Usinas priorizam venda de etanol apesar de programa de estocagem

Com a necessidade de fazer caixa diante da escassez de crédito, as usinas de cana-de-açúcar do centro-sul seguem priorizando vendas de etanol, deixando pouco produto estocado, apesar do programa do governo para o financiamento dos estoques.

ROBERTO SAMORA, REUTERS

18 de junho de 2009 | 18h09

Reivindicado pelo próprio setor, o financiamento dos estoques de etanol teria o objetivo de sustentar os preços no início da safra 2009/10, o que não vem ocorrendo.

Os preços do etanol hidratado (sem impostos e sem frete) em São Paulo, de acordo com o Indicador Cepea, estão abaixo de 0,60 real desde o final de abril, oscilando perto dos menores valores registrados na temporada 09/10.

"A partir do momento que mantém o preço baixo e mantém o mercado aquecido, você tem volume todo dia para vender, e o que as empresas precisam é do caixa do dia a dia", afirmou o diretor-técnico da Unica, Antônio de Pádua Rodrigues, em entrevista.

Com intensas vendas, as usinas, de maneira geral, enfrentam dificuldades para acessar os recursos do programa de financiamento de estoques do governo, que exige como garantia a armazenagem de 1,5 litro de etanol para cada litro financiado.

"Esperávamos que (o financiamento de estoques) fosse mais utilizado. Entendemos que a opção dos produtores, em vez de ofertar o produto no mercado, seria tomar o financiamento, mas a questão da dificuldade que as empresas têm com limite de crédito e a incerteza do financiamento levou quase que todo mundo a ter a opção de venda", acrescentou Pádua.

Desde o início da safra, segundo dados divulgados nesta quinta-feira pela Unica, as usinas do centro-sul conseguiram estocar "apenas" 330 milhões de litros, para uma produção de 4,6 bilhões de litros.

Mas o diretor-técnico avalia que essa tendência de preços baixos do etanol deve mudar. "Daqui para frente, as empresas estão se financiamento com o açúcar... e a qualquer momento o preço do álcool tende a reagir, não vai permanecer por muito tempo nessa condição."

UNICA MANTÉM PREVISÕES

Apesar do intenso ritmo da moagem de cana neste início de safra, superior a 100 milhões de toneladas, a Unica disse por meio de seu diretor que mantém as previsões de moagem para 2009/10, de 550 milhões de toneladas de cana no centro-sul.

Pádua explicou que, diferentemente do ano passado, quando a moagem avançou para além do período normal, nesta temporada o esmagamento será mais intenso no início da safra.

"Vamos ter uma característica de um deslocamento da safra, ela vai crescer no início da safra, mas não vamos ter a moagem que tivemos no ano passado de novembro para frente", disse.

Segundo o diretor, este ano as usinas contaram com um maior volume disponível no início da safra, pelo fato de muita cana ter ficado no campo no ano passado.

Isso, combinado com a necessidade de se fazer caixa, está levando as usinas a intensificarem a moagem nesses primeiros meses.

Além disso, o tempo tem sido favorável, com algumas raras exceções de dias chuvosos em maio e na semana passada.

Segundo Pádua, as exportações nesta safra seguem um ritmo semelhante ao verificado no ano passado, atingindo em abril e maio 580 milhões de litros, ante pouco mais de 600 milhões nesses dois meses em 2008.

"O que viabilizou (a exportação) foi o nível de preço no mercado interno muito baixo, e também houve uma alta do petróleo em países importadores. Essa combinação criou uma arbitragem positiva e favoreceu exportações", declarou o diretor, que mantém a previsão de vendas externas em 09/10 de 3,6 bilhões de litros, a partir das empresas do centro-sul, ante 4,2 bilhões na temporada 08/09.

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