Felipe Rau/AE
Felipe Rau/AE

Uma tânica polêmica

Ainda é só estudo e já virou quase guerra. A pedido de produtores brasileiros, o governo pode dificultar a entrada de vinhos importados. Importadores, chefs e bebedores não gostaram

21 Março 2012 | 18h21

De um lado estão os grandes produtores de vinho brasileiro - responsáveis por 50% da produção. Do outro, grandes e pequenos importadores, sommeliers, chefs, donos de restaurantes e consumidores. Faz uma semana que os dois lados estão tintos de exaltação e fermentam uma tânica polêmica nas redes sociais, blogs, sites e Twitter. 

O motivo é a possibilidade de o governo brasileiro aumentar os impostos de importação de vinhos finos ou limite sua entrada no País por meio de cotas. As medidas estão em estudo na Secretaria de Comércio Exterior. 

A história começou em fevereiro, na Festa da Uva de Caxias do Sul, quando os produtores nacionais se queixaram à presidente Dilma Rousseff de que com a forte valorização do real - turbinada pela crise internacional - vêm perdendo mercado para o vinho importado e pediram proteção.

O governo entrou no assunto oficialmente na semana passada, com a publicação de uma circular no Diário Oficial da União de 14 de Março determinando a abertura de investigação. Isso quer dizer que os técnicos da Secretaria de Comércio Exterior estão avaliando o mercado e têm 40 dias para chegar à conclusão. 

Se o governo entender que o vinho nacional está ameaçado pode adotar salvaguardas. Na prática isso significa impor limites (cotas) de importação em volume ou valores ou aumentar as alíquotas de importação fora do Mercosul, sobretaxando o produto importado de forma que o similar nacional ganhe vantagem de preço. Fala-se de elevação dos 27% atuais para 55%. 

Ainda não há nada decidido. Mas a notícia de que as medidas estão em estudo provocou reação imediata e enorme - que fez muita gente perder a razão, dos dois lados. Houve propostas de boicote ao vinho nacional, sommeliers retirando tais vinhos de suas cartas e um abaixo-assinado eletrônico com mais de 3 mil assinaturas protestando contra o aumento de impostos.

A ideia de restrição ao consumo por cotas, de triste memória nas décadas passadas, cala fundo no brasileiro. O que está em jogo não é só o preço, mas a possibilidade de escolher. O consumidor não quer que o governo decida o que ele pode beber e quanto deve pagar.

Especialmente depois de se acostumar à oferta crescente e preços competitivos. Além disso, historicamente, cotas estimularam corrupção, contrabando e ineficiência da industria nacional. Mas daí a desarrolhar um boicote ao vinho brasileiro vai um longo caminho.

Por outro lado, os importadores reclamam mas as empresas importadoras de vinho no Brasil se multiplicam e seus catálogos engordam. Não há importador que não se queixe dos impostos. 

Assim como não há país produtor de vinho que importe a bebida em escala semelhante à brasileira, exceto os EUA, que bebem tudo o que produzem. Tente comprar vinho espanhol na França, francês na Espanha ou português na Itália para ver como o protecionismo funciona por lá. 

Com tudo isso, o perigo é o saca-rolhas sobrar na mão do consumidor, que pode acabar pagando mais pelo vinho importado sem a garantia de que o preço do vinho nacional vá baixar. 

Em nossa modesta opinião

Vinho no Brasil é caro. Tanto o nacional como o importado. Mas cada um poderia fazer sua parte para baixar os preços:

1. O governo poderia reduzir impostos para o vinho nacional.

2. Os supermercados se uniriam para escoar o estoque nacional (essa ideia não é nossa, é do Carlos Cabral, consultor do grupo Pão de Açúcar).

3. Importadores, comerciantes e restaurantes baixariam suas margens de lucro

4. E os consumidores? Ah, eles continuariam comprando e bebendo.

CIRO LILLA, importador

"Um espanto. Não consigo entender como o vinho nacional, um setor que cresceu mais de 7% no ano passado - quase três vezes a média do crescimento do PIB - precisa de salvaguarda. A definição de salvaguarda é proteção contra risco de colapso, e os produtores flagrantemente prosperaram. É um retrocesso, vamos voltar aos anos 80: o que vai acontecer é que haverá na prateleira meia dúzia de vinhos gigantes, os que aguentam as taxas."

ROGÉRIO FASANO, restaurateur do Grupo Fasano

"É um absurdo, é protecionismo e quem vai pagar a conta é o consumidor. Não é isso que vai fazer crescer o vinho nacional, até porque o grande concorrente do vinho brasileiro é o vinho da América Latina, que não vai entrar na salvaguarda. O concorrente do vinho do Rio Grande do Sul é o argentino. Não faz sentido penalizar o francês, o italiano."

ROGÉRIO D’ÁVILA, importador 

"O mais grave são as cotas - se for determinado que no Brasil só podem entrar 5 milhões de caixas, a gente vai voltar 40 anos. O governo brasileiro não incentiva a pequena bodega - nos últimos seis meses fecharam cem delas. Vão fechar mais 200 e a culpa não é dos vinhos importados. Elas vão fechar porque o governo trata pequenos e grandes produtores 
do mesmo jeito."

ARTHUR AZEVEDO, diretor executivo da ABS-SP 

Fiz a promessa de que enquanto durar essa brincadeira eu não tomo vinho brasileiro e não falo de vinho brasileiro. A coisa mais importante no vinho chama-se diversidade, mas você vai ter de se conformar com aquela meia dúzia de vinhos mequetrefes que produzem lá embaixo. Aí o que vai acontecer? Contrabando. Mas eles esqueceram que hoje nós temos Twitter, Facebook.

ALEX ATALA, chef 

Esse é um lobby prejudicial ao vinho brasileiro, na reta final. Eu tenho colocado vários vinhos brasileiros no cardápio do D.O.M e as pessoas preferem não provar, por segurança – ficam com os argentinos e chilenos. Essa medida só vai piorar. É cedo para falar o que vai acontecer, ainda não tenho uma opinião formada, mas acredito que essa alíquota vá aumentar o consumo de argentinos, uruguaios e chilenos. O mercado não confia no vinho nacional. 

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