Vacinação acaba sem atingir a meta

A campanha de vacinação contra gripe suína termina hoje sem conseguir imunizar em número suficiente um dos grupos mais suscetíveis à doença - as grávidas. Entre gestantes, a cobertura atingiu 70%, porcentual que está abaixo da meta estabelecida, que era de alcançar pelo menos 80% desta população.

Lígia Formenti / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2010 | 00h00

Também entre crianças de 2 anos a 4 anos e 11 meses e entre adultos com idade entre 30 e 39 anos a procura pela vacina não alcançou a marca esperada.

Mesmo com o baixo desempenho nos três grupos, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, afirmou ontem não haver perspectiva de nova prorrogação da campanha. "Apelo para que pais e responsáveis levem as crianças aos postos. O mesmo vale para adultos entre 30 e 39 anos", disse. Apesar de oficialmente a campanha não ter sido estendida, o ministério recomendou que Estados e municípios continuem as ações para garantir a cobertura mínima de 80% em todos os grupos.

O porcentual de vacinação de crianças na faixa etária entre 2 anos e 4 anos e 11 meses foi de apenas 5,4%: 515 mil crianças vacinadas de um público estimado em 9,6 milhões. Entre adultos de 30 a 39 anos, o índice de procura aos postos foi de 55,2%.

A campanha começou dia 8 de março. Desde então, foram vacinadas 70 milhões de pessoas - 21 milhões a menos do que o planejado inicialmente.

A maior resistência em aderir à iniciativa foi de gestantes: o grupo tem a vacina disponível desde 22 de março. O ritmo de aumento da adesão entre essa população também é lento, mesmo no fim da campanha. Até dia 21 de maio, 66% das grávidas estavam imunizadas. Ontem, essa marca havia chegado a 70%.

O Ministério da Saúde atribui parte do resultado obtido com as gestantes a imprecisões na estimativa de quantas pessoas integram esse grupo. O cálculo foi feito com base nos nascimentos anuais de crianças. O resultado obtido é de um número aproximado. Técnicos observam que uma parte das mulheres deu à luz nos primeiros meses do ano, antes de começar a vacinação. Há, ainda, as que vão engravidar depois do fim da campanha.

Entre crianças de 2 anos a 4 anos e 11 meses, o porcentual é também muito pouco expressivo. A diferença, no entanto, é que este foi o último grupo incorporado à iniciativa. Somente dia 24 é que a vacina tornou-se disponível para esta população.

Portadores de doenças crônicas, crianças entre 6 e 23 meses, trabalhadores de saúde e indígenas já atingiram a meta mínima de 80%. A expectativa do ministério era a de que até hoje o índice também fosse alcançado entre adultos de 20 e 29 anos.

O ministério não informou o destino que será dado às vacinas que sobrarem. A decisão será dada quando Estados concluírem os números finais da vacinação.

Em São Paulo, por exemplo, não haverá sobras da vacina, segundo a coordenadora de Imunizações da Secretaria Estadual da Saúde, Helena Sato. "Nosso estoque é suficiente para concluir a vacinação de adultos até amanhã (hoje) e para aplicar a segunda dose nas crianças."

Helena explica que crianças de 6 meses a 4 anos e 11 meses que ainda não receberam a segunda dose poderão ser vacinadas mesmo após o término da campanha.

Estratégia errada. Para a infectologista Nancy Bellei, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o governo errou ao dividir a campanha em diversas etapas. "Isso confundiu a população e diminuiu a adesão. Somente profissionais da saúde deveriam ter sido vacinados antes para garantir o atendimento."

Outro entrave, na avaliação de Nancy, foi a falta de informações sobre a doença por parte da população e dos profissionais de saúde. "Não temos uma cultura de gripe forte aqui no Brasil, ao contrário de países mais frios, onde a doença é mais incidente. Até mesmo por parte dos médicos falta informação sobre o impacto social da doença. Muita gente confunde ainda gripe com resfriado, não sabe que a doença pode levar à hospitalização."

A analista em comércio exterior Viviane Lolis, de 31 anos, não imunizou os filhos Amanda, de 1 ano e 9 meses, e Matheus, de 2 anos e 9 meses, porque tem dúvidas de que a vacina seja realmente segura e necessária. "Não acredito nem na vacina da gripe comum nem na da suína porque, nos dois casos, se tratam de vírus mutantes. Quem me garante que a vacina produzida em 2009 vai ser eficaz em 2010? E não se tem certeza das reações causadas." / COLABOROU KARINA TOLEDO

Balanço

510

internações de pacientes com gripe suína foram registradas

neste ano, até o dia 8 de maio

64

pessoas morreram da doença desde o início do ano

30%

das mortes foram de gestantes

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.