Uma crise bem alimentada

Feita de erros, teimosia e muita irresponsabilidade, a crise tem hoje vida própria e se nutre dos alimentos criados por ela mesma, como a insegurança dos mercados, a desvalorização cambial e o aumento dos combustíveis. A nova alta de preços da gasolina e do óleo diesel é parte de uma longa sequência de desajustes. Preços maiores nas bombas deverão pressionar uma inflação já muito elevada, empurrando-a rapidamente para uma taxa anual próxima de 10%. Pressões inflacionárias muito fortes e um ritmo de atividade muito baixo, como confirmam, por exemplo, os últimos dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), compõem um quadro incomum na experiência econômica internacional.

O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2015 | 02h55

Em agosto, o setor industrial operou com 77,9% de sua capacidade instalada, o menor nível da série iniciada em janeiro de 2003. Enquanto o desemprego aumenta, a produção se contrai, os preços disparam e a renda familiar se esfarela, a receita de impostos cai, a gestão das contas públicas se complica e o Brasil se torna mais vulnerável aos problemas de um cenário global de crescimento modesto, prenunciado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e por outras instituições multilaterais.

O quadro global está sendo “pesadamente afetado” por “grandes transições econômicas”, disse a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde. Ela chamou a atenção, com ênfase especial, para as mudanças no padrão de crescimento econômico da China e para a normalização da política monetária americana, com provável aumento de juros, em breve, nos Estados Unidos.

A reforma chinesa já afeta e continuará afetando o comércio internacional e os preços dos produtos básicos, produzindo um importante impacto em muitas economias emergentes e em desenvolvimento. Ao mesmo tempo, a mera expectativa de alta dos juros americanos já afeta os mercados cambiais e as condições de financiamento.

A piora dessas condições poderá agravar a situação das empresas mais endividadas, especialmente daquelas com grandes compromissos em dólar, como já advertiu um estudo publicado nesta semana pelo FMI. Economias com fundamentos fracos obviamente serão prejudicadas num mercado financeiro com juros mais altos, maior aversão ao risco e critérios mais severos de alocação de recursos.

A mudança das condições no mercado financeiro e a expectativa de crédito mais apertado já afetaram os mercados de câmbio. Houve reflexos em todo o mundo e o real esteve entre as moedas mais desvalorizadas nos últimos meses. Aumentaram as preocupações em relação às empresas mais endividadas em moeda estrangeira. Uma dessas empresas, a Petrobrás, é duplamente vulnerável à depreciação cambial – porque deve muito em dólares e porque o custo de seus produtos finais é fortemente influenciado pelo preço da moeda americana. O aumento dos preços da gasolina e do diesel é efeito dessa dependência.

O dólar afetaria menos as contas da Petrobrás se houvesse menor insegurança em relação à economia do Brasil e às decisões de política econômica. Mas a nota de crédito soberano, já rebaixada ao grau especulativo pela Standard & Poor’s, pode ser cortada por outras agências e isso influi na operação dos mercados.

O governo tem de enfrentar, portanto, uma crise com enorme potencial de autoalimentação (tanto na alta de preços quanto na contração dos negócios), enormes obstáculos políticos à arrumação das contas públicas (condição para todo o resto) e um cenário externo ameaçador. O único dado positivo, na área externa, é a recuperação das economias mais avançadas, mas até nesse fato há um componente tóxico: o dinamismo dos Estados Unidos torna mais provável o aumento dos juros americanos até o fim de 2015.

Nesta altura, o efeito do preço dos combustíveis na taxa de inflação é o menor dos problemas. No governo, algumas pessoas parecem saber disso. O partido da presidente e boa parte do Congresso parecem viver em outro mundo.

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