Uma viagem pela grande floresta guiada pelo olhar de Gautherot

Norte, livro e exposição, traça um roteiro imaginário que começa em Manaus e termina em Belém

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

25 de novembro de 2009 | 00h00

Ao desembarcar em Belém há 70 anos, o francês Marcel Gautherot (1910-1996), que viria a ser o fotógrafo oficial da construção de Brasília, a pedido do arquiteto Oscar Niemeyer, não era ainda um profissional conhecido. Tinha apenas 29 anos e alguma experiência em fotografia étnica. No Museu do Homem de Paris, fundado dois anos antes (1937), Gautherot, como organizador de suas coleções de fotografia, acumulou experiência para se aventurar numa viagem pela Amazônia, registrando imagens marcantes que o Instituto Moreira Salles (IMS) reuniu numa exposição, aberta a partir de hoje, e no livro Norte. Com prefácio assinado pelo escritor amazonense Milton Hatoum, cronista do Caderno 2, e o crítico literário Samuel Titan Jr., o livro traz fotos que impressionam não só pela equilibrada composição formal, reveladora da formação arquitetônica de Gautherot, como pelo olhar humanista de um fotógrafo genuinamente interessado na vida do caboclo amazônico.

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A exposição tem 60 imagens selecionadas entre as 25 mil pertencentes ao acervo do IMS, do qual faz parte a coleção de fotografias de Gautherot. Radicado no Brasil na década de 1940, ele conheceu o País de ponta a ponta, registrando o cotidiano e a paisagem de 18 Estados brasileiros, das festas e tipos populares do Nordeste à arquitetura modernista do Rio de Janeiro, sua paixão. Gautherot teve de desistir da arquitetura, após ter começado sua vida profissional desenhando plantas. Os pais do fotógrafo não puderam bancar os estudos do filho - a mãe era operária e o pai, pedreiro - e a crítica situação financeira da família o levou a se engajar numa luta ideológica marcada pela militância no Partido Comunista francês.

No Brasil, adotado por Niemeyer, seu companheiro de partido, Gautherot foi escolhido pelo arquiteto para acompanhar e registrar todas as etapas de construção da nova capital. São registros históricos, que identificam automaticamente o olhar educado de um fotógrafo que testemunhou na juventude a ascensão e a queda da escola Bauhaus (1919-1933), marco zero da arquitetura moderna, fechada pelos nazistas. Prova evidente desse olhar arquitetônico está bem no alto desta página, que capta parcialmente o monumento à abertura dos portos localizado no centro de Manaus, em frente do Teatro Amazonas. A foto, de corte moderno, foi feita em 1942, em plena 2ª Guerra, da qual Gautherot não chegou a participar. Com o armistício franco-alemão, em junho de 1940, ele voltou e fixou residência no Rio de Janeiro, onde morreu 56 anos depois.

Segundo os autores do prefácio de Norte, Milton Hatoum e Samuel Titan Jr., não se sabe exatamente como Gautherot foi parar em Belém, mas há informações de que ele teria trabalhado para um francês, desenhando mapas, e teria vendido o relógio de pulso para custear a viagem pelo Amazonas. Fotografou garimpeiros no Amapá e retornou inúmeras vezes sozinho, registrando o abandono da população ribeirinha, as casas flutuantes do Rio Negro, os índios do Baixo Tocantins, os pescadores e os vaqueiros da Ilha Mexiana e o porto de Manaus, então chamado de Manaus Harbour. No livro, Hatoum e Titan compilam essas imagens e montam um roteiro imaginário que parte justamente do porto para chegar ao fim em Belém, depois de atingir o coração da floresta.

A dupla observa como foi difícil para um francês captar a paisagem da região, que deixou pintores e viajantes estrangeiros desesperados à procura de um posto de observação. Com Gautherot não foi diferente. Como captar a monumentalidade da floresta? Usando truques como nas litografias de Von Martius? Gautherot, segundo os dois prefaciadores de Norte, preferiu encontrar outras soluções compositivas, ajudado na tarefa por seu conhecimento de arquitetura. Usou negativos quadrados, recorrendo sempre a elementos retos para dividir e subdividir as imagens, como explica a dupla. A onipresença dos rios, claro, resistiu a essa redução geométrica e o emaranhado de galhos e cipós da floresta não era exatamente fotogênico. Gautherot, ainda segundo a dupla Hatoum e Titan, não se intimidou. Aproveitou as lições do impressionismo e mergulhou com sua Rolleiflex nesse caos.

A lição mais difícil, porém, não veio da observação monetiana da natureza instável, segundo a dupla. Contemplativo e taciturno, Gautherot teria se rendido ao ritmo lento da região amazônica, onde o tempo vira uma abstração à medida que o homem avança por rios sem fim. Mesmo os tipos humanos que povoam essas fotos, observam os prefaciadores de Norte, não foram captados com o olhar etnográfico de um cientista, mas com a curiosidade de um observador encantado com a alegre dança dos índios assurini ou com o delicado equilíbrio do balé de barqueiros nas traves de seus barcos.

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