Uma ''tomada da Bastilha'' à brasileira

Lewandowski, do STF, se impressiona com invasão da Câmara Legislativa

, O Estadao de S.Paulo

05 Dezembro 2009 | 00h00

Ricardo Lewandowski, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), comparou a ocupação da Câmara Legislativa - cidadela dos parlamentares mergulhados no "mensalão do DEM" - à tomada da Bastilha, capítulo crucial da Revolução Francesa. "Fiquei muito impressionado com a invasão da Câmara de Brasília. Eu até comentei com alguns amigos, equivale à invasão da Bastilha."

A queda da fortaleza medieval utilizada como prisão se deu a 14 de julho de 1789 e provocou uma sucessão de reações por toda a França no reinado de Luís XVI. Ontem, Lewandowski participou de evento na Associação dos Advogados de São Paulo. Fez conferência cerimoniosa, como manda o figurino, discorreu sobre jurisprudências, súmulas vinculantes e repercussão geral - de resto, temas afetos à augusta corte.

Depois, ao Estado, "como cidadão" ele desabafou toda a sua indignação ao abordar o desaforo de políticos do Distrito Federal. Sem citar nomes, porque a condição de magistrado não lhe permite, ele alertou para o que chama de "reação popular". Não aconselha o exemplo francês como via adequada. "O caminho deve ser o institucional. As instituições vigentes estão funcionando. O Brasil, apesar das crises políticas, tem resistido incólume. Vamos encontrar soluções. Temos uma imprensa vigilante, um Ministério Público ativo e um Judiciário que responde efetivamente, ainda que haja demora."

Nem toda sua experiência - e são tantos anos de toga, tantos feitos intrincados no currículo -, o livram da perplexidade. As cenas que o Brasil acompanha há dias pela TV, ora um estoca dinheiro nas meias, ora outro estufa as cuecas, merecem o repúdio da cidadania, prega Lewandowski. "O que choca é essa reiteração de comportamentos. Isso é uma coisa absolutamente antirrepublicana e deve ser combatida a todo custo, não apenas pelo Poder Judiciário e pelo Ministério Público, mas por toda a cidadania brasileira."

O ministro se diz enojado. "É inadmissível, sobretudo quando este comportamento funciona como caixa 2 para as eleições. É fraude direta à vontade do eleitor e vulnera profundamente a própria democracia. Como juiz, com prudência terei que examinar caso a caso que eventualmente chegar ao meu tribunal. Como cidadão eu estou enojado."

Ele não crê que o País tenha se habituado aos abusos. "A reação é grande, as mazelas fazem com que a população se indigne." O impacto deve chegar à sua mesa neste Natal. "Nem quero comer panetone."

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