Uma narrativa para além da realidade

Em 1942, um homem falecia na pequena cidade polonesa de Drohobycz. Chamava-se Bruno Schulz e hoje, com um atraso de vinte anos, um livro seu - quase a totalidade de sua obra - foi traduzido na França sob o título de "Le Traité Des Mannequins". Para a critica literaria francesa é uma revelação. Desde já ela saúda Schulz como um Kafka polonês.

Gilles Lapouge,

19 Maio 2012 | 05h30

Na verdade é muito grande a semelhança entre os dois homens. Schulz era também judeu e sua patria era incerta, nos limites da Áustria e da Polonia, como a de Kafka era indecisa, entre a Checoslovaquia e a Alemanha. Num e outro surge, no centro da inspiração, a figura imperiosa e gigantesca do pai. Enfim, as duas obras devem á vigilância de alguns amigos dedicados o fato de não se terem submergido em um esquecimento definitivo.

Aí, entretanto, cessam as analogias. Se Kafka considerava-se um homem de letras e não concebia uma existencia não consagrada á literatura, o mesmo não acontecia com Schulz. Para todos os habitantes de Drohobycz, Schulz não passava do professor de desenho da escola (...) e ninguém suspeitaria que "esse gnomo insignificante, com a cabeça enorme e olhos febris", era escritor. E, no entanto, á noite, instalava-se á sua mesa de trabalho e redigia longas cartas a um de seus amigos. Essas cartas tomavam, muito naturalmente, a forma de contos fantasticos - esses mesmos contos que hoje compõem o "Traité des Mannequins".

Na verdade, é menos apropriado falar em contos, no sentido corrente da palavra, do que em descrições da vida quotidiana da pequena cidade. Mas que quotidiano e que cidade! Sob o olhar incansavel do professor de desenho, a realidade parece entrar em transe. A seus olhos, o mundo é instável, sua metamorfose é incessante. A matéria - como mais tarde na "Nausée", de Sartre, porém com outra qualidade poética - a matéria é dotada de energia própria e inesgotável, prolifera, agita-se, deforma-se, multiplica-se. O narrador sai um dia pelas ruas da cidade, eis que as casas começam a mudar de lugar, cruzamentos ignorados e ruazinhas desconhecidas aparecem, como se houvesse uma superposição dos velhos pianos amarelados da cidade que Schulz apreciava, e este perde-se no centro de uma arquitetura tentacular, com perspectivas vertiginosas, semelhantes a certas gravuras do Piranese. O mesmo acontece com tudo o que Schulz contempla, seja na loja de fazendas de seu pai, os passaros criados no celeiro, uma figura de mulher, ou ainda a rua dos Crocodilos, que abriga ao mesmo tempo os bancos e as casas de tolerancia. Em todas as circunstancias, Schulz procura o reverso das coisas (...). Para ele, o artista é, por tanto, "o grande heresiarca", o "sedutor e magnetizador formidável", empenhado numa realidade diversa da quotidiana. Na Polonia, Schulz foi classificado entre os escritores simbolistas e isto é apenas uma aproximação. É mais um escritor da "super-realidade", no sentido dado por André Breton á procura de uma realidade mais verdadeira que a realidade.

Essa viagem ao tenebroso e indizivel é servida por uma linguagem freqüentemente deslumbrante. Aqui ainda, impõem-se as divergencias entre Schulz e Kafka. Ao estilo difícil e forçado, cerimonioso, voluntariamente esterilizado de Kafka, Schulz responde com uma linguagem poética que não recua perante facilidade alguma nem qualquer beleza. Sua riqueza é quase excessiva. (...)

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