Uma bola para alegrar o Natal

O trajeto de um brinquedo doado: da compra às mãos da criança

Filipe Vilicic, O Estadao de S.Paulo

23 Dezembro 2009 | 00h00

"Foi o melhor presente de Natal que já ganhei na vida", contou o garoto Lindemberg Oliveira, de 10 anos, enquanto brincava com sua bola de couro na Rua Sinimbu, no centro de São Paulo, na frente do cortiço onde mora com o pai. Antes de começar a jogar futebol sozinho na via, o menino andava pela rua, agarrado ao seu presente e com cara de orgulho. "Sempre quis ter uma bola para jogar todo dia", dizia ele, que sonha ser zagueiro profissional.

Lindemberg ganhou sua bola tão desejada no último domingo. Ele a recebeu, junto com uma camiseta, na sede do Exército de Salvação, na Rua Taguá. Quem o presenteou foi a empresária Helianeide Nozaki, conhecida como Lili, voluntária que arrecada doações na região há sete anos. Em sua campanha de Natal de 2009, ela conseguiu mais de 80 brinquedos que foram distribuídos para cerca de 70 crianças que moram em cortiços no centro. Os presentes que sobram no Natal são dados durante o ano no aniversário dos meninos e meninas carentes assistidos pela instituição ou no Dia das Crianças.

A bola de Lindemberg foi doada para Lili pela aposentada Aparecida de Souza, que mora em uma casa na Vila Mariana. "Sempre gostei de ajudar", afirma Aparecida, que há quatro anos colabora com a campanha de Natal do Exército de Salvação. O lado solidário dela foi despertado há duas décadas, quando começou a levar brinquedos para um centro espírita. Hoje, além de ajudar o Exército, ela dá R$ 30 mensais para o Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer (Graacc) e doa roupas, bonecos e carrinhos usados de seu neto durante o ano. "Um brinquedo pode mudar a vida de uma criança", aposta.

Lindemberg é prova de que isso é possível. A bola comprada por Aparecida por R$ 31 em uma lojinha próxima de sua casa alegrou ao menos um dia do menino. O sorriso largo enquanto segurava firme o presente de Natal não deixava dúvidas de que Lindemberg estava radiante. "Vou brincar com meus amigos", dizia o menino. "Mas só jogarei futebol na rua no fim da tarde, porque antes não posso sair", lamentava, com uma expressão triste.

O pai do rapazinho de 10 anos não o deixa sair de casa pela manhã ou à noite. "Ele tem medo que os bandidos joguem drogas em mim", resume Lindemberg. Há motivo para tal receio. No cortiço, onde homens, mulheres e crianças dividem pequenos quartos alugados por um grileiro que invadiu o prédio, residem traficantes que transformaram a entrada do local em ponto de venda de drogas.

Quando a reportagem do Estado chegou ao local logo foi abordada por um garoto com cerca de 20 anos que ofereceu: "Veio atrás de maconha ou crack"? Depois que o traficante viu que a equipe acompanhava os voluntários do Exército, se desculpou. "Você está com o pessoal da "igreja" lá da Taguá?", questionou o jovem. "Seja bem-vindo e não se preocupe conosco. Olha, o trabalho que fazem é bacana. Eu até ia lá na "igreja" quando era pequeno."

"Nosso objetivo é evitar que garotos como Lindemberg acabem na criminalidade como esses adolescentes", afirma Carlos Lopes, voluntário do Exército que lidera as visitas às famílias que vivem nos cortiços. "Dar um presente de Natal para esses meninos é um jeito de valorizá-los, nos aproximar deles e mostrar que fazer o bem e não se envolver com besteiras traz benefícios."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.