Pierre-Philippe Marcou/AFP
Pierre-Philippe Marcou/AFP

Uma escrita fiel às impressões

Em entrevista ao ‘Estado’, V.S. Naipaul, Prêmio Nobel de 2001, diz que o jornalístico 'A Máscara da África'- narrativa de viagens pelo continente, que chega agora ao Brasil - foi sua última obra no gênero e que escrever é recusar fórmulas

Andrei Netto - enviado especial / Londres,

23 de julho de 2011 | 06h00

Vidiadhar Surajprasad Naipaul é autor de uma obra paradoxal. Sua escrita, em especial a de não ficção, é permeada pela objetividade e pela acuidade de seu olhar. Mas a forma transparente como expõe suas ideias, e com elas se expõe à crítica, deixa entrever a complexidade de seu pensamento. Naipaul já foi sentenciado no passado, por críticos como o teórico literário palestino Edward Wadie Said, com a pecha de racista, preconceituoso, eurocêntrico.

A recorrência dessas palavras associadas ao nome do Prêmio Nobel de Literatura de 2001 é tão grande que mencioná-las beira o déjà-vu. Mas a mesma impressão se renova com certa frequência ao longo de sua obra. O último na relação de analistas que o recriminam pesadamente é Robert Harris, escritor e jornalista britânico que, em sua resenha para o jornal The Sunday Times sobre A Máscara da África, agora lançado no Brasil pela Companhia das Letras, o classifica como "tóxico" e "repulsivo".

Para escrever o livro, Naipaul viajou ao longo de seis meses, de Uganda - onde já viveu - à África do Sul, passando pela Nigéria, pelo Gabão, pela Costa do Marfim e por Gana. O esforço de um homem que completará 80 em agosto o esgotou a ponto de o fazer abandonar a não ficção, segundo confidenciou na entrevista exclusiva a seguir, concedida ao Estado. Mas o sacrifício físico não abalou sua disposição a permanecer fiel às próprias impressões, custe o que custar.

Nessa fidelidade repousa a atualidade e a força da obra de Naipaul. À objetividade de seus temas e propósitos, soma-se uma tendência natural à transparência de seu pensamento - o que por vezes rompe, sim, com o politicamente correto. Em A Máscara da África, o leitor mais sensível será confrontado com a frequência que Naipaul se refere ao sacrifício de animais, por exemplo, ou como comenta sobre as mortes de crianças e velhos na Costa do Marfim. Mas, muito antes de manifestação de etnocentrismo, essa é uma constatação de uma realidade que lhe impacta e o impressiona. Em síntese: é liberdade de expressão.

A Máscara da África não é uma expedição de um europeu por um continente selvagem em busca de aprendizagem sobre manifestações de fé primitiva, como sugeriram críticas reducionistas. Trata-se, antes de tudo, de mais uma jornada de Naipaul - desta vez como jornalista, não como ficcionista - rumo ao estranho, ao desconhecido. A fé, um símbolo do que o sociólogo francês Michel Maffesoli chama de "não racionalidades", está sim no centro das atenções, assim como esteve em Entre os Fiéis (1981) e Além da Fé (1998), quando o autor excursionou pelo mundo islâmico sem poupá-lo de sua visão das coisas.

Entretanto, talvez a objetividade de suas intenções e a transparência de suas convicções sejam uma antítese da superficialidade e escondam algo mais sensível do que suas críticas. Talvez A Máscara da África reforce mais uma vez a busca do escritor tobaguiano-britânico, com ascendentes indianos, não só pela compreensão da fé e por certos arcaísmos tão típicos do ser humano moderno, mas em especial pelas identidades - e inclusive a sua própria.

Esses temas estão dispersos na entrevista realizada no último sábado, em seu apartamento, no distrito de Kensington, onde vive parte da alta burguesia londrina. Formal, mas simpático e muito gentil, Naipaul lembrou sua primeira passagem pelo Brasil, em 1994, e falou sobre a possibilidade de uma nova viagem ao País, em novembro. "Infelizmente, não sei se será possível porque tenho compromissos na Índia pouco antes", ponderou, revelando um certo cansaço ao qual se referiria mais à frente. Depois, comentou A Máscara..., contudo foi além: falou com prazer de sua faceta jornalística e sobre os dilemas, sabores e saturações da vida de um Prêmio Nobel.

A seguir, a íntegra da conversa.

Comecemos por seu mais recente livro. Em A Máscara da África, tenho a impressão de ser guiado por um grande escritor, mas também por um jornalista. Estou correto? Seu lado não ficcionista é também um lado forte e ainda presente?

Sim, sem dúvida. Como você percebeu, atuar como jornalista ainda é muito importante para mim. O jornalismo me educou. Foi a profissão que me permitiu viajar ao redor do mundo, constatar coisas que jamais pensaria em presenciar se não tivesse escolhido esse ofício. Se tivesse sido por toda a minha vida apenas um escritor, valendo-me de minha imaginação, teria limitado meu próprio trabalho. Sem viajar a algum lugar distante, eu não conhecia muito sobre o mundo. Meu conhecimento do mundo vem do jornalismo. O jornalismo, claro, tem a ver com as notícias do dia antes de mais nada. Mas eu sinto que o que faço é diferente. Eu escolho um tema, viajo em busca de um assunto, tento compreender seus significados durante o caminho. Não é jornalismo no sentido de um homem que busca pelas notícias do dia, é claro. Mas é uma forma diferente de escrever jornalismo, uma excelente forma de descrever os fatos que verifico.

O que é mais importante para sua não ficção, para seu "lado jornalístico": encontrar novos povos, compreender suas culturas? Como é o seu processo de aprendizagem, de educação?

As pessoas são o mais importante. Sem encontrá-las, é impossível entender o país, a região, o povoado que se está conhecendo. Muito de minha energia é despendida na procura dessas pessoas, em diálogos que possam ser construtivos, que me permitam compreendê-las. No que se refere à minha obra de não ficção, desde os anos 1960 - tenho longa experiência nesse gênero de trabalho -, mergulhar no universo das pessoas comuns é fundamental. Em algum lugar, o qual não me recordo qual foi, eu disse que o grande avanço na natureza de minhas viagens foi quando entendi que o mais importante não é o escritor, mas as pessoas com as quais o escritor está viajando. Não creio que tenha mais nada a dizer além disso, porque essa sentença continua a ser muito importante a meu ver. É a forma como continuo interpretando minhas viagens. Eu provavelmente não as farei novamente. É muito duro ir ao encontro das pessoas, muito exaustivo, um grande esforço para o visitante. Diante disso, eu prefiro não tornar a fazê-lo daqui para a frente.

 

O que não significa de forma alguma que o senhor vá parar de escrever, eu imagino.

Mas vou fazê-lo de uma forma diferente. Em que sentido? Provavelmente não vou voltar a escrever uma nova obra como A Máscara da África. Eu sinto, como disse, que é uma tarefa dura demais. Ler um livro como esse é simples, porque não é uma obra que se proponha a ser complexa, hermética. Mas compô-la é um trabalho complexo, extenuante, muito, muito difícil. Realmente não quero me expor no futuro a novas viagens e a processos criativos como esse.

O senhor acha pertinente comparar A Máscara da África a dois de seus livros precedentes, Entre os Fiéis (1981) e Além da Fé (1998), por exemplo? Trata-se de três obras totalmente diferentes, claro, mas o tema de base é o mesmo: a crença.

Se posso compará-lo? Sim, mas no sentido de distingui-los. Among the Belivers foi um esforço para compreender as grandes crenças do mundo. Não há nada parecido em The Mask of Africa. Meu último livro se limita a observar ao redor aquilo que já existe, sem nenhuma tentativa maior de compreender em profundidade em tão pouco tempo tal realidade.

 

Ao questioná-lo sobre esses três livros, admito que esperava uma analogia que envolvesse a fé e sua relação com ela. Mas talvez deva entender que a fé não é necessariamente um dos temas fetiches de sua obra.

 

E de fato não o é. Eu não tenho crença particular, não tenho religião. Meu interesse no tema sempre foi literário, histórico também. Mas não representava nenhum tipo de procura por mim mesmo.

Historicamente, sua obra parte de suas experiências individuais em Trinidad para a crítica aguda, sem esperança, do Terceiro Mundo. O que explica essa passagem do relato de sua realidade à crítica de realidades distantes à que o senhor se dedicou?

Meus primeiros trabalhos foram bastante limitados, porque o escritor era limitado, as experiências do escritor eram limitadas, mas no fundo eu sempre adorei a possibilidade de explorar lugares, conhecer pessoas, entender culturas. Era algo excitante para mim. Claro, enfrentei problemas, infinitos problemas. Mas também não posso dizer que tenha sido difícil, porque foi sobretudo muito excitante. Foi um grande alívio, em certos sentidos, que tivesse feito essa transição entre o que estava em meu entorno e o mundo que circundava minha realidade imediata.

Foi um desafio mergulhar nesse mundo desconhecido, ou algo automático, como uma necessidade, uma pulsão?

Foi um esforço. É sempre um grande esforço entender uma cultura diferente da sua. É a razão pela qual encontrar pessoas pode se tornar algo tão desgastante. Mas o fato de encontrar pessoas, compreender por que elas são como são, exige tal esforço. Sem viajar para encontrá-las, seu trabalho é quase inútil.

O senhor foi descrito ao receber o Prêmio Nobel como um circum-navegador literário, que se encontra em si mesmo. Vivemos uma era, a da globalização, perfeita para esse tipo de escritor. O senhor se vê como um fruto precoce do nosso tempo? Alguém que anteviu as contradições entre nossos arcaísmos e modernidades?

Não, não me vejo como alguém de vanguarda. Minha escrita é muito simples, muito direta, e fala do que eu vi. Eu não trago teorias comigo, e na verdade me sinto feliz por não trazê-las para minha obra. Se tivesse teorias, elas teriam feito de minha escrita uma espécie de fórmula. Seria menos interessante. É porque decidi nunca investir em teorias. Você crê que faz sentido em relação à minha obra?

Claro. Mas não posso deixar de perceber que sua obsessão pela viagem, pelo contato com o estranho é uma constante em sua obra.

O mais importante em viajar é não trazer consigo uma ideia preconcebida do local para o qual estamos viajando. Uma das primeiras coisas que entendi é que, antes de viajar ao Brasil, a Gana ou a qualquer outro país, as pessoas costumam ler muito sobre seus destinos. Eu nunca fiz isso. O que costumo fazer é viajar a um lugar que me atinge, me impacta de forma refrescante. Essa é uma resposta indireta a sua questão.

O senhor disse certa vez, em artigo do Le Monde, que as "zonas tenebrosas" que o cercavam na infância voltaram à tona. O senhor escreveu sobre Trinidad, mas também sobre diferentes países, culturas, sobre colônias, nacionalismos, sobre a Índia, sobre o mundo muçulmano, a África, a Inglaterra. É possível ser preciso sobre temas tão diversos?

Sim, definitivamente. Se você o faz de uma forma direta, recordando suas impressões, é claro que é possível. O pintor Cézanne disse certa vez: "Eu gosto da veracidade de minhas impressões". Isso é tudo o que um escritor deve fazer: ser verdadeiro em relação às suas próprias impressões.

As viagens pelo mundo o enriqueceram tecnicamente, certo? Eu imagino que não apenas nos temas que o senhor abordou, nem apenas na sua visão de mundo. Como o senhor explica esse enriquecimento? Em que domínios ele se deu com mais força?

Em conhecimento, experiência. É a razão pela qual gosto da ideia de viajar para escrever. Trata-se sempre de um belo começo, uma forma de adicionar saber àquilo que sei sobre o mundo. Se eu não o fizesse, se eu me reduzisse ao meu pequeno conhecimento, conhecimento que tinha como adolescente ou jovem adulto, seria muito enfadonho ser escritor. Eu teria me cansado profunda e muito rapidamente.

O senhor diz que um jovem escritor francês ou inglês teria encontrado inúmeros modelos nos quais se inspirar. Nascido em Trinidad, o senhor não os teve, o que lhe levou a ser um escritor intuitivo. Foi uma vantagem ou uma desvantagem?

Ambas, creio eu. É uma vantagem ter modelos maiores para inspirá-lo, no entanto de alguma forma eles o limitam. Essa é uma questão muito difícil, mas uma excelente reflexão, sobre a qual não tenho todas as respostas.

O senhor é leitor de Proust e Balzac. Sua obra parte do individual para diagnosticar o social, usa sua visão aguda para registrar e criticar a realidade. Como o senhor classifica a sua relação intelectual com as obras de Proust e Balzac? De alguma forma impactaram sua identidade?

Não há paralelos entre Proust, Balzac e mim. Cada escritor é particular, é produto de um certo tipo de experiências e de suas próprias convicções e experiências. É o que faz escritores interessantes, aliás. Não podemos... somos na verdade incapazes de dizer de onde viemos. Eu não diria que Balzac ou Proust são inspirações para mim. Eu os li por prazer - muito prazer, diga-se. No passado, cada Balzac que pude ler foi algo extremamente excitante para mim. Mas então algo aconteceu. Escrever é algo vivo. O escritor se transforma, e com ele as atitudes de um escritor como leitor. Ambos se transformam. Dito isso, talvez não lhe surpreenda saber que há poucos anos eu decidi reler Balzac, e que tive grandes dificuldades, grandes dificuldades. E então tive a impressão de que aquilo que me impressionava em 1974, talvez com impactos que desconheço sobre a forma como escrevia, não se sustentava mais, era pesado.

Por quê? Era muito...

... Muito denso. Quero deixar claro que estou fazendo essa reflexão neste momento - nunca a fiz em minha vida. Mas antes de mais nada eu creio que, quando Balzac escrevia, nos anos 1830, 1840, tudo o que ele dizia era novo. Logo, ele tinha muito a explorar. Quando eu o li, em meus primeiros contatos com sua obra, há 60 anos, eu senti a grande carga de conhecimento que me invadia por meio de sua obra. Hoje não é mais tão fácil para mim ser impactado da mesma forma.

Há algum escritor dos dias de hoje que o senhor tenha lido e soe grande, inspirador, atual, como grandes autores lhe soaram no passado? Onde o senhor encontra essa carga extra de conhecimento que lhe impressionou?

(Risos) Não encontrei mais tão profunda satisfação, a bem da verdade. Mas encontro satisfação em ler bons escritores. Também me volto a escritos dos primeiros séculos depois de Cristo, nos latinos, que são impressionantes, misteriosos, carregados de filosofia. Os especialistas em poesia desapareceram. Mas sei que essa resposta não satisfaz sua questão original. O que quero dizer é que, ao ler, busco esses autores do passado e os amo. Eu me pergunto como chegaram a tamanho talento narrativo, como alcançaram tão suprema completude. Mas não se engane: sei bem que não estou falando de nosso tempo.

O senhor sabe que encarna boa parte de suas próprias definições sobre talento e completude para uma nova geração de autores, certo?

Refiro-me a tornar-se uma inspiração, uma revelação encantadora a cada página. Não, eu não tenho essa ideia. Tenho de admitir que já a ouvi, mas é algo que parece muito, muito distante de mim. O que sei é que há pessoas que costumam criticar a minha obra. Quando ouço comentários sobre minha obra, em geral não são agradáveis. Isso é algo que me deixa desconfortável, inconformado, até. Mas você está certo do que você está afirmando?

Sem sombra de dúvida. Mesmo em países distantes, como o Brasil, com o qual o senhor não tem grande intimidade, sua obra é uma referência contemporânea.

Que palavras encantadoras! É muito bom ouvir o que você está dizendo.

Mas o senhor mencionou as críticas ao seu trabalho. Elas de fato existem, a tal ponto que sua obra já foi criticada algumas vezes como "imprecisa", outras como "conservadora", às vezes até "racista". Como o senhor recebe essas críticas?

Eu não presto atenção a esse gênero de crítica. Eu não perco meu tempo com isso e simplesmente não me incomodo. Não é algo que me machuque, porque em geral é tolo, sem sentido. Quando as críticas são baixas, é impossível conviver com elas. Você não tenta responder, adaptar-se e conviver com elas. Você só as ignora. Ser um escritor é uma vida longa, é algo muito solitário. E essa solidão pode ser algo muito triste se você escreve impactado por algo triste. Você não pode responder a essa crítica ou aquela. Eu, pelo menos, não o faço.

Em 2001 o senhor afirmou: "Eu sou a soma dos meus livros. Tudo o que eu tenho a dizer de válido se encontra em meus livros". Retrospectivamente, como o senhor vê a sua obra? Que recado ela deixa ao mundo?

Não posso dizer, porque o desconheço. O que faço é deixar que as pessoas que me leem digam em meu lugar. Estou envolvido demais em meu trabalho, e quando se está nessa situação não se pode analisar com clareza. Não se vê o conjunto. Não creio sequer que fosse a boa pessoa para fazer tal análise. Tudo o que sinto em relação à minha própria obra é satisfação pelo fato de que ela permanece, de que ela tem leitores, o que também é uma forma de satisfação em si.

Soma-se ao que o senhor acaba de dizer a afirmação de que não escreverá mais livros como A Máscara da África. O senhor se sente, além de satisfeito, realizado? O senhor acredita ter novas mensagens a enviar a seu público?

Tenho escrito a respeito disso, a respeito de certas preferências pessoais. E, em relação a isso, meu ponto é claro: se você é um escritor, você nunca se sente realizado. Há sempre algo no fim, e esse movimento de encontrá-lo e recomeçá-lo é algo permanente. Você pode acreditar que não há nada muito mais novo para dizer, mas é motivado pela questão "Há alguma coisa nova a dizer?". Eu não conheço a resposta.

E então continua a escrever.

(Risos) Se possível, se possível.

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