Uma imperatriz reclamona e boa de copo

Uma das contribuições da corte portuguesa à gastronomia carioca foi a reorganização dos horários das refeições. O almoço voltou a ser de manhã, às 9 horas, o jantar às 14 horas e a ceia às 19 horas. Ao mesmo tempo, d. João VI e seu séquito trouxeram receitas de legumes e verduras, em refogados, saladas e sopas; de arroz e trigo (o pão brasileiro, duro e ruim, levava farinha de mandioca ou milho); de carnes de vaca, carneiro, cabrito, porco, ganso, galinha, pato, pombo, perdiz, veado, lebre; de peixes, inclusive bacalhau; alho, cebola e cominho, predileções lusitanas; e de doces europeus à base de pêssego, figo, damasco, pêra, abóbora e ginja. Vieram ainda produtos desconhecidos, como amêndoas, avelãs, nozes e tâmaras; vinhos portugueses do Porto, Moscatel e Carcavelos; franceses de Bordeaux e Borgonha; e tintos da Catalunha e Chipre. A corte, porém, incorporou ingredientes brasileiros: goiaba, banana, abacaxi, feijão preto, palmito (que todos adoraram), carne-seca, farinha de mandioca e pimentas, entre outros. Pela análise dos cadernos de mantearia e ucharia da família real, conservados no Arquivo Nacional, do Rio, e na Torre do Tombo, em Lisboa, identificam-se os gêneros comidos por d. João, que morava no Palácio da Quinta da Boa Vista, no bairro de São Cristóvão, e sua mulher, residente na Chácara ou Palácio de Botafogo - o casal não se dava bem e vivia desde Portugal em casas separadas, apesar de a mulher continuar a ter filhos que não se pareciam uns com os outros. Estudando os documentos a historiadora portuguesa Ana Roldão, do Museu Imperial de Petrópolis, em parceria com o jornalista brasileiro Edmundo Barreiros, reuniu subsídios para o livro Banquetes Reais, a ser lançado este ano por Jorge Zahar Editor. Descobriu, por exemplo, que uma enorme quantidade de "mercearias finas" (amêndoas, damasco, chocolate, compotas) e de cachaça se destinava à "cozinha e quarto" de d. Carlota Joaquina. Ressalte-se que a aguardente de cana tinha muitas utilidades: servia para conservar vegetais e frutas, produzir remédios e licores caseiros, além de ser anti-séptica e anestésica. A mulher de d. João enfrentava o calor do Rio, cujo clima odiava, entornando cachaça misturada a suco de fruta. Aliás, detestava tudo que fosse nacional, exceto o palmito, que Eda Romio, no livro 500 Anos de Sabor - Brasil 1500-2000 (ER Comunicações, São Paulo, 2000), diz ter enviado na manteiga para o irmão d. Fernando VII, rei da Espanha. Os historiadores a descrevem como uma mulher temperamental, inescrupulosa, queixuda, de olhos pequenos, nariz vermelho, dentes péssimos, pele grossa, lasciva e dissoluta. Os defeitos culminavam com um racismo exacerbado. Paulo Setúbal, no livro Os Bastidores da História (Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1983), conta que ao embarcar de volta para Portugal ela teria exclamado: "Vou ficar cega quando chegar a Lisboa! Pudera! Vivi 13 anos no escuro, só vendo negros..." Agora, sabe-se que também foi boa de copo.

Dias Lopes, O Estado de S.Paulo

28 Fevereiro 2008 | 03h43

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