Alline Dauroiz / LOS ANGELES,

19 de dezembro de 2010 | 12h01

 

  Natal em família costuma ser mais ou menos parecido em qualquer lugar do mundo: depois da comoção e euforia comuns à data, e alguns brindes a mais, combinados ao estresse de fim de ano, não é raro que, ao fim da noite, chegue a hora de acertos de contas e desabafos que quase sempre terminam ali mesmo com um prato de pudim. Foi num cenário parecido que a ideia da série da HBO Big Love – Amor Imenso nasceu, conforme contou um dos criadores, Will Scheffer, ao Estado durante visita da imprensa internacional ao set de gravação da série.

 

"Eu e meu parceiro de criação (Mark Olsen) voltávamos de um Natal em família – o da família dele – que havia sido um tanto confuso, aquela coisa de bebida, brigas... Natal (risos). Já no carro, conversávamos sobre projetos para a TV, acho que ele estava com aquelas confusões na cabeça, quando disse: ‘E se a gente fizesse uma série sobre uma família poligâmica?’.

 

Aficionado por História, o roteirista Mark Olsen quis explorar, além da poligamia, a rica cultura mórmon, que teve sua importância na história americana. "Na hora, pensei: ‘poligamia mórmon? Eca!’ Imagino que foi o que a maioria das pessoas pensou quando vendemos o projeto", confessa Scheffer.

 

Quase cinco anos depois, a polêmica série sobre um mórmon fundamentalista casado com três mulheres – que vivem na mesma casa – chega agora a sua quinta e última temporada como sucesso de crítica e, segundo o autor, a aprovação da comunidade religiosa.

 

"Os fundamentalistas de verdade nunca nos mandaram nenhum tipo de manifestação, acho que nem assistem à TV. Mas outros grupos fundamentalistas, polígamos mais modernos, adoram, porque retratamos muitos aspectos da cultura deles", diz Scheffer. "Já a Igreja Mórmon tradicional não aceita a poligamia e se preocupa em como vamos retratá-la."

 

De acordo com Scheffer, a preocupação em mostrar a religião de forma fiel e sem pré-julgamentos baseou toda a criação do programa. Para a pesquisa, que não contemplou visitas às comunidades poligâmicas, os criadores gastaram quase três anos.

 

"A ideia de poligamia é tão vaga... Mas, depois que começamos a pesquisar e criar os personagens, pensamos: ‘Não é tão ruim assim.’ Eles são todos adultos, é uma sociedade patriarcal, mas as mulheres podem não ser subjugadas. Nos preocupávamos com o que as feministas iam pensar, mas depois achamos que seria uma boa maneira, subversiva, de explorar o feminismo."

 

Essa visão imparcial, porém, cairia por terra em maio de 2006, apenas dois meses após a estreia da série nos EUA, quando o caso Warren Jeffs veio à tona. Polígamo e autoproclamado profeta de uma seita religiosa mórmon do sudoeste dos EUA, Jeffs foi acusado de ser cúmplice no estupro de uma adolescente em 2001, além de ter promovido um casamento forçado entre uma adolescente de 14 anos e seu primo de 19. Jeffs também admitiu ter mantido atitudes imorais com uma de suas irmãs e uma de suas filhas. Em 2007 ele seria condenado a 10 anos de prisão.

 

"Depois de todo aquele escândalo, dos casos de abusos e daquele homem tão nojento, ficou difícil não fazer julgamentos", relembra Scheffer. "Decidimos que precisávamos dramatizar de uma forma a expor como certas coisas funcionam, responsabilizando-os por certos atos." A reflexão explica as atitudes imorais de alguns dos personagens da série, como os "profetas" Roman Grant (Harry Dean Stanton) e seu filho Alby (Matt Ross).

 

Assumido. Neste quinto ano – que estreia nos EUA em 16 de janeiro e na HBO brasileira apenas uma semana depois, em 23 de janeiro, às 21h30 –, a história deixa o tom de novela que assumiu na 4.ª temporada e volta a centrar no relacionamento de Bill Henrickson (Bill Paxton) com suas mulheres.

 

Agora senador por Utah, Estado com grande concentração de mórmons, Bill terá de lidar com as consequências de ter "saído do armário" e assumido sua poligamia publicamente, no último capítulo do 4.º ano (temporada que será reprisada diariamente, de segunda a sexta, às 23 horas, a partir de 4 de janeiro). A prática, vale lembrar, é proibida no país desde 1862 e foi abandonada, oficialmente, pelos mórmons de Utah nos anos 1890. Assim, ele e sua grande família enfrentarão não só o preconceito da sociedade, mas do eleitorado mórmon e de outros polígamos que temem ser descobertos.

 

Outro fato que promete desequilíbrio à família Henrickson é a saída de Amanda Seyfried da série. Famosa pelo papel da protagonista adolescente de Mamma Mia, a atriz decidiu investir na carreira cinematográfica. Na série, Sarah, a filha de Bill e sua primeira mulher, Barb (Jeanne Tripplehorn), casa-se com o namorado, Scott (Aaron Paul), e se muda para Portland.

 

O relacionamento entre as três mulheres, Barb, Nicki (Chloë Sevigny ) e Margene (Ginnifer Goodwin) também será intensificado neste ano e Scheffer explica o porquê. "Essas mulheres se amam. Confesso que no começo também pensava: ‘Meu Deus, isso é possível?", lembra o roteirista. "Mas vários livros falam dessa estranha relação. Enquanto umas cuidavam das crianças, outras exerciam profissões, eram médicas, advogadas. É interessante como elas se ajudam, não importa o que aconteça. Claro que há muito ciúme e dificuldades no casamento. Mas uma coisa é certa: todas amam Bill."

 

 

VIAGEM FEITA A CONVITE DO CANAL HBO

 

 

ÚLTIMO ATO

Criador de Big Love – Amor Imenso fala ao Estado sobre o 5º e último ano da série da HBO, que vai mostrar o sentimento que une a família poligâmica. "Todas amam Bill", diz ele

 

Veja também:

link 'Família é família'

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