Uma nova invasão argentina está pronta. E o nome dela é Torrontés

Conseguirá a uva repetir o desempenho e se tornar uma versão branca da Malbec nos Estados Unidos?

Eric Asimov/THE NEW YORK TIMES,

10 de fevereiro de 2011 | 12h37

 

A Torrontés tem sido considerada a barbada mais quente vinda da Argentina desde a chegada do tango. Ou pelo menos desde a Malbec. É uma uva branca e dizem que vai ser tão popular nos EUA quanto a Pinot Grigio.

Um dia até pode ser, mas vamos com calma. Você já ouviu falar na Torrontés? Fora da Argentina quase não é plantada em nenhuma outra parte. A Espanha também tem uma uva com esse nome, mas tudo indica que as duas variedades não têm parentesco. A uva argentina é tida geneticamente como um híbrido da Moscatel de Alexandria com a Criolla ou Missión, uma uva local. A ancestralidade da Torrontés tem interesse somente pelo fato de ter mantido da Moscatel seu glorioso traço aromático. As melhores Torrontés são muito cheirosas, exuberantemente florais, com um forte e destacado tom cítrico. Enfie o nariz na taça e virá a dúvida se o líquido deveria ser vendido como vinho ou perfume.

A Argentina tem talento para variedades obscuras de uvas. Pegou a Malbec, uva tinta meio esnobada em Bordeaux, quase esquecida de Cahors e conhecida por Côt no Vale do Loire, e a transformou num fenômeno suculento, frutado e gerador de lucros, identificado exclusivamente com os vinhos argentinos.

Será que a Torrontés conseguirá repetir o desempenho e se tornar a versão branca da Malbec? Está no caminho. Em 2010 a Argentina exportou 200 mil caixas de Torrontés para os EUA, de acordo com a Wines of Argentina. Uma cifra que parece irrisória frente aos 3,5 milhões de caixas de Malbec que os americanos compraram no mesmo período. Mas comparando com as meras 29 mil caixas de Torrontés exportadas em 2004, é um crescimento e tanto.

Recentemente provei cerca de 20 vinhos com a uva. Dava para escolher facilmente 50, a oferta é grande. De cara deu para perceber os problemas de identidade da casta. Tinha de tudo no mapa de estilos: alguns eram bem secos, de corpo médio e picantes, como os Pinots Grigios. Outros eram pesados, amplos e ricos, como Chardonnays californianos de uvas muito maduras.

Isso pode ser um problema real. Todos os gêneros de vinhos têm seus desvios estilísticos, mas os consumidores em geral conseguem perceber os traços comuns entre eles. Chablis é um Chardonnay que pode se esperar que seja esguio e mineral, sem sabores amadeirados. Já de um Chardonnay californiano se espera mais intensidade e corpo e os sabores de carvalho não são surpresa alguma. Existem, claro, exceções, em geral de produtores que estão há tempo suficiente no foco para terem direito de estabelecer a própria identidade. A Torrontés ainda não tem uma identidade clara, pelo menos por enquanto, e a natureza imprevisível do que está nas garrafas não ajuda nada. Deu para notar que seu nível de qualidade está totalmente relacionado com a acidez. Leves ou encorpados, se têm a acidez necessária, conseguem ser vivos e atraentes. Os demais descem pesadamente, untuosos e enjoativos.

Os que mais gostei tinham uma exuberância aromática – belos cheiros de flores, tangerina e Moscatel – singular e atraente, com a advertência de que precisam ser consumidos jovens. Continuando na comparação com os Pinots Grigios, eles parecem ao mesmo tempo prematuros e enganadores. Os Grigios mais vendidos são tão uniformes que não ofendem ninguém, exceto quem procura vinhos diferentes. Os Torrontés, por outro lado, são pouco usuais, com uma capacidade até mesmo para desnortear. Nos vinhos, isso costuma ser uma grande qualidade.

 

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