Uso do Enem no vestibular da UFRJ gera debandada em faculdades do Rio

Avaliação. Resultado tardio do vestibular da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1ª opção da maioria dos candidatos, faz com que aprovados abandonem cursos iniciados em outras instituições, esvaziem turmas e abram a vaga que ocupavam com 1 mês de aula

Clarissa Thomé / RIO, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2010 | 00h00

O cancelamento do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), em outubro, após o vazamento da prova, continua causando transtornos. Milhares de alunos que utilizaram a nota do Enem como primeira fase do vestibular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) descobriram que foram aprovados apenas no início de abril, quando já frequentavam as aulas em outras universidades que haviam escolhido como segunda opção.

O resultado foi um processo em efeito cascata: além de a UFRJ ter atrasado em um mês e meio o início do ano letivo, esses novos alunos abandonaram o curso que faziam em outras instituições, esvaziando turmas inteiras. De quebra, o resultado tardio do vestibular da UFRJ para os candidatos que utilizaram a nota do Enem obrigou as instituições que perderam esses alunos a abrir novas listas de aprovados, também com atraso.

Só a Universidade Federal Fluminense (UFF), considerada a segunda opção da maioria dos vestibulandos, convocou 772 candidatos após o resultado da UFRJ. Outros 281 candidatos, que haviam sido aprovados para cursos com início das aulas no segundo semestre ou em outros turnos, foram remanejados.

Em alguns cursos, a debandada foi geral. Em listas de discussões nas redes sociais na internet, estudantes relatam que uma das turmas de Economia da UFF ficou com apenas sete alunos. Só o Direito da Fluminense abriu 94 vagas para reclassificados e remanejados em 9 de abril; na semana seguinte havia mais 27 vagas. A Faculdade de Economia reclassificou e remanejou 71 e, depois, mais 16. Em menor escala, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e outras instituições federais e particulares perderam alunos.

O estudante Felippe Coimbra, de 21 anos, esperava começar a Faculdade de Economia na UFF no segundo semestre, mas foi surpreendido por um telefonema no último dia 15: deveria se apresentar à faculdade e começar a assistir às aulas na noite seguinte, uma sexta-feira. Ele teve apenas uma aula de macroeconomia, mas fez, na noite de ontem, a primeira prova. A turma, com um mês e meio de aulas, já fez outros três testes da matéria.

"A UFRJ é a primeira opção de todo mundo. Instituições como UFF e Uerj fazem muitas reclassificações por causa disso. Mas dessa vez a UFRJ demorou demais para chamar e as aulas já tinham começado há muito tempo. Não passei pelo trote, não conheço as pessoas da minha turma, não tenho nem para quem pedir a matéria", contou Coimbra.

O coordenador-geral do Vestibular da UFF, Neliton Ventura, explica que esse movimento de alunos já era esperado. "Neste ano o transtorno foi maior porque aconteceu com as aulas já iniciadas. Isso ocorreu por um fato alheio à vontade de todos, inclusive da UFRJ. Todos os coordenadores de curso foram avisados de que receberiam novos alunos e cada coordenação vai adotar procedimentos para minimizar os problemas para os estudantes. Mas seria um crime ficarmos com vagas ociosas", afirmou.

Troca-troca. Na Uerj, a evasão atingiu com mais força os cursos de Medicina e História - foram chamados 18 e 25 candidatos, respectivamente em uma "reclassificação especial". Os alunos haviam perdido 29 dias de aulas. Já a UniRio, prevendo o troca-troca, marcou o início do ano letivo para 29 de março. Os últimos alunos ingressaram no dia 16, mas perderam apenas uma semana de aula - a primeira foi dedicada ao "acolhimento".

Em alguns casos, o prejuízo foi financeiro. A família de Ana Carolina Maio Veiga, de 20 anos, pagou cerca de R$ 3,6 mil entre pré-matrícula e mensalidades da Pontifícia Universidade Católica, para que a jovem estudasse Direito. No início do mês, ela foi chamada pela UFRJ. "A PUC não estava nos meus planos. Mas foi uma carta na manga, caso eu não entrasse em nenhuma outra faculdade", conta Ana Carolina.

Na UFRJ, ela não teve a primeira semana de aula. "Simplesmente porque só havia dez alunos na sala. Toda a turma estava estudando em outras universidades e as pessoas foram chegando aos poucos. Depois, com as reclassificações, ainda fui chamada pela UFF e UniRio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro)."

PARA LEMBRAR

Vazamento atrapalhou calendários

O vazamento da prova do Enem, revelado pelo Estado em 1.º de outubro, provocou o adiamento do exame para dezembro, o que levou à alteração do calendário do processo seletivo das universidades federais e fez com que algumas das mais prestigiadas instituições de ensino superior do País - como USP, Unicamp e PUC-SP - desistissem de utilizar o resultado da prova como parte de seu vestibular.

Com as mudanças, mais de 1,5 milhão de alunos deixaram de fazer o Enem. A abstenção, de 37,7%, foi a maior da história da prova, que existe desde 1998.

Com o início das matrículas pelo Sistema de Seleção Unificado (Sisu) apenas no dia 5 de fevereiro e 45% das vagas não preenchidas até 5 de março, muitas universidades acabaram atrasando o início das aulas em uma ou duas semanas.

Mas na UFRJ, que usou o Enem como sua primeira fase, o processo se complicou. Sem o resultado a tempo, a universidade teve de convocar todos os estudantes que fizeram o Enem para a prestar a segunda fase, nos dias 9 e 10 de janeiro. Mas a instituição esperou receber as notas do Enem para só então corrigir as provas dos melhores colocados.

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