Marcos de Paula/AE
Marcos de Paula/AE

Uma Ferrari em Curicica

Como o carrão do filho de Eike Batista ficou ainda mais exclusivo depois de três dias ao relento

Luciana Nunes Leal, de O Estado de S.Paulo,

12 Maio 2012 | 16h00

RIO - Dono de um lava-jato na Estrada dos Bandeirantes, em Curicica, localidade pobre da zona oeste carioca, Felipe Curty, 21 anos, calcula que conseguiria R$ 12 mil em seu Palio cinza 1997. E até ri quando se dá conta de que, a poucos metros dali, no depósito do Detran, dormiu durante três noites uma Ferrari 458 Italia, modelo 2010, que vale 125 Palios iguais ao seu: R$ 1,5 milhão.

 

É o carrão de Thor Batista, 20 anos, apreendido em uma blitz na tarde do domingo passado, quando o playboy desfilava com a novíssima aquisição sem a placa da frente. Havia poucos dias que a Ferrari estava nas mãos de Thor, filho do empresário Eike Batista, o homem mais rico do País, com sua fortuna de R$ 57 bilhões.

 

Depois de comprar o carro em uma concessionária de Ribeirão Preto (SP), no mês passado, a loja convidou Thor para um programa que permitiria explorar melhor o potencial do brinquedo: motor de 4,5 litros e 8 cilindros em “V” (daí o nome 458), 570 cavalos, velocidade máxima de 325 km/h, que vai de 0 a 100 km/h em 3,4 segundos. Thor aceitou e, no sábado, véspera do flagrante no Rio, estava em um aeroporto particular de Gavião Peixoto (SP), alugado para a terceira etapa da Driver Cup, corrida de pilotos amadores de carros superesportivos. Fez três voltas de uma milha (1,6 quilômetro) e uma volta de quatro quilômetros. Alcançou 309 km/h. Ficou só em nono lugar entre 14 competidores de sua categoria. No total, 120 carros participaram, quatro Ferraris. O vencedor, um Audi R8, bateu 360 km/h.

 

Levada de caminhão, a Ferrari de Thor - um dos 65 exemplares 458 Italia existentes no Brasil, segundo a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores - chegou ao Rio no domingo e foi passear com o dono. Mas uma blitz do Detran na Av. Ayrton Senna, Barra da Tijuca, acabou com a festa. Por volta das 15h, o rapaz foi parado e, segundo postou no Twitter, não adiantou explicar que a placa faltante estava dentro do carro e seria fixada em breve, pois, não sendo obrigatória na Itália, o carro sai da fábrica sem lugar para colocá-la. Thor levou a Ferrari ao depósito e voltou para casa no carro dos seguranças que o acompanham aonde quer que vá.

 

E lá ficou a Ferrari em Curicica, num terreno de 11 mil metros quadrados, cercada por 960 carros e 1.600 motos. Por precaução, um dos funcionários do depósito cercou a visitante mais ilustre dos últimos tempos com uma fita amarela e preta e cones. O argumento era forte: “Se alguém danifica uma porta dessas, imagina ter que pagar a pintura!”

 

A Ferrari ainda mantinha no para-brisa o número 22, lembrança da corrida da véspera. Na dura realidade de Curicica, estava cercada por um Peugeot, um Fiat Uno, um Camaro e muitas motos. Ficou três dias ao relento, esperando que funcionários de Eike Batista providenciassem a documentação necessária para o “salvamento”

 

“Eu conserto muito carro bacana. Mas esses de superluxo eles não trazem nas oficinas da gente. É tudo especializado. O pai desse garoto só tem R$ 50 bilhões”, ironizou o mecânico Jaime Faria, que mora e trabalha a cem metros do depósito. “E ele ainda tem aquela Mercedes que estava dirigindo quando matou um cara”, lembra.

 

De fato, foi a bordo de uma Mercedes McLaren prata - mais potente, cara e exclusiva que a Ferrari - que Thor atropelou e matou o ajudante de caminhão Wanderson Pereira dos Santos, de 30 anos, na Rodovia Washington Luís, Baixada Fluminense, em 17 de março. Laudo preliminar da perícia indicou que Thor não estava no acostamento da estrada. Contudo, o delegado responsável pela investigação, Mário Arruda, afirmou que na hora do acidente a Mercedes rodava a 135 km/h, e o limite no trecho é de 110 km/h. Ele anunciou o indiciamento de Thor por homicídio culposo. Seus advogados rebatem. Dizem que, conforme um laudo particular, o rapaz diria a no máximo 104,4 km/h.

 

Com oito unidades no Brasil, a Mercedes McLaren chega a 334 km/h, tem potência de 626 cavalos e vai de 0 a 100 km/h em 3,8 segundos. Vale R$ 3 milhões - o dobro da Ferrari. Eike Batista gostava de exibir o bólido prateado na sala de casa. Agora, devolvido ao empresário depois do acidente, ele está em uma garagem. Se quiser levar a Mercedes de volta às ruas, Eike terá que mandá-la à Alemanha. No Brasil não há oficina capaz de fazer os reparos necessários.

 

Já a Ferrari foi liberada na tarde de quarta-feira. O prejuízo de Thor até agora foram as três diárias do depósito, que somaram R$ 117,12. Ele ainda terá de pagar multa de R$ 191,54 por infração gravíssima e juntou mais sete pontos na carteira de habilitação. As informações extraoficiais são de que o rapaz já ultrapassou os 50 pontos. Sua Ferrari ganhou novamente as ruas com a placa dianteira devidamente instalada numa haste improvisada. Quer dizer, ficou ainda mais exclusiva, única: agora ela é uma Ferrari 458 Italia com gambiarra. 

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