Uma cantora lírica na cozinha

No início de sua carreira, a genial cantora lírica Maria Callas (1923-1975), que nasceu nos Estados Unidos, mas tinha sangue grego e alma italiana, comeu de graça em restaurantes estrelados europeus. Quando terminava a refeição, pedia a conta e às vezes ouvia a resposta educada: "Não é nada, senhora, esta casa se sente honrada por recebê-la." Ela agradecia a gentileza, deixava uma boa gorjeta e ia embora. Mas bastou começar a aparecer nos mesmos lugares com o arquimilionário armador Aristóteles Onassis - um grego nascido na Turquia, com o qual manteve tumultuado romance a partir de 1959 - para a situação mudar completamente. Os restaurantes continuaram gostando de atendê-la, mas a conta passou a vir regularmente - e altíssima. Afinal, seu parceiro tinha dinheiro à vontade, era mão-aberta no convívio social e ela sempre fechou os olhos para o valor das contas. Como tantas outras mulheres, vivia em permanente dieta. Ainda jovem, acometida de disfunção glandular, tornou-se gorda. Em 1953, submeteu-se a severo regime alimentar e perdeu em um ano 40 dos 108 quilos que estava pesando. A partir de então, manteve a silhueta delgada e a cintura de aproximadamente 60 centímetros. Cuidava-se bastante porque acreditava "engordar sem motivo", conforme o testemunho do industrial italiano Giovanni Battista Meneghini, seu primeiro marido, 27 anos mais velho do que a mulher. Ele fez essa revelação no livro Maria Callas - mia Moglie (Rusconi Editore, Milão, 1981). Foi o companheiro inseparável da cantora até perdê-la para o envolvente Onassis. Conta que ela evitava farináceos, aplacando a fome com saladas e filés grelhados. Entretanto, quando desamarrava o espartilho alimentar, Callas ia à forra. Ao lado de Onassis, freqüentou os mais caros restaurantes da época, como o Le Coq Hardy, de Bougival, perto de Paris; o Maxim?s, o La Tour D?Argent e o Taillevent, estes três na capital francesa. Gostava igualmente das cozinhas dos hotéis Danieli, de Veneza, Quirinale, de Roma, e De Paris, em Montecarlo. Sentia-se feliz no Ristorante Savini, de Milão, e no Harry''''s Bar, de Veneza. Nunca economizou na comida e no vinho. No Taillevent e La Tour D?Angent, bebeu derradeiras garrafas do tinto Château Lafite Rothschild 1806, sua safra favorita. Quem revelou essa preferência foi Michael Broadbent, o renomado especialista britânico em brancos e tintos antigos, ex-diretor de leilões de vinhos raros da Christie?s de Londres, atualmente colunista da revista inglesa Decanter. Aliás, o Château Lafite, jóia cobiçada da região francesa de Bordeaux, despertou outros afetos femininos. Também era o tinto predileto de madame de Pompadour, a amante, confidente e conselheira do rei Luís XV. A lembrança da voz espetacular, poderosa e ampla da Divina (como os fãs a chamavam) inspirou muitos livros. Evocam seu incomum registro vocal, que ia do mezzo-soprano ao soprano coloratura (mais agudo). Ressaltam a refinada habilidade no fraseado e o inigualável domínio cênico, sobretudo representando Tosca (Puccini), Norma (Bellini), Lucia di Lammermoor (Donizetti) e Fedora (Giordano), personagens das óperas homônimas. Falam de sua vida pessoal, temperamento impulsivo, franqueza verbal, brigas com diretores de teatro, relacionamento com Onassis (que nunca quis casar com ela), mexericos na imprensa, entusiasmo do público e aí por diante. Agora, porém, o jornalista e crítico musical italiano Bruno Tosi, fundador da Associazione Culturale Maria Callas com sede em Veneza, acaba de lançar uma obra revelando a vocação secreta da cantora: a culinária. No Brasil, recebeu o título de A paixão Secreta de Maria Callas - Histórias, Receitas e Sabores. (Editora Mercuryo, São Paulo, 2007). "Por toda a vida a grande prima-dona ... sempre sonhou ... ir ao fogão preparar deliciosos quitutes para ela e seus convidados", afirma ele. O livro apresenta 99 receitas, sendo 77 pratos de sal e 22 sobremesas. Saíram do acervo pessoal de Callas. Segundo Bosi, era "uma perfeita dona de casa", que se interessava pela cozinha e colecionava apetrechos de forno e fogão. Recortava as receitas publicadas nos jornais e revistas e, se estava no restaurante e gostava de um prato, pedia ao chef para ensinar-lhe o preparo. Tosi conta que anotava as informações em pequenas folhas de papel e depois as passava às mãos de Elena Pozzan, sua camareira e cozinheira a vida inteira ou, então, nos últimos anos em Paris, ao seu mordomo e chofer Ferruccio Mezzadri. Uma das receitas que recolheu foi a de escargots à provençal, saboreada no parisiense Maxim?s. Conheceu a casa em 1958, voltou diversas vezes, sempre acompanhada. Ali, numa noite de outono de 1968, aplacou solitária e amargurada a notícia que ouvira à tarde na televisão: Onassis casara formalmente com Jacqueline, a viúva do presidente americano John Kennedy. A Divina usava um vestido elegantíssimo e as jóias mais preciosas. Comeu tranqüilamente. Quando saiu do restaurante, encontrou a sua espera um insuportável batalhão de fotógrafos. A DIVA RECOMENDA Escargots à provençal 4 minutos 50 porções fácil Ingredientes 24 escargots Buquê de temperos: tomilho, alecrim, louro, manjericão e segurelha frescos 1 cebola grande fatiada 100g de manteiga 250ml de vinho branco 2 xícaras (chá) de espinafre picado 4 filés de anchova 2 dentes de alho fatiados Salsinha picada para salpicar Queijo ralado tipo gruyère para salpicar Sal a gosto Preparo Lave bem os escargots, limpando as conchas. Cozinhe-os em água quente com sal e o buquê de temperos. Escorra-os e, ainda quentes, retire-os das conchas. Limpe-os, descartando os intestinos, e lave-os novamente. Numa frigideira, doure a cebola na manteiga quente. Umedeça com o vinho, acrescente o espinafre, as anchovas e o alho. Coloque os escargots e cozinhe em fogo brando por cerca de 20 minutos. Salpique com a salsinha e o queijo ralado. Salteie um pouco mais, deixando o molho apurar. Se for necessário, coloque mais manteiga para dar liga ao molho. Sirva os escargots nas conchas. N

Dias Lopes, jadiaslopes@terra.com.br, O Estado de S.Paulo

26 Julho 2007 | 01h17

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.