Um salão para os órfãos de galeria

Em sua primeira edição, evento apresenta obras de dez artistas selecionados, em mostras na Casa da Xiclet e Matilha Cultural

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

12 de março de 2010 | 00h00

Teve gente que quando viu o anúncio das inscrições para o 1º Salão dos Artistas Sem Galeria pensou se tratar de uma gozação. "Primeiro, fiquei em dúvida e com medo de participar, mas o que me convenceu a me inscrever foi ver que o salão era promovido pelo Mapa das Artes e os nomes do júri", diz a artista Bettina Vaz Guimarães. Mas a iniciativa provocativa e cheia de boas intenções, criada pelo jornalista Celso Fioravante, editor do Mapa das Artes, fez com que, afinal, 258 "órfãos" de galeria de 12 Estados se inscrevessem no salão: 10 deles foram selecionados pelo júri formado pelo curador Cauê Alves e pelos galeristas Daniel Roesler e Monica Filgueiras e, a partir de hoje e de amanhã, os escolhidos expõem suas obras na Casa da Xiclet e no espaço Matilha Cultural.

"Já levei meu portfólio a todas as galerias de São Paulo e não levo mais, porque é muita humilhação", diz Luiz Martins, de 40 anos, que é sempre enérgico em suas críticas e cria tanto obras gráficas e como esculturas. Nascido em Machacalis, Minas Gerais, Martins mudou-se para São Paulo aos 17 anos para trabalhar. "Não sabia nem quem era Picasso, naquela época", diz o artista, que anos mais tarde viu numa banca de jornais a extinta revista Galeria, comprou e se interessou por um curso de pintura anunciado naquela edição. Fez algumas aulas com o pouco dinheiro que tinha até ter de parar de pintar para trabalhar numa fábrica de vassouras - só que ele já havia sido contaminado pela arte e conseguiu ser assistente de artistas para sobreviver e criar. Hoje, Martins se divide entre São Paulo e Viena, mas nunca foi representado por uma galeria.

O mercado de arte é cruel e complexo - essa é uma frase feita, mas artistas de diversas idades e linguagens a sentem na pele todos os dias. Tantos deles, também, ficam constrangidos em bater de porta em porta de galerias com o portfólio sob o braço. "Acho que os galeristas preferem ver as exposições", diz Amanda Mei, de 29 anos, que mesmo tendo participado da última edição do prestigiado programa Rumos Itaú de Artes Visuais, ainda não conseguiu ser representada por uma galeria. Pedro Wirz, de 28 anos, vive agora na Alemanha, mas teve sua formação também na Suíça. "Lá, eles empurram a gente na faculdade para fazer exposições", afirma ele, que veio a São Paulo para a montagem das mostras do salão. Participar desse tipo de evento é, assim, mais uma oportunidade de dar visibilidade às suas obras, como acreditam ainda as selecionadas Christina Meirelles e Sandra Lopes.

Para as inscrições, os participantes enviaram portfólios com seleção de obras que quisessem apresentar (também escolheram o que expor) e pagaram uma taxa de R$ 100. "A seleção foi de apenas dez artistas por questões econômicas: é um salão autossustentado", diz Celso Fioravante. Com o dinheiro arrecadado foi possível fazer duas exposições - hoje, a partir das 19 h, é inaugurada uma na Casa da Xiclet, e amanhã, às 14 h, outra na Matilha Cultural. Como conta Fioravante, o 1º Salão dos Artistas Sem Galeria - que contempla nesta edição Affonso Abrahão, Amanda Mei, Bartolomeo Gelpi, Bettina Vaz Guimarães, Christina Meirelles, João Maciel, Luiz Martins, Pedro Wirz, Rodrigo Mogiz e Sandra Lopes - vai conceder três prêmios (de R$ 2 mil, R$ 1,5 mil e R$ 1 mil) e dar pró-labore para os artistas (de R$ 600) e para o júri. "No circuito de arte, todo mundo acha que o artista vive de brisa", afirma Fioravante. Outra coisa boa é que as obras dos participantes estarão à venda nos dois espaços (neles há trabalhos de todos os selecionados), com preços que variam de R$ 800 a R$ 9 mil.

"Criei este salão porque salões são injustos: colocam limite de idade, cobram do artista o transporte e o envio de obras que depois nem são selecionadas e têm sempre os mesmos júris. Há desrespeito, principalmente, nos realizados por secretarias municipais de cultura", diz Celso Fioravante. Com inscrições, na grande maioria de artistas de São Paulo - entre os selecionados, há os da cidade e apenas dois de Minas Gerais -, o Salão dos Sem Galeria reúne artistas que vão da faixa dos 20 aos 60 anos. Fioravante, que vai preparar a segunda edição do evento, promete levar os portfólios dos selecionados para galeristas do Rio, já que os de São Paulo poderão ver os trabalhos nas exposições.

Serviço

1.º Salão dos Artistas Sem Galeria

Casa da Xiclet. R. Fradique Coutinho, 1.855, tel. 2579-9007. 14h/20h (sáb., dom. até 18h; fecha 2.ª e 3.ª). Até 18/4. Abertura hoje, 19 h

Matilha Cultural. R. Rego Freitas, 542, tel. 3256-2636. 12h/ 22h (fecha dom. e 2.ª). Até 18/4. Abertura amanhã, 14 h

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