Uma vida à espera da castanha

Quilombolas de Cachoeira Porteira passam três meses no extrativismo e o resto do ano no ócio

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2013 | 02h09

Subindo o Rio Trombetas em direção ao Mapuera, o condutor da voadeira de repente para e pede para os passageiros descerem. Ali mesmo, no meio do rio. As rochas que se elevam naquele trecho até a linha d'água só permitem a passagem a pé. Enquanto tentamos andar descalços sobre as pedras pontiagudas e quentes, o experiente barqueiro segue puxando a voadeira por entre os obstáculos.

São barreiras físicas como essas que atraíram para lá quilombolas há mais de 200 anos fugidos de fazendas em Santarém e Óbidos. Só eles e os indígenas que já viviam ali conseguem driblar as corredeiras e cachoeiras que se espalham pelos rios da Calha Norte. Embarcação grande não passa até hoje, que dirá na época da escravidão.

Além de refúgio, foi além daquela região acidentada que os quilombolas encontraram os melhores castanhais. Até hoje os moradores de Cachoeira Porteira, que leva este nome por ficar no limite do trecho navegável do rio, transpõem as cachoeiras para colherem castanha.

Por três meses, de março a junho - às vezes um pouco antes ou depois, dependendo do início das chuvas -, esses remanescentes de quilombolas acampam nos castanhais e coletam tudo que podem, enchendo repetidas vezes o paneiro (cesto com alças que levam nas costas), que suporta até 40 kg de castanhas.

"A gente leva só farinha, sal, café e açúcar. Às vezes tem de andar duas horas até chegar ao castanhal, pulando tronco e, depois, na volta para o barraco, tem de enfrentar carapanã (mosquito da malária). Por isso a gente vai gordo e volta magrinho", brinca Nelson da Silva Adão.

"Três coisas são importantes: chuva, sol e vento", conta João Paulo Melo dos Santos. "A chuva molha o ouriço e ele fica mais mole, aí o sol seca e o vento derruba. A gente pega tudo o que está no chão e leva para longe da castanheira para só então abrir os ouriços, se não corre o risco de levar um na cabeça."

Um termo de responsabilidade feito com a regional do ICMBio permite que os quilombolas coletem também na Rebio do Rio Trombetas, que fica ao lado da comunidade e tem os melhores castanhais. Por lei eles não podiam entrar lá, mas como já ocupavam a área antes da criação da unidade, em 1979, conquistaram o direito de fazer um extrativismo controlado.

Praticamente 100% da renda de Cachoeira Porteira vem da castanha. Fora de sua época, porém, não há muito o que fazer. Alguns cultivam uma rocinha, outros pescam, "mas a maioria fica andando de um lado para o outro, bebendo umas", como conta Adriane Cordeiro do Carmo, de 23 anos, moradora e membro do conselho de fiscalização da comunidade.

Além da falta de ocupação, os moradores se queixam da frágil infraestrutura, principalmente dos problemas causados por falta de energia. Assim como ocorre na maioria das cidades da região, energia lá é à base de diesel. E o combustível para abastecer geradores normalmente é doado pela prefeitura. Se por algum motivo ele falta, não dá nem para pegar água do poço. Aí não são raros casos de diarreia.

A malária de tempos em tempos ataca e não existe um posto de saúde, somente um agente treinado para checar no microscópio o sangue dos moradores. Mas também não há remédios. Para ir até o centro urbano de Oriximiná, são cerca de 12 horas de viagem. E nem sempre há barco público disponível. Um particular cobra R$ 50 a viagem.

Um dos mais velhos moradores da comunidade, Valdemar dos Santos, de 78 anos, vê também diferença na abundância dos recursos. "Castanha não dá mais como antes, as árvores novas não viçam como as de antigamente", lembra. "E a gente comia era muita tartaruga. É a comida melhor que tem."

A Rebio foi criada justamente para garantir a reprodução e preservar o animal, que estava se extinguindo. A caça foi proibida. "A população cresceu muito, acabou com as tartarugas. Sinto falta de comer, mas digo para o pessoal do Ibama: se não fossem vocês, aí que já tinha acabado tudo mesmo." Mas apesar das dificuldades, Santos contemporiza. "Pelo menos estamos melhor do que na cidade. Pro pobre lá é diferente. Lá se a pessoa não trabalha, não come, não vive."

Comunidade pede título de terra quilombola

Localizada em parte na Floresta Estadual (Flota) do Trombetas e parte na Reserva Biológica do Rio Trombetas, a comunidade Cachoeira Porteira pede que sua área seja reconhecida como terra quilombola, título privado que faria com que o local deixasse de ser área protegida. De acordo com os líderes quilombolas, o objetivo é poder investir em turismo de pesca esportiva. Mas o assédio de madeireiras tentando entrar na área já é grande hoje.

Jakeline Pereira, pesquisadora do Imazon e coordenadora de projetos na Calha Norte, explica que madeireira só não entra hoje porque eles estão numa unidade de conservação que, apesar de não ter gestão, tem monitoramento por satélite. E a comunidade está a menos de meia hora de uma base do ICMBio. Por ali não tem como passar um barco com madeira sem ser visto. Mas se for privatizada, a decisão sobre o que fazer com a terra seria dos quilombolas.

O Imazon defende a recategorização da Flota em Resex (Reserva Extrativista), modelo de unidade de conservação em que aumentam as possibilidades de uso dos produtos florestais e não florestais. De todo modo, lembra Jakeline, hoje a Flota já permite o turismo com controle. Sem gestão, no entanto, os moradores parecem nem saber que podem fazer, muito menos como. O assunto está sendo discutido com a população.

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