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Uma função para a menopausa?

O ser humano é uma das três únicas espécies de mamífero em que as fêmeas deixam de se reproduzir bem antes da sua morte

Jairo Bouer, Impresso

15 de janeiro de 2017 | 07h14

Já parou para pensar por que as mulheres entram na menopausa? Antes de responder, uma curiosidade: o ser humano é uma das três únicas espécies de mamífero em que as fêmeas deixam de se reproduzir bem antes da sua morte. Pensando no processo da Evolução, qual seria a vantagem adaptativa e o custo ecológico de um membro do grupo que perde a capacidade de gerar descendentes? Um novo estudo que acompanhou orcas por mais de 40 anos ajuda a jogar luz nessa questão.

O processo da menopausa decorre da “falência” dos ovários, que deixam de liberar hormônios sexuais femininos e de gerar óvulos viáveis por volta dos 50 anos. A esmagadora maioria dos animais não enfrenta essa etapa da vida. As orcas, sim.

Um trabalho publicado na revista Current Biology e divulgado pela agência de notícias AFP na última semana, sugere que a competição entre orcas mães e filhas na procriação pode explicar a causa de as mais velhas terem desenvolvido, ao longo de sua evolução, o processo de menopausa. Elas não teriam filhotes ao mesmo tempo que as filhas e poderiam, assim, “poupar” tanto a atenção dos machos como recursos alimentares para aumentar a chance de os netos sobreviverem.

Os cientistas das universidades de York e de Exeter, no Reino Unido, e do Centro de Pesquisa de Baleias, Pesca e Oceanos, do Canadá, perceberam que, quando as orcas mais velhas se reproduzem, a taxa de mortalidade dos seus recém-nascidos chega a ser quase 1,7 vez maior do que a dos filhotes das fêmeas duas gerações mais novas. Nessa situação, seria melhor que elas se dedicassem a outras funções “sociais”.

Na maturidade, essas fêmeas desempenham papel importante em liderar o grupo na busca por alimentos e no melhor enfrentamento dos tempos de escassez. Nos grupos em que havia orcas mais velhas, na menopausa, o tamanho do grupo e o número de filhotes era maior, o que poderia influenciar na taxa de sobrevivência desses animais, que assim gerariam mais descendentes. Além disso, essas orcas “avós” garantiriam uma proteção física adicional à prole de suas filhas e netas.

Há cerca de duas semanas, pesquisadores divulgaram a notícia de que a orca mais velha do mundo, com mais de 100 anos, chamada carinhosamente de Granny (vovó, em inglês), havia morrido. Ela foi a fonte de inspiração para estudos sobre a função evolutiva da menopausa. Além das orcas e dos humanos, em vida livre, apenas a espécie baleia-piloto-de-aleta-curta também passa pela menopausa. As orcas começam a se reproduzir aos 15 anos e podem ter filhotes até aproximadamente os 40 anos – e podem alcançar os 90 anos, o que representa mais tempo fora da idade reprodutiva do que dentro dela.

Humanos e outros primatas. Curiosamente, outros primatas, muito próximos evolutivamente dos humanos, como chimpanzés, bonobos e gorilas, não enfrentam a menopausa. Parece que somos uma espécie isolada nessa característica.

Existe uma exceção, divulgada há dois anos por pesquisadores do parque Durell Wildlife, na França. Gina, uma orangotango fêmea (com 97,6% do DNA idêntico aos humanos), então com 49 anos, mãe de sete filhotes, apresentou sinais de menopausa. Ao investigar seus hormônios, os veterinários perceberam que ela havia passado por um processo fisiológico idêntico ao que atravessam as mulheres, inclusive na mesma faixa de idade.

No caso dos humanos, ao longo do processo da formação da nossa espécie é de se supor se a menopausa também teve seu papel. Além de reduzir a competição reprodutiva entre mães e filhas, ela pode ter deslocado as avós para uma função de maior suporte e ajuda na criação dos netos, o que, em tese, aumentaria suas chances de sobrevivência. Ao fazer isso, elas acabaram liberando as mães ainda em idade fértil para se reproduzir novamente e para se ocupar dos filhos recém-nascidos, gerando mais e mais descendentes. Será?

*É PSIQUIATRA

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