Uma arma na luta por memória e poder

Mais do que apenas um filme, Lula, o filho do Brasil, virou arma do que historiadores costumam chamar de "batalhas de memória" - disputas entre indivíduos ou grupos sociais pela produção de representações do passado. São episódios relativamente comuns na produção histórica, embora memória e história, alertam pesquisadores da área, não sejam o mesmo. A primeira diz respeito às versões que pessoas ou setores elaboram sobre o que aconteceu, a partir de um viés socialmente construído. Já a segunda pretende ser uma ciência, baseada em documentos e em fontes, entre as quais se encontram as várias formas de memória, submetidas a críticas que pretendem lhe dar valor de conhecimento para resolver um "problema" científico.

Wilson Tosta*, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2009 | 00h00

Os lados das "batalhas de memória" disputam a prevalência, no presente, de suas visões sobre o passado. Um exemplo é fornecido pelo historiador italiano Alessandro Portelli, no artigo O massacre de Civitella Val di Chiana, no qual descreve as divergências que cercaram as representações sobre a chacina de 115 civis por tropas alemãs em uma pequena cidade em Arezzo, na região da Toscana, em 29 de junho de 1944. A barbárie do crime - cometido em represália à execução de três militares nazistas por partisans da Resistência Italiana - poderia fazer supor que os sobreviventes e seus descendentes se unissem nas recordações. Mas não foi o que ocorreu.

Nos anos 90 do século passado, uma divisão feroz e intransponível opunha representações sobre o massacre. Sobreviventes da Resistência e políticos da república nascida a partir dela celebravam o episódio como um ato de heroísmo e sacrifício, no qual cidadãos teriam sido martirizados pelo invasor e dado a vida pela pátria. Mas moradores da cidadezinha, entre eles muitas viúvas de vítimas, diziam que a culpa era dos partisans, que teriam matado os nazistas nos limites da cidade e provocado a reação dos invasores, cuja brutalidade naturalizavam, como a de um animal feroz e irracional, de quem não se esperaria outra atitude. Essas divergências chegaram a levar à realização de cerimônias diferentes para homenagear os mortos e até a momentos de confronto físico entre os dois grupos apaixonados.

Portelli observa que, curiosamente, representações sobre o massacre mudaram ao longo do tempo - dando lugar à memória dividida que conheceu- devido a fatores históricos e políticos; a memória, portanto, não é imutável, nem politicamente neutra. Inicialmente, nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, quando os políticos ligados à Resistência estavam com prestígio em alta, as versões simpáticas aos partisans eram dominantes - isso mudou depois. Outra possível causa da mudança de percepção sobre a chacina foi a existência de uma tensão entre os moradores da área urbana de Civitella, mais abastados, e os camponeses "comunistas" e pobres, que integravam a Resistência e, além de terem matado os nazistas, passaram a dominar a cidade, após o conflito.

A cinebiografia do presidente debate-se em meio a questões do mesmo tipo, mediadas pela política de hoje, não pelo que aconteceu em Garanhuns ou no ABC paulista. A narrativa sobre a vida de Lula evidentemente é parte de uma representação feita para agradar àqueles que o têm como herói - dos petistas vidrados no seu projeto de poder ao povo mais modesto, que melhorou de vida no período 2003-2009. Tucanos e democratas, na oposição, tenderão a vê-la como pura peça de propaganda eleitoral, destinada a turbinar Dilma Rousseff, candidata do PT a suceder o personagem construído na tela, em pleno ano eleitoral. Quem está certo? Talvez os dois lados - ou nenhum. Está aberta a disputa pela representação de memória sobre o presidente mais popular do Brasil redemocratizado. Isso diz respeito não ao passado, mas ao presente, com suas disputas pela memória e, portanto, pelo poder.

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