de compositores italianos desconhecidos, do século 18, escritas para os castrati - cantores castrados ainda meninos, a fim de conservar o timbre angelical de suas vozes; atingindo a idade adulta, uniam duas características impossíveis de se encontrar nas mulheres: tessituras amplas e potência vocal inigualável. Eles dominaram a cena lírica e sacra europeia nos séculos 17 e 18, enquanto perdurou a proibição, pela Igreja Católica, de mulheres cantarem nos templos.

CRIADOR DE VOZES

Seus nomes são praticamente desconhecidos: Nicola Porpora, Leonardo Vinci (não confundir com o pintor ), Leonardo Leo, Francesco Araia, Antonio Caldara e o alemão Carl Heinrich Graun. Destes, aqui e ali ouve-se falar no máximo em Porpora e Caldara. O líder era Porpora (1686-1768), o maior "criador de vozes" do século 18. Os cinco maiores castrati da história - Farinelli, Caffareli, Salimbeni, Appiani e Porporino - foram seus alunos. Mas ele deu aulas também para o poeta e libretista Pietro Metastasio, a Johann Adolf Hasse e até para Joseph Haydn.

Bartoli mergulhou em centenas de óperas, cantatas e música sacra destinadas aos discípulos da Scuola dei Castrati, em Nápoles. Saiu com 11 primeiras gravações mundiais que fazem da virtuosidade sua principal marca: piruetas de coloratura, longas frases exigindo pulmões privilegiados, tessitura indo do contralto até o soprano, passando pelo "mezzo". Sem exagero, são as árias mais exigentes, do ponto de vista técnico, já compostas para a voz humana.

Tinha tudo para dar errado, em termos de marketing. Mas La Bartoli, nas entrevistas para a imprensa internacional, enfatiza sempre a atualidade do sofrimento dos castrati. Porpora tocava uma verdadeira "fábrica de máquinas cantantes" em Nápoles, cidade que castrava anualmente 4 mil crianças - e fornecia andróginos sopranos e contraltos para as cortes de toda a Europa. Igualzinho, diz a cantora romana de 44 anos, às fábricas atuais de modelos anoréxicas.

No século 18, o público, extasiado com as impossíveis piruetas vocais dos castrati, gritava delirando "Evviva il coltellino!"; hoje, diz Bartoli, grita-se "Evviva l"anoressia!" no gargarejo das passarelas de moda. Ela traz até Michael Jackson a este universo: "Era um músico magnífico, de grande talento, um gênio de fato. Mas também era vítima de si mesmo. Mutilou-se, veja o que fez com seu corpo, sua pele, seu nariz", declarou numa entrevista recente.

E, depois de tudo isso, é preciso reconhecer: como ela canta maravilhosamente! É hoje talvez a única cantora capaz de enfrentar este repertório praticamente impossível de ser cantado por uma mulher. A edição nacional do CD Sacrificium empobrece demais o projeto. A versão internacional contém um livreto de mais de cem páginas, fartamente ilustrado, com um dicionário A-Z da era dos castrati, além de um CD-bônus com três das árias mais conhecidas, como, por exemplo, "Ombra mai fu", de Haendel.

Por tudo isso, a audição de Sacrificium provoca espanto. Ouça com cuidado, por exemplo, "Cadrò, ma qual si mira", de Francesco Araia: 30 compassos de coloratura ininterrupta, onde Araia reproduz em música palavras como "cadrò" (cairei) e "monte" (montanha) em vertiginosas piruetas ascendentes e descendentes; "Qual farfalla", de Leonardo Leo, de acompanhamento instrumental diferente, com harpa e cordas em surdina, numa ária emotivamente intensa; "Quel buon pastor sono io", do oratório A Morte de Abel, de Caldara, música sacra italiana feita para castrati; "Nobil onda", de Porpora: foi Farinelli que criou Adelaide na ópera de mesmo nome; e "Chi temea Giove regnante", da ópera Farnace, de Leonardo Vinci, também criada por Farinelli.

Esta última é um assombro. Tem até a participação de um artefato barroco chamado "máquina de trovões" que reproduz os sons de uma tempestade. As notas repetidas em staccato a uma velocidade impossível, as frases longuíssimas exigindo pulmões masculinos - você duvida que Bartoli chegue inteira ao final. E ela vence. Aliás, de nada adianta um afiadíssimo projeto de marketing envolvendo uma gravação se não há o principal: uma artista genial capaz de produzir música de altíssima qualidade.

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