Imagem Luiz Horta
Colunista
Luiz Horta
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Uvas da Madeira desafiam chuva e fogo

Voltei à Ilha Madeira após as chuvas e encontrei uvas viçosas como há muito não se via

Luiz Horta,

30 de setembro de 2010 | 08h41

Já aqui escrevi sobre o temporal que assolou a Ilha Madeira em fevereiro deste ano. Carros, estradas, casas, lojas, igrejas e outros edifícios não escaparam à fúria das águas que assolaram a cidade do Funchal e arredores. Mais tarde, em pleno verão, vieram os fogos. Grande parte da ilha sofreu com os incêndios, uns acidentais, outros de origem criminosa, que fizeram desaparecer muito da rica vegetação que faz dessa ilha uma das mais bonitas de Portugal. E mesmo assim, mesmo com todas estas desgraças, as uvas conseguiram escapar às tormentas.

Regressei finalmente à Madeira após as chuvas e encontrei uvas viçosas como há muito não se via. As castas nobres recomendadas na produção de vinho Madeira são a Sercial, a Verdelho, a Boal, a Malvasia, a Terrantez e a Tinta Negra Mole, sendo que a penúltima é muito rara, e a última, pelo contrário, representa mais de 60% dos encepamentos da ilha por ser a mais produtiva (daí durante anos não ter sido considerada tão nobre quanto as outras). Só uma empresa de Vinho Madeira, a Henriques & Henriques possui vinhas próprias. As vinhas restantes pertencem a pequenos produtores que fornecem uvas a todas as outras firmas existentes. Estive exactamente numa dessas propriedades, a Quinta do Jardim da Serra, um pequeno "quintal de uvas" situado a 800 metros de altitude no Estreito da Câmara de Lobos, onde pude assistir à vindima de Negra Mole, nas suas vinhas só existe essa casta. Esse produtor fornece à Madeira Wine Company. Já as castas brancas são em quantidade mais escassa e existem por aquela região, mas também um pouco por toda a ilha, principalmente no extremo norte e no oeste; existem em vinhas situadas a grande altitude e também ao nível do mar.

Resumindo, fora as chuvas que felizmente não causaram grandes danos na vinha, tudo indica que o vinho sairá beneficiado este ano, graças aos ventos quentes e secos de leste e ao sol que se fez sentir ao longo do ano, facto que contribuiu bastante para a maturação da uva e para a redução de suas doenças. Mesmo assim, e porque a natureza é caprichosa, a quebra na produção foi este ano de quase 30%. Mas houve melhora na qualidade, apesar das expectativas pessimistas devido às variações climatéricas.

Surpresas à parte, o microclima da ilha, juntamente com as características de cada casta, fazem do Madeira um vinho único. Sabendo disso, a mais famosa crítica de vinhos mundial Jancis Robinson visitou a Madeira recentemente, fez diversas provas e foi embora encantada. Espero que também tenha ficado inspirada, pois o Madeira é um vinho que bem precisa ser divulgado, um tesouro que merece ser partilhado com os apreciadores de vinho de todo o mundo.

 

 

Veja também:

linkLento ritual da degustação uruguaia

linkRubaiyat produz vinho galego

Leia mais:

linkLoucos por café

blog Blog do Paladar

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.