Uma visão equivocada

Mercado financeiro começa a demonstrar pessimismo com atuação do governo

O Estado de S.Paulo

21 Agosto 2016 | 03h00

Três meses depois de aclamar com grande entusiasmo o afastamento da presidente Dilma Rousseff, os agentes do mercado financeiro começam a demonstrar um pessimismo crescente com relação à atuação do governo chefiado pelo presidente em exercício Michel Temer. As duas reações contêm pelo menos alguma carga de exagero. Por seu impacto sobre a vida das pessoas, a atuação das empresas e o funcionamento do setor público, os graves e extensos problemas produzidos ao longo dos 13 anos da administração populista chefiada pelo PT exigem a busca rápida de soluções. Mas, dada sua gravidade, eles não serão resolvidos em semanas ou meses, como parece ser a expectativa daqueles que viram na evolução do processo de impeachment de Dilma o fim de todos os males políticos, econômicos, sociais e morais que afligem o País.

A ansiedade excessiva de muitos agentes do mercado financeiro parece turvar-lhes a visão da realidade, impedindo-os de ver mudanças relevantes que já ocorrem e os fazendo imaginar que a guerra contra a crise nacional, que é de todos os cidadãos responsáveis, está sendo perdida.

É preciso levar em conta, em primeiro lugar, que, nas circunstâncias atuais, o governo Temer é de transição. Do ponto de vista formal, sua continuidade até 2018 está condicionada à aprovação, pelo Senado, do impeachment de Dilma Rousseff, o que deverá ocorrer até o fim do mês. Certamente o governo, bem como a imensa maioria dos brasileiros, receberá com alívio essa decisão. Mas ela apenas dará ao governo Temer melhores condições para cumprir uma tarefa duríssima, a de recolocar o País no trilho do crescimento, sem o qual não será possível promover a recuperação do emprego, da renda dos brasileiros, dos ganhos das empresas e da receita pública.

Trata-se de uma tarefa de grande complexidade, cuja responsabilidade Temer sabiamente atribuiu a pessoas com competência e talentos que foram reconhecidos pelo próprio mercado quando anunciadas as suas escolhas. Mesmo assim, para uma parte dos operadores do mercado, os escolhidos parecem não inspirar mais o mesmo grau de credibilidade e confiança com que contaram quando assumiram seus cargos. Caberia perguntar aos que começam a manifestar desencanto com o governo: como estaria o País hoje se, por exemplo, o ministro da Fazenda fosse Guido Mantega e não Henrique Meirelles? Quais seriam as expectativas com relação ao déficit primário do setor público?

Decerto nem tudo saiu ou está saindo como queria o governo. Talvez pouco do que se esperava foi aprovado ou caminha com segurança para a aprovação no Congresso. Há um tempo e há um rito na política que nem sempre condizem com a velocidade muitas vezes exigida pelas decisões na esfera puramente econômico-financeira. Em momentos de grave crise, como é este período de transição pelo qual o Brasil passa, esse descompasso pode gerar frustrações, interpretações equivocadas, desânimo.

Fatos naturais da atividade política, decorrentes da indispensável negociação entre Executivo e Legislativo, passam a ser interpretados como recuos, derrotas ou abandono de programas e princípios. O exemplo mais evidente desse fenômeno talvez seja o episódio da negociação da dívida dos Estados com a União e das medidas complementares dessa negociação.

O texto aprovado, que permite o alongamento da dívida dos Estados por 20 anos, impôs aos governos estaduais um rigoroso limite para a evolução dos gastos primários. Mas o fato de, durante as negociações, o governo ter concordado com a retirada da proibição da concessão de reajustes salariais ao funcionalismo – o que, de algum modo, a imposição de um teto para os gastos já contempla – alimentou a falsa interpretação de recuo ou de derrota para o Palácio do Planalto.

O surgimento de sinais tênues, mas positivos, de recuperação em diferentes áreas – da produção industrial às expectativas do comércio – sugere que o ciclo depressivo da economia pode ter chegado a seu ponto mais baixo. É animadora a disposição do governo interino de, com o uso dos instrumentos institucionais ainda precários de que dispõe, preparar o caminho para a solução dos graves problemas do País. Mas parte do mercado parece ignorar tudo isso.

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