Um supermercado de órfãos na internet

Existem coisas que não têm preço, mas que mesmo assim estão à venda para quem tem um cartão de crédito internacional, acesso à internet e a mais absoluta falta de escrúpulos. Querem um exemplo? Acessem www.orphansoverseas.org e confiram. Exibidas como eletrodomésticos de última geração, crianças são oferecidas para adoção na internet, com pagamento facilitado por meio de cartões de crédito.O preço varia, sabe-se lá porque. Uma criança chinesa custa o equivalente a US$ 7.400, a metade do valor cobrado por uma criança nascida na Rússia, oferecida no site por até US$ 15.500, dependendo da região. O mostruário virtual, capaz de chocar qualquer pessoa com um mínimo dignidade, inclui ainda supostos órfãos do Quênia, do Kazaquistão e da Ucrânia, entre outros países.As transações envolvendo crianças do Vietnam, oferecidas no site por US$ 12.400, estão suspensas temporariamente por falta de ofertas. ?Tente mais tarde?, sugerem os administradores da tal Orphans Overseas, uma organização não-governamental com sede nos Estados Unidos, suposto destino das crianças ?adotadas?.Até a semana passada as ofertas incluiam pelo menos cinco crianças hondurenhas, com idades entre 2 anos e 5 anos, mas que foram retiradas da página graças à uma ação enérgica do governo local. Em entrevista a um jornal local, a primeira-dama de Honduras, Aguas Ocaña de Maduro, disse que as crianças colocadas à venda no site não eram órfãs e estavam internadas provisoriamente em um centro público de combate à desnutrição infantil.O mapa no catálogo da Orphans Overseas inclui o Brasil, mas o site não faz referência a crianças vendidas por aqui. A palavra venda, por sinal, também não aparece em nenhum momento na ficha de inscrição, na minuta do contrato ou no formulário com os dados do cartão de crédito e é cuidadosamente substituída por expressões como custos, taxas, despesas legais ou qualquer outra parecida, dispostas sob a forma de tabelas.Não faz a menor diferença. Uma convenção adotada pela Organização das Nações Unidas em abril de 2000 classifica como crime a ser combatido pelos países signatários a venda de crianças, assim definida no seu artigo segundo como ?qualquer ato ou transação pelo qual uma criança seja transferida por qualquer pessoa ou grupo de pessoas para outra pessoa ou grupo mediante remuneração ou qualquer outra retribuição?. Nada mais claro ou transparente.Até agora, 108 países assinaram o protocolo, incluindo todos aqueles tristemente exibidos no catálogo da Orphans Overseas e em diversos outros endereços na internet, mas apenas 66 ratificaram o documento ? o Brasil, em janeiro último - comprometendo-se a seguir legalmente os seus 17 artigos (detalhes em www.unicef.org/brazil/protocol_expls.htm).Em abril, a convenção ganhou o reforço importante de uma nova resolução da Comissão de Direitos Humanos da ONU. O texto final recebeu um único voto contrário, justamente o dos Estados Unidos, que não desejavam ver incluído no documento uma referência ao fim da pena de morte para criminosos juvenis.Além de oferecer crianças para adoção, evidentemente a quem se dispuser a pagar os valores cobrados, a Orphans Overseas também atua em outros programas polêmicos, um deles voltados à mulheres grávidas e solteiras.?Oferecemos moradia temporária durante a gravidez e total assistência para ajudar você na escolha sobre o que fazer em relação a sua própria vida e a vida do seu bebê?, promete o site. O programa ?Every Child Home? foi lançado há dois anos e a única exigência é que as interessadas sejam solteiras e com faixa etária entre 18 anos e 24 anos. Nesse caso, nem é preciso ter em mãos um cartão de crédito.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.