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Ugo Giorgetti
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Uma novidade

Cristóvão Borges chegou ao Corinthians sob imensa desconfiança. Ninguém entendia bem a razão da escolha e, previa-se que não ia durar muito. De fato Cristóvão não parece o tipo ideal de treinador para o Brasil do momento. Mais do que para os jogadores, aos técnicos é necessária hoje uma postura, uma pose, um aspecto de treinador. Afinal é a categoria mais acusada de atraso e a mais frequentemente culpada pelo estado atual do futebol brasileiro. 

UGO GIORGETTI, O ESTADO DE S.PAULO

17 Julho 2016 | 05h00

Ao boleiro ainda se perdoa um aspecto, digamos, mais simplório, popular, informal, para dizer o mínimo. Ao treinador isso não é mais permitido. É necessário até “boa aparência”, como diziam os antigos anúncios oferecendo emprego, já deixando claro que uma parcela imensa da população estava fora dos padrões exigidos. Dá-se inegável preferência hoje a treinadores do sul do país, que, salvo exceções, são mais desenvoltos quando falam, brancos, sérios, respeitosos quanto à necessidade de aprender e se instruir “lá fora”. 

Vejam o caso de Dorival Junior. Era um treinador de certo respeito, mas nada além disso. Salvo no Santos não tinha tido passagens muito marcantes por nenhum clube. Eis que, num momento de desemprego, Dorival resolve fazer uma incursão pela Europa e aprimorar seus métodos. Na volta assume o Santos com muito sucesso. É muito difícil dizer se o estágio não muito longo de Dorival pelos clubes europeus tenha tido um grande efeito nisso. Talvez sim, talvez não. Mas já vi muita gente assegurando notável progresso até nos detalhes mais insignificantes dos treinamentos diários. O estágio lá fora proporcionou a Dorival um certificado de eficiência que talvez não tivesse. Tite que é, de longe, o mais esperto treinador brasileiro, já tinha visto a utilidade dessas viagens e fez uma ainda mais completa do que a de Dorival, antecipando-se a possíveis criticas ao seu trabalho na seleção brasileira. Ninguém vai poder dizer que esses treinadores não quiseram aprender com nossos mestres europeus. 

Cristóvão Borges, ao contrário, não mostra ainda em seu currículo nenhum período de estudos na Europa. E o pior é que não tem a aparência de quem pretenda fazê-lo. Tenta-se desesperadamente achar qualidades nele para justificar sua vinda. Lembram de sua passagem, como jogador, pelo Corinthians. Mas ela também não foi essas coisas. Cristóvão Borges não era um craque. É apenas um treinador de méritos, que parece mais apenas um ex-jogador. E será que não é sob essa aparência de boleiro típico que vamos encontrar a verdadeira causa da desconfiança, isto é, a cor? De fato, é bastante raro um treinador negro no Brasil, principalmente nascido na Bahia ou no nordeste. Pelo amor de Deus, não pretendo dividir o país nem de cravar uma cunha numa sociedade tão coesa, nada mais longe de mim do que duvidar da nossa harmonia racial e falta absoluta de preconceito. Mas que é difícil um treinador negro, é apenas um fato. 

É preciso lembrar, aliás, que foi o acaso, um infeliz acaso, que levou Cristóvão Borges a ser realmente treinador, ou seja, a doença de Ricardo Gomes em pleno campo fazendo com que seu auxiliar, Cristóvão Borges, assumisse o cargo. Como foi bem ficou. E foi em frente. Andou em grandes clubes e em clubes médios. Nunca foi acusado de incompetente ou incapaz. Mas nunca tinha treinado um time de São Paulo ou mais para o Sul. Por isso acho as dúvidas sobre sua contratação bastante confusas e há nelas inegavelmente coisas que só se explicam com uma análise um pouco mais de perto da nossa sociedade e de sua formação. 

O que mais me deixa satisfeito é que o homem está dando certo e o Corinthians, com o mesmo time deixado por Tite, mantém a mesma posição na tabela, talvez melhor. Vamos ver se Cristóvão com o tempo passa a ter a confiança de todos. Só vai faltar o estágio na Espanha, mas isso se arranja facilmente.

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